sábado, 27 de fevereiro de 2010

OS TECNOCRATAS DA OPINIÃO



Pode parecer brincadeira, mas até pouco tempo atrás a grande mídia gozava de um poder maior de influência na sociedade. Até alguns anos antes, os chamados "grandes jornalistas" eram considerados semi-deuses, verdadeiros sacerdotes da informação, dotados de preciosos segredos da humanidade, dotados da sabedoria misteriosa, e nossa missão era apenas manifestar fé e devoção a esses jornalistas, venerá-los, confiá-los e ouvi-los antes que tentemos refletir sobre o mundo a nossa volta.

Para quem tem senso crítico, como eu e vários blogueiros como Leonardo Ivo, Altamiro Borges, Bruno Melo, Marcelo Delfino e Marcelo Pereira, ou jornalistas como Luís Nassif, Paulo Henrique Amorim e Luiz Carlos Azenha, certamente essa ideia devota do "grande jornalista" é totalmente ridícula. Mas já vi, na Internet, muita gente acreditar na chamada "grande mídia" como se ela fosse uma "nova Igreja", e não falo aqui de religião, de seitas religiosas, mas a transformação do próprio "jornalismo" em religião, colocando a figura do jornalista num pedestal e acima, e não a serviço, da opinião pública.

A tecnocracia é a religião da tecnologia. É uma fábrica de "divindades" santificadas seja pelo diploma (quando são engenheiros, economistas, administradores), seja pelo poder em si (quando são jornalistas ou empresários de radiodifusão). Junta-se a isso a religião do jornalismo, que transforma os jornalistas em "divindades", em vez da natural condição de seres humanos com certa habilidade profissional de grande serventia para a sociedade.

Pois, na religião "jornalismo", o jornalista não é quem serve a sociedade. É a sociedade que tem que servir ao jornalista. Ouve-se comentários sobre Economia e não os entende, mas mesmo assim o comentarista é genial porque demonstra uma "sabedoria" que não se entende, porque o cidadão comum não entende Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, mas este cidadão terá que venerá-los como semi-deuses, porque os comentaristas são dotados de segredos, de mistérios da humanidade.

É o mesmo processo feito pelos sacerdotes da Idade Média, fase lamentável da história da humanidade. Os sacerdotes eram dotados de segredos, eram os detentores do saber, cabia ao povo subordinar-se a eles, venerá-los ainda que não pudesse ter a mesma compreensão de mundo, e menos ainda uma compreensão de mundo mais ampla e crítica do que eles. O intelectual italiano Umberto Eco fez um romance inteiro sobre esse tema, O Nome da Rosa.

Daí que, nos anos 90, os críticos da Comunicação falavam em Idade Mídia, num literal trocadilho com Idade Média, preocupados com essa verdadeira privatização da opinião pública que se processa hoje em dia. Quando houve, no Brasil, a chamada "invasão AM" nas FMs a partir de 1998, sobretudo com clones em FM de emissoras AM já transmitidas em dada região, junto a outras FMs com programas jornalísticos e esportivos, havia toda essa pregação da "importância do jornalismo na nossa sociedade". Não que o jornalismo deixasse de ser importante ou valioso, ele o é de fato, mas o que vemos é na verdade um bando de aproveitadores que investia, via rádio FM, na overdose de informação como forma de controle social.

Aí o que se via é apenas a troca do hit-parade pelo agenda setting, que é o hit-parade da notícia. E isso num meio, o rádio FM, onde a sobrecarga informativa se torna um tanto incômoda, porque rádio FM não é imprensa escrita. O monopólio da fala, em vez de abrir as mentes dos ouvintes, os fecha cada vez mais, e cansei de ver pessoas parecendo carneirinhos sintonizadas nas chamadas "rádios AM em FM", com seus programas de jornalismo prolongado ou jornadas esportivas (que são uma espécie de "sobremesa" do showrnalismo da grande mídia).

Prefiro ver o jornalismo como se fosse uma dieta alimentícia. A informação, no sentido restrito do produto noticioso, como comida e bebida. A gente precisa dela de forma dosada. Quando excessiva, cansa. Abomino a anorexia e a bulimia informativas. O que poucos perceberam é que tanto a ausência de noticiário nas FMs quando seu excesso alienam as pessoas, tornam-se igualmente inúteis à cidadania. Daí que as mesmas FMs que, durante a ditadura militar, sonegavam transmitir notícias, nos tempos tecnocráticos de FHC passaram a despejar noticiários e debates longos, jornadas esportivas maçantes ou irritantes, porque tanto a ausência quanto o excesso do produto "informação" têm o semelhante efeito de bitolar as mentes do povão.

O jornalista, através da grande mídia, tornou-se não só o sacerdote, mas o TECNOCRATA DA OPINIÃO. A tecnocracia dá privilégio decisório aos "competentes", possuidores de habilidades técnicas presumidas, seja pelo diploma ou pelas relações de poder. O jornalista, dentro desta ideologia, é um sujeito dotado de inteligência peculiar, mas não a utiliza para servir-se à sociedade nem ajudar a esclarecer os menos esclarecidos. Sua inteligência é usada como meio de controle social. "Tenho opinião, você só será alguém se seguir o meu pensamento", diz o jornalista manipulador, não de forma explícita, porque ele não assume que controla a sociedade, como um pai autoritário que tenta conquistar a confiança da criança assustada.

Daí o deslumbramento inicial que via na grande mídia. A CBN tirava do ar, em Curitiba, a rádio de rock Estação Primeira FM? Fora uma reclamação que li numa revista de surfe, a princípio todo mundo se deslumbrava com a CBN Curitiba. Seu âncora José Wille (espécie de Heródoto Barbeiro paranaense) tornou-se um semi-deus que chegou a controlar as mentes juvenis quando aproveitado até, pasmem, em outra rádio de rock, a 96 Rock (menos criativa que a extinta EP), num programa matinal.

Era aquela época, entre 1997 e 2004, que os "grandes jornalistas" gozavam da divindade forjada, era o quarto poder que não se assumia como tal, um quarto poder que havia conquistado o poder mas fingia que estava longe de conquistá-lo. A CBN foi vista por muitos incautos como se fosse uma "ovelha negra" das Organizações Globo, e, pasmem, houve muita gente que não imaginava que a CBN era ligada à corporação dos Marinho (antes o "doutor" Roberto, hoje seus três filhos), e tratava a emissora como se ela fosse a "salvação da lavoura".

Semelhante deslumbramento foi feito, pasmem, à Rádio Metrópole de Salvador (BA), mesmo sem a estrutura jornalística da CBN. Na verdade, a Rádio Metrópole mais parece uma CBN de porre, e seu astro-rei, o proprietário e principal apresentador Mário Kertèsz, nunca teve formação jornalística nem radialista. Mas criou uma reputação e um poder sobre os baianos que assusta, tornando-se um perigo para o exercício da cidadania, representando o poder e o controle sobre a sociedade nas mãos de um incompetente que nem jornalista e radialista é, mas quer ser o "homem do rádio e da imprensa" assim mesmo.

Controlando tudo e todos, e chegando até mesmo a controlar a esquerda baiana, que depois foi traída e jogada à sarjeta, transformando num ente acéfalo a oposição baiana ao velho coronelismo do qual Kertèsz é apenas um filhote "moderno", o mesmo coronelismo comandado durante muitos anos por Antônio Carlos Magalhães. Se antes era um perigo fazer oposição política numa Bahia controlada por ACM, devido a suas ameaças de punição e perseguição, fazer oposição política na Bahia de Kertèsz também é outro perigo, pela ameaça inicial de cooptação por parte do astro-rei da Rádio Metrópole e, depois, pela furiosa traição, onde cabe espinafrar, nos microfones da rádio, pessoas como Emiliano José e Oldack Miranda, cujo antigo deslumbramento pelo pseudo-radialista criou, para os dois, uma mancha triste em suas trajetórias, pois pagaram o preço da ingenuidade e da obsessão pela visibilidade. Emiliano e Oldack deveriam aprender com os seus colegas gaúchos, que já espinafravam a "mídia boazinha" até mesmo antes dos paulistas.

Mas a principal vedete da visão "missionária" da grande imprensa foi o Grupo Bandeirantes de Comunicação. Seu discurso tratava o produto "jornalismo" como se fosse a doutrina salvadora da humanidade. Era como se, para a cúpula jornalística do Grupo Bandeirantes - principalmente na figura do chefe Fernando Mitre - , o Brasil fizesse sua "Revolução Francesa" através do "jornalismo". Isso fez do Grupo Bandeirantes um mito que garantiu até a rede Band News FM tirar definitivamente do ar a Fluminense FM, mesmo quando esta era apenas uma rádio de pop adulto.

A superioridade mítica marcou a corporação durante anos, apesar dos surtos vejistas quando o assunto é o Movimento dos Sem-Terra, que só fizeram a Bandeirantes deixar de ser flertada pela intelectualidade de esquerda, depois do mico da Caros Amigos em publicar um anúncio da Band News FM com Bóris Casoy e tudo e um colunista espinafrar o mesmo tele-radiojornalista na mesma edição.

Foi aliás com Bóris Casoy - depois revelado como um antigo gordinho que participou dos atos do Comando de Caça aos Comunistas, até mesmo no confronto da Rua Maria Antônia, em São Paulo, em 1968 - que o Grupo Bandeirantes fez derrubar a aura do "jornalismo heróico" que nem os ataques ao MST nem a presença de José Luiz Datena puderam derrubar: os comentários grosseiros de Casoy contra os lixeiros. E mostrou o lado podre da "defesa da cidadania" do Grupo Bandeirantes: a cúpula demitiu os operadores que, acidentalmente, deixaram o microfone ligado durante a transmissão da vinheta em que vasou o comentário de Casoy.

Junto a este e outros episódios - como o comentário pândego de Lúcia Hippolito, da CBN, e a desinformação de Alexandre Garcia sobre as discussões sobre direitos humanos no Brasil - , os antigos semi-deuses da grande mídia caem do pedestal, como as estátuas apodrecidas dos antigos tiranos depois de saídos do poder. A Internet, bem ou mal, virou o reduto do senso crítico que, inicialmente, incomodou pessoas influentes - mesmo "humildes internautas" que, no fundo, são meras marionetes ou vassalos da mídia - e ainda os incomoda, e o chamado "quarto poder", que não só há muito conquistou o poder como participa, com gosto, do jantar dos poderosos - o "Fórum Democracia e Liberdade de Expressão" do Instituto Millenium não nos deixa mentir - , mostra sua podridão não muito diferente da dos demais poderes da nação.

No mundo tecnocrático, o "jornalista" é um profissional acima da opinião pública, um pseudo-combatente da cidadania, para o qual o povo tem que prestar reverência e submissão. Mas, no mundo democrático, o jornalista é apenas um profissional, dotado de habilidades próprias, mas que está a serviço de uma sociedade que, em quantidade de pessoas, é muito maior que a dos jornalistas. O jornalista é parte integrante da sociedade em que vivemos, estando dentro e em função dela, e não acima dela.

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