domingo, 7 de março de 2010

BREGA-POPULARESCO NÃO SE JUSTIFICA POR PRETEXTOS TROPICALISTAS


FOTO UTILIZADA NA CAPA DO DISCO TROPICÁLIA OU PANIS ET CIRCENSIS, DE 1968.

É muito comum, para alguém justificar o sucesso hegemônico de intérpretes popularescos, usar pretextos tropicalistas. Usa-se argumentos que correspondem a valores originalmente difundidos pelo Tropicalismo entre 1967 e 1968, num discurso cujas armadilhas já sabemos quais são.

O exemplo mais recente dessa apologia toda se deu em torno da música "Você Não Vale Nada", um quase antigo sucesso popularesco nordestino que se tornou sucesso nacional através do grupo Calcinha Preta, por sinal repaginado (não conta mais com aquele vocalista que imitava o cantor Leonardo, o breganejo).

Um artigo do blog Camarilha dos Quatro, fez defesa do fenômeno Calcinha Preta com aqueles mesmos clichês dos textos que defendiam o brega. Até Lupicínio Rodrigues, rebaixado a um "pioneiro dos bregas", quando ele vivia aquele estado de espírito da fossa e das serestas que fazia sentido em sua época, foi usado para defender o Calcinha Preta como se fosse uma "coisa moderna". Quando sabemos que o Calcinha Preta é tão antiquado que a maioria de seus "grandes sucessos" não é mais do que regravação em forró-brega de antigos sucessos da música estrangeira, não poupando sequer a bela música "The Unforgettable Fire" do U2.

O artigo, escrito por um dos três (?!) blogueiros da Camarilha dos Quatro - equipe que mais parece uma versão cultural daqueles três hispano-americanos que escreveram o "Manual do Idiota Latino-Americano" que mais tarde falaremos - , Bernardo Oliveira, usa o pretexto da "expressividade" para defender o sucesso do Calcinha Preta, e ainda fala da "genialidade" de Waldick Soriano, Odair José e outros bregas.

Num texto cujas alegações não cabe aqui descrevê-las, todas, termina dando uma cutucada a MPB autêntica que hoje é vítima de pedradas, cabe aqui acrescentar as seguintes "pérolas" da mania de desculpar de certos brasileiros, quando defendem alguma coisa absurda:

"E o que eles têm de excepcional (nos ídolos bregas) é exatamente a capacidade de converter a redundância quase absoluta das fórmulas baladeiras em algo surpreendente e, por isso mesmo, inesquecível, seja através de um insight poético ou de ganchos melódicos. Esta premissa vale igualmente para que apreciemos adequadamente a axé music, o funk e toda as formas possíveis e imagináveis da música popular: a surpresa encrustada na rigidez da fórmula".

"Taí uma boa fórmula para definir a canção popular desta cepa (Calcinha Preta): ao contrário da redundância vazia e pseudo-sofisticada da nova MPB, ela é interessante porque faz cócegas no espírito".

Quer dizer, a MPB é um processo rígido. Ataulfo Alves era um engenheiro e não um compositor, e escrevia música com fórmulas matemáticas. Cartola fazia gráficos e métricas para fazer suas músicas mais simples. João Gilberto descobriu a Bossa Nova como quem descobre uma fórmula da Física. Então tá.

O "inusitado" e o "surpreendente" da música brega-popularesca, de que tanto fala Bernardo Oliveira, na verdade não passam de uma pregação retórica que se baseia num antigo episódio relacionado à MPB autêntica, mas envolvendo cantores que encontram acesso fácil no grande monde da grande mídia, pois estiveram até no megalomaníaco CD acústico do Só Pra Contrariar. Não é preciso dizer que os dois que cito são os autores de "Panis et Circensis", "Divino Maravilhoso" e "Haiti", Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Trata-se daquele incidente das vaias no Teatro da PUC-SP (TUCA), em 1968, contra Caetano Veloso que, junto a Gilberto Gil e os Mutantes, apresentava "É Proibido Proibir", que foi interrompida para Caetano improvisar um discurso raivoso contra a platéia.

A ideia de "rejeição", "provocação", "polêmica", torna-se então um recurso dos defensores do brega-popularesco, na medida em que a modernidade tropicalista diluiu-se no mainstream - a essas alturas depois da morte de Torquato Neto e com o desprezo dado à obra de Tom Zé - , quando a avaliação crítica da "geléia geral", que era a ideia de juntar todas as expressões culturais, mesmo as de gosto duvidoso, para uma avaliação crítica da sociedade brasileira, tornou-se apenas uma aleatória exposição de tendências que resultou numa gororoba cultural, numa lavagem de porco que inclui tanto restos da mais nobre comida quanto comida podre, lamaçal, urina e fezes.

Assim, quando Caetano e Gil deixaram de ser revolucionários e o Tropicalismo, perdendo sua aura original, se diluiu numa "cultura de massa" libertina, indiferente à ética e à estética enquanto mergulhava no espetáculo do entretenimento de forma mais obsessiva, num "vale-tudo" lúdico, o brega-popularesco, já tratado com carinho pelo regime militar - afinal, muitos ídolos cafonas foram patrocinados pelo poderio midiático regional (bato nesta tecla, também existe PiG nas periferias e no interior de nosso Brasil) - , viu a galinha dos ovos de ouro em se apropriar de motivações "tropicalistas" para se autopromover às custas das críticas negativas à sua natural mediocridade.

Criou-se um verdadeiro sofisma. O Tropicalismo cortejava o Chacrinha, certo? Chacrinha apresentava um programa de auditório. Era concorrente de Sílvio Santos e Raul Gil, considerados popularescos nos anos 70, divulgadores dos ídolos bregas que os latifundiários financiavam para divulgar suas músicas em São Paulo. Então, se Chacrinha era considerado "tropicalista", Sílvio Santos, Raul Gil e o que vier (seja o Edson "Bolinha" Curi, seja o Fausto Silva), também "são".

Com isso, todo o universo ligado a eles também é "tropicalista". Bingo! A apologia toda, bem construída, pode usar qualquer pretexto para justificar o "mérito" dos popularescos até quando são rejeitados. Porque eles "foram tão vaiados" quanto Caetano Veloso, "tão rejeitados" quanto o samba pela aristocracia do Segundo Império.

Só que essa argumentação, embora bem construída, embora resulte num discurso "gostoso" de ser trabalhado e "divertido" de ser apreciado, não tem sentido verdadeiro algum. Sobre o moralismo do Segundo Império e da República Velha, certamente não se compara a rejeição da aristocracia desses tempos ao samba, maxixe e até baião à rejeição que nós, moralmente mais abertos, porém responsáveis, fazemos contra ritmos como o "funk", o porno-pagode e o forró-calcinha.

Além disso, o Tropicalismo foi moderno, foi futurista. Traduziu culturalmente a herança da Semana de Arte Moderna de 1922, herança compartilhada depois com o Clube da Esquina, os 'malditos' da Lira Paulistana e do mangue beat pernambucano.

O brega-popularesco, não. É antiquado, se vale de modismos ultrapassados, não por natural identificação a eles, mas pela falta de noção de que tais modismos já eram. É provinciano, sem mostrar uma identidade nacional relevante. É entreguista, porque assimila de forma subordinada as influências estrangeiras, sem adequá-los a uma identidade nacional relevante.

Portanto, soa muito preguiçoso e tendencioso dar mérito ao brega-popularesco porque ele é "rejeitado", "polêmico" e "provocador". Se percebermos bem, nada tem que provoque alguma controvérsia. A controvérsia é inventada por aqueles que defendem esse universo musical de gosto duvidoso, porque lucra direta ou indiretamente a isso.

E sabemos muito bem o que há de antropólogo e sociólogo, de professor mineiro etc, cansados de esperar bolsas de pesquisa, procurando alguma promoção pessoal às custas da grande mídia. Eles desmentem isso, mas dá para perceber em seus discursos bem estruturados, mas sempre com alguma falha lógica. Até que, um dia, eles não poderão mais esconder que adoram o circo da mídia gorda, com a qual compartilham sua gula de sucesso financeiro e controle social. Nada menos tropicalista.

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