segunda-feira, 15 de março de 2010

CASO BÓRIS CASOY ALERTA SOBRE OS DEFENSORES DO BREGA-POPULARESCO


BÓRIS CASOY PROVOU EXPRESSAR O PRECONCEITO DAS ELITES. E OS INTELECTUAIS QUE DEFENDEM O BREGA-POPULARESCO?

- Puxa vida. Tenho muitas raridades da MPB. - diz para si mesmo, à noite, o cientista social no seu apartamento, contemplando a discoteca. - Discos raros do Tamba Trio, da Sílvia Telles, álbuns hoje fora de circulação de muita gente, os primeiros álbuns de Geraldo Vandré, os discos de Germano Mathias e Sérgio Ricardo da primeira metade dos anos 60, vinis originais dos Mutantes... E agora, minha empregada vem para limpar a casa e olha para todos os meus discos. Será que ela vai furtar as minhas preciosidades? O que eu tenho que fazer para evitar isso? Não posso chamar a polícia. Tenho que fazer algo para evitar o sumiço de meus discos, sem que haja risco de eu ser processado.

Provável pensamento de um intelectual que, até pouco tempo atrás, vestia a camisa da MPB autêntica, até mais ou menos entre 2000 e 2003, quando ele virou a casaca e passou a defender a música brega-popularesca como se ela fosse o "tesouro oculto" de nosso país.

De repente, a música brega virou o "lado B" da "subversão" tropicalista, o "funk carioca" foi promovido a "ativismo social", o breganejo virou a "legítima expressão rural" de nosso país, só não chegando ao ponto de virar "trilha sonora dos sem-terra" porque o MST é vilão até mesmo para a "mídia fofa" que por razões estratégicas evita se envolver com a militância do Instituto Millenium e da mídia abertamente reacionária.

Da noite para o dia, todos os estilos musicais que já se estabeleceram na hegemonia midiática brasileira, que passaram a ser o nosso hit-parade, a nossa música comercial, passaram a ser promovidos como se fosse "o novo folclore brasileiro", a "verdadeira cultura popular", chegando a classificar como "preconceituosas" e "invejosas" qualquer contestação à qualidade artística desses estilos e chegando-se ao ponto de renegar esse mesmo sucesso, sob as alegações de que "eles ainda lutam por seu espaço na cultura popular".

Veio então a onda de ensaios, textos, reportagens, todos apologéticos a esses estilos, seja axé-music, sambrega, breganejo, "funk" ou brega "de raiz", além de outros estilos similares. A cafonice musical brasileira, não bastasse ser hegemônica no gosto da maior parte da população, queria tirar o lugar da MPB autêntica, invadindo seus redutos, muitas vezes na marra, acusando os verdadeiros artistas de "elitistas", "burgueses", "decadentes", "academicistas". Ou então usando um e outro artista da música brasileira autêntica para justificar este ou aquele sucesso do ídolo brega ou neo-brega. "Ah, Caetano Veloso afirmou que apóia nosso trabalho", "Lupicínio Rodrigues falava sobre dor-de-corno", "Os funkeiros são rejeitados hoje como os sambistas de cem anos atrás". Tudo numa retórica sofista, feita mais para convencer pela confusão de ideias do que pelo esclarecimento.

São jornalistas, antropólogos, sociólogos e historiadores que, com o engajamento comparável ao do antigo IPES, o "instituto" dito de "pesquisas e estudos brasileiros" que fez campanha para derrubar o nacionalismo popular que incentivava o povo a se mobilizar, independente do vínculo ideológico ou não ao varguismo ou janguismo.

E esta campanha, embora feita "sem intenções político-ideológicas", praticamente complementa o trabalho dos antigos militantes do IPES (cujo equivalente hoje é o Instituto Millenium) no combate aos vestígios mobilizatórios do pré-1964, sobretudo no projeto dos Centros Populares de Cultura da UNE e nos debates acerca da cultura popular.

Embora essa campanha se esforce em ultrapassar os limites da mídia conservadora, expandindo o tráfico de influência para instituições ou veículos esquerdistas como Caros Amigos, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e a Fundação Perseu Abramo, nota-se que sua raiz se encontra nas elites conservadoras, de direita, que planejaram todo o processo histórico e ideológico que resultou nos cantores e conjuntos de música brega e neo-brega.

Essa campanha utiliza de todo um processo de argumentação que, embora às vezes pareça "científico", a ponto de ser difundido até mesmo em publicações acadêmicas - o pioneiro artigo de Milton Moura que defendia o "pagodão" de É O Tchan e derivados em 1996, foi publicado na revista Textos, publicada pela UFBA sob um conselho editorial composto por professores de várias universidades do país - , não passa de uma mera campanha de persuasão.

O próprio artigo de Milton Moura, intitulado "Esses pagodes impertinentes...", mostra uma série de equívocos e ironias no decorrer do texto, que por sinal é muito pouco científico, seja em sua abordagem, seja na própria linguagem, mais próxima de um ensaio opinativo bem ao gosto da Ilustrada da Folha de São Paulo. Moura credita, em sentido pejorativo, a MPB autêntica como "sofisticada", e, entre outros equívocos, define a pressa com que os grupos de "pagode" baianos em gravar discos como "espontaneidade", confundindo quantidade com qualidade.

Há outros pregadores da cafonice cultural: Bia Abramo, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Roberto Albergaria, Álvaro Pereira Jr. (para o qual a cultura indie tem que ser um privilégio exclusivo de californianos e britânicos), Paulo César Araújo e Rodrigo Faour. Outros também aparecem, aliciados pelo esquema: Fernanda Abreu, Patrícia Pillar, Arthur Dapieve (também, parceiro do neo-reacionário do casseta, Marcelo Madureira, num programa do canal pago GNT), Zeca Baleiro e Regina Casé.

A propaganda tenta vender gato por lebre, ou seja, tratar a música comercial como se fosse "folclore autêntico". Essa malandragem já fez colocar o É O Tchan - uma armação feita por um empresário depois de um "racha" num antigo conjunto baiano - num documentário sobre folclore produzido nos anos 90. É mais ou menos como vender um suco artificial enlatado e industrializado como se fosse um legítimo suco de fruta extraído diretamente da árvore.

Os argumentos pseudo-intelectuais, uns de notável verossimilhança, outros com alguma carga de fúria e cheios de contradições, tentam temperar sua apologia ao popularesco com referenciais extraídos do passado da MPB autêntica. O próprio livro História Sexual da MPB, que o autor Rodrigo Faour, com uma ágil militância comparável ao dos jornalistas porta-vozes do Instituto Millenium, usa o "sexo" para misturar alhos com bugalhos na música brasileira, como uma forma sutil de empurrar É O Tchan, Valesca Popozuda e Parangolé (com seu "rebolation" ou "rebolejo") para os redutos da MPB autêntica. Tudo isso citando também referenciais antigos, como o disco bossa-novista Oh, Norma! gravado em 1959 pela atriz Norma Bengell ou até mesmo citando a efêmera explosão sexual da prematuramente falecida Leila Diniz, que não era cantora, mas tinha um estado de espírito que, em muitos aspectos, coincidia com o Tropicalismo.

Com toda essa campanha para tentar prolongar, no gosto popular, uma mera canção comercial em várias de suas tendências, às custas do rótulo de "cultural", "artístico" ou "folclórico", há o ponto fraco que compromete toda a veracidade de sua argumentação. Primeiro, porque num e noutro momento, mesmo em artigos "equilibrados" de Bia Abramo e Hermano Vianna, mas sobretudo em mensagens irritadiças e sarcásticas de um Eugênio Raggi, há sempre um momento de agressividade, um claro golpismo contra quem contestar esse "universo" musical. Daí os adjetivos que variam entre um simples "preconceituoso" até mesmo acusações de "moralistas", "invejosos" ou "paranóicos" contra quem contesta a música brega-popularesca e seu mais do que evidente mercantilismo.

Segundo, porque seus argumentadores fazem apelos bastante suspeitos em nome da "aceitação" da música brega-popularesca. Pedem para que esqueçamos as questões estéticas, o que liberaria qualquer expressão musical entreguista, podendo mesmo uma cópia escancarada das Pussycat Dolls no Brasil fazer sucesso sob o rótulo de "folclore pós-moderno".

O desprezo estético também permite que o "vale-tudo" da mediocridade musical prevaleça no gosto popular, mas aponta um julgamento etnocêntrico por parte dessa avaliação pela intelectualidade. Etnocentrismo é o julgamento estereotipado, preconceituoso e por vezes autoritário, que uma elite faz de outros povos, que não são vistos como realmente são, mas como o etnocêntrico acredita ou deseja que sejam.

Com isso, os argumentos a favor da música brega-popularesca dão margem a um pensamento etnocêntrico, de que essa música é "o que o povo sabe fazer", "não se faz de outra forma". Ora, cairmos de sambistas de grande força artística, como Ataulfo Alves, Donga, Pixinguinha, Cartola e Nelson Cavaquinho, com tanta força que muitos empresários de cantores de rádio iam para os morros comprar músicas desses compositores, para um Alexandre Pires que nem samba faz, mas um engodo que reproduz muito mal o soul dos EUA com instrumentos "sambistas", ou para meros imitadores sem-alma de Zeca Pagodinho (só porque ele faz sucesso no momento, é o ideal de samba autêntico a ser seguido até por picaretas), tipo Exaltasamba e Grupo Revelação, é um problema que não pode ser menosprezado.

Desprezar essa realidade é julgar o povo de maneira etnocêntrica, é ignorar o problema do povo hoje de conhecer sua própria cultura. Não conhecer mais o samba de raiz, mas tão somente os ídolos que diluem o estilo atualmente, e atribuir a esse povo uma sabedoria que na verdade lhes foi roubada e vetada, é emburrecer o povo e dizer que ele continua "inteligente".

Por isso esse etnocentrismo é um alerta. Não teriam eles, os defensores da Música de Cabresto Brasileira, os mesmos preconceitos de Bóris Casoy? Não teriam eles que defender nomes como É O Tchan, Zezé Di Camargo & Luciano, Waldick Soriano e DJ Marlboro para desviar a atenção de suas empregadas domésticas?

Esse mito de que empregada doméstica sempre curtiu música cafona foi construído durante anos pela mídia durante a ditadura militar, porque há 50 anos atrás as domésticas ouviam samba de primeira, jazz de primeira, baião de primeira. Elza Soares, que gerou em 1960 e 1961 um impacto comparável ao dos mangue-boys em 1993, é uma consequência disso, porque ela foi doméstica, babá e lavadeira. Covardia compará-la com a funqueira Tati Quebra-Barraco, esta última com sua voz molenga, seu som medonho e as letras de gratuito mau gosto, que nenhum pretexto anti-moralista consegue proteger ou legitimar.

Por isso, a defesa do brega-popularesco, na verdade, tem o objetivo final de trancar o ouro cultural brasileiro em um cofre. Visa isolar a MPB autêntica e suas preciosidades à apreciação exclusiva de alguns "bacanas". Enquanto a música "de caráter popular" baixa as calças e adere ao "vale-tudo", aos sucessos qualquer-nota, as elites privilegiadas de nosso país se trancam em seus apartamentos para ouvir tudo o que há de bom e valioso na música brasileira, de Jackson do Pandeiro a Heitor Villa-Lobos, passando por João Gilberto e Legião Urbana.

Por isso, perversa não é a campanha anti-popularesca anunciada por Bia Abramo. Perversa é a campanha que ela e seus pares fazem para permitir a degradação cultural brasileira, limitando o nosso rico patrimônio cultural à apreciação privada de uma pequena parte de nossa sociedade.

Desta forma, o etnocentrismo populista dessa intelectualidade pró-popularesca se compara com os comentários de Bóris Casoy contra os garis, pelo grande temor (no sentido de misturar medo e horror) que aquela e este possuem dos verdadeiros movimentos sociais.

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