quinta-feira, 18 de março de 2010

BREGA E "MILAGRE BRASILEIRO": BRASILIDADE FORJADA


DOM E RAVEL - EX-MÚSICOS DA JOVEM GUARDA, SIMBOLIZARAM O BREGA UFANISTA DA ERA MÉDICI.

Com a consagração dos primeiros ídolos cafonas, no interior brasileiro controlado pelo latifúndio, e com o sucesso do projeto econômico de Roberto Campos e Otávio Bulhões, que, através de sua continuação por Delfim Netto, já no governo Costa e Silva, foi denominado de "milagre econômico", a música cafona começava a forjar sua brasilidade, uma identidade nacional estereotipada, dentro do "nacionalismo" forjado pela ditadura militar, mais uma patriotada do que um patriotismo.

Com isso, ainda não saíram de cena o requentamento caricato de boleros, guarânias, country, feito pelos primeiros ídolos cafonas, que continuaram produzindo seus sucessos sob o apoio das rádios que apoiaram a ditadura militar.

A revolta estudantil, no entanto, alertava para a ditadura militar forjar esse pretenso patriotismo para tranquilizar a população. A instauração do Ato Institucional Número Cinco foi uma forma da ditadura intimidar a sociedade, estabelecendo a censura e a repressão para sufocar a oposição ao regime. Mas, para não assustar a sociedade com o clima de terror, a ditadura teve também que promover um clima de otimismo nacional, até porque o país estava em véspera da Copa do Mundo de futebol, no México, em 1970.

O ritmo usado para iniciar a patriotada musical foi o samba, diluindo o samba-rock (que, apesar do nome, fundia o samba com a soul music) num ritmo chamado "sambão-jóia" ou "samba-exaltação", apelidos usados por conta do astral ufanista. Além deles, a Jovem Guarda, ultrapassada, vivia a ascensão dos retardatários, como Odair José e Paulo Sérgio, além da adesão de dois ex-músicos dos Incríveis na onda ufanista da ditadura.

O samba, na diluição usada pela música cafona - que, vale lembrar, era apoiada por rádios que apoiavam explicitamente a ditadura - , criava uma ideologia associada a verão, ao sol, futebol, mulher, alegria, ao jeito malandro se dar bem no país ditatorial, deturpando a espontaneidade do samba-rock.

O sambão-jóia queria mesmo ser confundido com o samba-rock, da mesma forma que os sambregas de hoje (herdeiros assumidos do sambão-jóia) tentam plagiar o samba da turma do Cacique de Ramos. Mas o samba-rock de Jorge Ben Jor e Originais do Samba, entre outros (Wilson Simonal, maior ídolo negro de então, também aderiu de corpo e alma ao estilo), não exaltava o Brasil por defender a ditadura militar, mas pela postura naturalmente apolítica e otimista em relação ao futuro. No fundo, Jorge Ben, maior expressão do gênero, acreditava que o Brasil superaria a ditadura, voltaria a ser democrático, e apesar do aparente otimismo que o confundiu com o ufanismo ditatorial, ele não tinha ilusões quanto ao momento político em que vivia.

Já o sambão-jóia era tendencioso, normalmente era apenas a Jovem Guarda diluída num arremedo sambista. Mas parte de seus compositores, como Luis Ayrão e Benito di Paula, a exemplo de Odair José na música cafona em geral, possuem a reputação de hitmakers da espécie de Paul Anka e Neil Sedaka, nos EUA. O astral do sambão-jóia, por isso, estava muito de acordo com o clima ufanista da ditadura militar, pois, se tratando de música comercial, aderiu completamente à exploração do governo militar do astral do "milagre brasileiro" que prometia levar o Brasil, depois tri-campeão no futebol, ao posto de oitava economia do mundo.

As lições do brega "brasilianista" inspiraram depois os primórdios do breganejo, por consequência da Revolução Agrícola dos governos de Médici e Geisel, dos primórdios da axé-music nos anos 80 a partir do projeto populista de ACM, e da explosão popularesca durante as eras Collor e FHC, em várias regiões do país, que praticamente formataram o tipo de "música popular" que as elites e os "barões" da grande mídia queriam que o povo consumisse. E cuja hegemonia, hoje, ameaça, infelizmente, a própria MPB e o folclore brasileiro, condenados ao isolamento dos arquivos museológicos.

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