segunda-feira, 22 de março de 2010

"CURITIBANIZAÇÃO" DOS ÔNIBUS É PROJETO DA DITADURA MILITAR



Observando o perfil de Jaime Lerner no Wikipedia, pude notar que as raízes da "curitibanização" dos ônibus e outras medidas pragmáticas ligadas ao transporte mostram suas raízes na ditadura militar.

O pioneirismo de Curitiba nos anos 70, por volta de 1974, ainda em pleno AI-5, e seguindo uma orientação tecnocrática que os burocratas do acordo MEC-USAID sonhavam - lembrando que o ministro que tentou criar um projeto ditatorial para a Educação e para o movimento estudantil (substituindo a UNE por uma tal Diretoria Nacional dos Estudantes, que funcionaria como um órgão do MEC), Flávio Suplicy de Lacerda, foi reitor da UFPR - , mostrou o quanto o projeto atende aos interesses tecnocráticos, e não públicos.

O projeto camufla as empresas de ônibus em cores padronizadas quanto ao percurso. Aparentemente, a organização visual por trajetos ou tipos de ônibus disciplinaria o transporte, mas na prática isso não se deu. E, a cada vez mais, o transporte "pioneiro" de Curitiba não só perdeu o título - na verdade, discutível - de "melhor sistema de ônibus do país" como os cidadãos curitibanos, cada vez mais, demonstram sua indignação e fúria quanto às irregularidades do transporte.

As empresas se camuflam e não dá para a pessoa comum identificar a empresa que comete irregularidade ou não. Pouco importa se aquele busólogo ou raros passageiros conseguem identificar os ônibus, se a maioria tem dificuldade para tal, o desastre do sistema é inevitável. Além disso, soa uma grande piada resolver o problema de pegar ônibus errado com serviço de telefone celular monitorado por satélite. Isso seria o mesmo do que resolver o analfabetismo através do verificador ortográfico do Microsoft Word ou similar.

Jaime Lerner, o arquiteto idealizador da "curitibanização" dos ônibus, tem raízes profundamente conservadoras. Seu trabalho se deu durante a ditadura militar, num empenho tecnocrático que vimos em Heródoto Barbeiro e Delfim Netto. Filiou-se à ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e tornou-se prefeito biônico de Curitiba, quando assumiu a cidade pela primeira vez. Com a volta do pluripartidarismo, Lerner ficou no PDS, a encarnação seguinte da ARENA. Depois de um intervalo numa fase frouxa do PDT, voltou à direita através do PFL e hoje permanece no DEM.

Embora tenha algumas virtudes, o projeto da "curitibanização" mostra cada vez mais que não é mais do que um plano tecnocrático para o transporte, seguindo a mesma filosofia dos planos econômicos de Roberto Campos e Otávio Bulhões no governo Castelo Branco, seguidos depois por Delfim Netto nos governos Costa e Silva e Médici.

A "curitibanização" é linda na teoria, mas adota medidas anti-populares, como a redução das frotas dos ônibus (tradicional motivo de queixas dos passageiros), utopicamente resolúveis através de "vias exclusivas" e rápidas.

Transforma-se o ônibus num arremedo de trem com QI de van. O Estado controla as linhas e os transportes, mas quem arca com os reparos técnicos e os investimentos financeiros são as empresas de ônibus. As prefeituras, através das suas secretarias de Transporte, criam pára-estatais municipais ou metropolitanas que controlam as linhas, mediante investimentos técnicos e financeiros das empresas de ônibus envolvidas, que ganham status de meras sócias sem autonomia no serviço do transporte, mas em troca com poder político suficiente para, se possível, demolir casas populares para contruir vias exclusivas, mediante indenização magra para os moradores expulsos.

Cada vez mais, com o senso crítico avançando na Internet, a ilusão da "curitibanização" dos ônibus no Brasil começa a ser desfeita. Certamente, várias pessoas, iludidas com o "milagre busólogo" dos tecnocratas (a versão busóloga do "milagre econômico"), vão reagir, porque elas, mesmo não andando de ônibus, querem dar seu pitaco para o transporte coletivo que não utilizam. Mas seus argumentos frágeis, entre fantasiosos e enganosos, começam a ser contestados pelo cotidiano, sobretudo em São Paulo e Curitiba, quando as autoridades tornam-se incapazes de gerir o complicado, impopular e tecnocrático transporte coletivo "curitibanizado".

Já pensou se Eduardo Paes tentasse punir as irregularidades da Feital, Oriental e Ocidental se o sistema de ônibus carioca já tivesse padronização visual? Seria um grande desastre. Somente os técnicos e os busólogos com maior intimidade com empresas e fabricantes é que seriam capazes de identificar os ônibus.

Os passageiros comuns, não. Eles confundirão os ônibus e não saberão direito qual é o ônibus errado, porque todos seriam iguais, seria a mesmice visual que desnortearia sobretudo as classes pobres. Confusão que nem bilhetes únicos nem serviços de telefone celular resolveriam com eficácia definitiva.

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