quarta-feira, 31 de março de 2010

"FUNK CARIOCA" NÃO CONSEGUIU AVANÇAR COM RETÓRICA "ETNOGRÁFICA"


Foi como uma porção de fezes embrulhada num livro de antropologia. O "funk carioca" (FAVELA BASS) não conseguiu convencer a opinião pública com sua retórica "etnográfica", porque era um discurso falsamente sofisticado, feito para disfarçar um estilo musicalmente chato, difícil de ouvir com atenção, e marcado pelo grotesco gratuito, pelo mau gosto impositivo e constrangedor.

O "funk carioca" teve que se contentar com o mercado que conquistou. Com o controle social que exerce sobre o povo pobre, com os estudantes de escolas públicas deixando rolar o ritmo nos seus telefones celulares. Mas a reputação dos sonhos, de "música popular do século XXI", "novo folclore brasileiro", com as comparações pretensiosas à Semana de Arte Moderna, Revolta de Canudos e outros eventos históricos, simplesmente não se realizou.

Isso porque o "funk carioca" esbarrou numa intelectualidade inteligente e crítica, que certamente não se convenceu com a falsa ideia de que o MC Créu, por exemplo, seria o novo Donga, e o Latino o novo Ernesto Nazareth. Tudo por conta das pretensas e demagógicas comparações que a rejeição do "funk" possui hoje com a que o samba teve há cem anos atrás. Até porque são épocas diferentes com perspectivas morais diferentes. Quem rejeitou o samba era moralmente rígido demais. Quem rejeita o "funk" é moralmente bem mais aberto, só não aceita a baixaria, a grosseria, a estupidez.

Por isso, o "funk carioca" agora tem que liberar seu espaço para a campanha do "sertanejo universitário", de um lado, e a do porno-pagode baiano, de outro. O "funk" tem que se contentar com o mercado que conquistou, à maneira do competidor de quiz show que, ao ganhar a quantia de um milhão, decide encerrar a competição por aí, em vez de continuar a competir e se arriscar a perder até tudo que tinha.

Além disso, a mídia golpista, já preparando sua campanha para botar um tucano no Planalto novamente, não teria mesmo que usar o grotesco funqueiro como trilha sonora do mainstream midiático, mas o comportado e "familiar" breganejo, na sua versão "universitária", com seus cantores parecendo galãs de novela ou, quando muito, atores de Malhação. A direita quer espantar os ares populistas, mais uma vez evocando a "tradição" da família e da propriedade privada expressas pelos emergentes "jovens sertanejos".

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Alexandre, será que já tem algum intelectualóide comparando a dupla João Neto & Frederico ao trio Sá, Rodrix & Guarabyra? Acho que, em breve, os breganejos colloridos (como Bruno & Marrone, Chitãozinho & Xororó, Chrystian & Ralf, Daniel com e sem João Paulo, Gian & Giovani, Leonardo com e sem Leandro e Zezé Di Camargo & Luciano) e universotários (como os gordos César Menotti & Fabiano e os piratas João Bosco & Vinícius) vão invadir as rádios cariocas Beat 98 e FM O Dia...
É difícil não perceber que a estética da capa do DVD "O Melhor do Sertanejo Universitário" (o nome deveria ser "O Pior do Breganejo Universotário") foi copiada do LP do evento "Phono 73", no qual Caetano Veloso duetou com o brega pós-jovemguardista Odair José.