terça-feira, 9 de março de 2010

CATÁSTROFES E AXÉ-MUSIC


FOTOS DO TERREMOTO QUE ATINGIU O CHILE, HÁ POUCOS DIAS

É revoltante ver que a axé-music usar metáforas relacionadas à catástrofes ambientais para justificar sua supremacia. Falam do sucesso dos ídolos como se eles fossem "furacões". Suas apresentações são comparadas a terremotos. Isso sem falar da terrível expressão "sair do chão", cujo significado subliminar é, por si só, trágico, já que homem não voa e "sair do chão", então, significa morrer.

A axé-music é, portanto, o ritmo popularesco que gosta de brincar com fogo. Certa vez, um palco caiu num evento com o grupo Chiclete Com Banana. O que será que poderia ter ocorrido se, na ocasião do terremoto do Chile, ocorresse uma micareta com os grupos baianos da axé-music? Afinal, eles se acham os donos da MPB, os donos da cultura brasileira, os donos do Brasil, os donos do mundo, que imagina-se micareta até no norte da Noruega. Quer dizer, isso se o povo de lá fosse tolo e aceitasse se render à prepotência megalomaníaca dos axézeiros, o que na verdade não ocorre. A qualidade de vida dos norueguenses é alta demais para eles sucumbirem a qualquer tolice.

Mas, voltando ao terremoto. Certamente teria sido um evento trágico, triste, de deixar as pessoas gritando de pânico, desesperadas, vendo que boa parte dos foliões ou, talvez, alguns músicos de axé-music, teriam morrido na ocasião. Só que a terra tremeu, literalmente, o palco balançou, as casas caíram, ao pé da letra.

A axé-music é um dos ritmos mais perversos do país. Transforma a alegria numa mercadoria, uma alegria fascista que não pode ser contrariada. Se for, os defensores da axé-music reagem com fúria. Fúria maior do que se imaginaria com os Hell's Angels ou os nazi-punks, até agora as facções de "rebeldes" associadas à fúria mais violenta.

A insensibilidade dos axézeiros com o sofrimento humano, e mesmo com as dificuldades amorosas de muitos rapazes que não se encaixam no padrão viril, rico e robusto dos machistas, torna a hipótese de uma chicleteira namorar um nerd uma grande hipocrisia, uma grande mentira. É mais fácil e realista um nerd brasileiro namorar uma atriz francesa.

O universo da axé-music é associado aos equivalentes brasileiros daqueles valentões fanáticos por esporte e ginástica, fanáticos pelo culto ao corpo, pela bebedeira e pela obsessão por festas. Como é que um inocente rapaz que não se enquadra nos padrões dominantes vai usufruir dos "benefícios" do carnaval axezeiro?

Na verdade, o que ocorre é o seguinte: é como se uma fraternidade de marombeiros valentões chamasse os nerds para um ritual de humilhação mais sutil. Os nerds recebem gozação, e são jocosamente acariciados pelas garotas que namoram os marombeiros. É toda uma saudação falsamente amistosa, até que os nerds caem numa armadilha e coisas como cair numa lama de esterco podem acontecer.

Mas, no Brasil politicamente correto, tudo é "cidadania", e o que eu descrevi no parágrafo anterior é balela, marolinha. Não, é a realidade nua e crua. Como também é realidade a ruindade artística do "funk carioca" (FAVELA BASS), que cada vez mais piora seu som, na mesmice de juntar sons de sirene com batida que imita o galope de um cavalo e, com isso, o MC mais parecendo um robô repetindo palavras faladas. E depois querem seus defensores dizer que o "funk" é rejeitado hoje como o samba foi há cem anos atrás. Quanta tolice!

Tivemos recentemente três terremotos que acabaram com muitas vidas e causaram danos materiais sérios, resultando em grave prejuízo financeiro. Um foi no Haiti, depois o do Chile e, mais recentemente, na Turquia. É certo que, oficialmente, terremotos não existem no Brasil, embora o solo castigado pela aridez em várias regiões do Nordeste brasileiro causem tremores de terras.

Mas isso não significa que tenhamos que desprezar as catástrofes que ocorrem em outros países, a ponto de creditar como "terremoto" um mero espetáculo de axé-music. Já ocorrem os tais ciclones extra-tropicais, cuja definição de "furacões" ainda causa problema, mas ainda se fala de Ivete Sangalo e Psirico como se eles fossem os "furacões da Bahia".

Furacões e terremotos têm poder destrutivo. E qual o poder destrutivo dos "furacões" e "terremotos" da axé-music? O de destruir a tristeza, dããããã? Nada disso! O poder destrutivo se refere à cultura brasileira, aos valores sócio-culturais, empastelados pela axé-music e sua "alegria" de fachada, que quer que nos submetamos a esse espetáculo, quer que sejamos escravos dessa alegria fabricada, movida a álcool ou, quiçá, outras drogas, uma alegria que não consola, que não conforta, que não confraterniza, uma alegria tirânica para a qual só temos que nos render feito vassalos, como se tivessemos que nos comportar exemplarmente num ritual de faraós ou déspotas.

Por isso mesmo é que a tragédia da axé-music se revela depois da ressaca. E as quartas-feiras do carnaval baiano tendem a ter mais cinzas.

Nenhum comentário: