terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

MORREU PENA BRANCA, REMANESCENTE DA MÚSICA RURAL BRASILEIRA


Morreu o músico José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, aos 70 anos, ontem à noite, depois de passar mal em sua casa, no bairro de Jaçanã, em São Paulo.

Ele fez dupla com o irmão Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho. Era a admirável dupla Pena Branca & Xavantinho, da hoje cada vez mais rara música caipira autêntica, sem espaço na mídia, usurpada pelos caubóis sacolejantes do breganejo, diluição esquizofrênica da música rural.

Xavantinho faleceu em 1999, aos 57 anos. A dupla Pena Branca & Xavantinho havia surgido em 1962 e teve uma brilhante e íntegra carreira dedicada à legítima música rural. Eram respeitados até por Milton Nascimento (autor, com Chico Buarque, da música "Cio da Terra", que a dupla gravou), o que mostra a relevância dos dois irmãos, que nunca sucumbiram à pasteurização da música caipira nos anos 70, quando o arranjo à semelhança dos Bee Gees afetou a música caipira, obrigando outros veteranos autênticos a gravar discos piegas - na música caipira, não são os próprios intérpretes os arranjadores - , por imposição dos produtores.

É essa diluição que, mais tarde, formatou os ídolos breganejos que surgiriam a partir dos anos 80, além de terem feito a carreira da dupla Chitãozinho & Xororó, primeiro nome a deturpar a música caipira brasileira, já nos anos 70.

Por isso mesmo, o falecimento de Pena Branca mostra o quanto agoniza, infelizmente, a música caipira autêntica. A dupla Pena Branca & Xavantinho agora está extinta em seu todo, pois o remanescente, que representava de uma forma ou de outra o legado da dupla, também morreu. A dupla teve sorte de ter tido espaço na mídia, mas não a grande mídia. É porque seu sucesso coincidiu com um período em que a MPB autêntica vivia seu grande momento.

A música caipira autêntica continua existindo, mas ela não tem espaço na mídia. Com toda a segurança, ela não está representada nos ídolos breganejos que mais parecem herdeiros - por sinal explícitos - de Waldick Soriano na sua esquizofrenia musical. Essa música pseudo-caipira, que ora grava country e boleros caricatos, ora parasita o Clube da Esquina, ora parasita o cancioneiro rural de verdade. Até para tirar vantagem às custas do autêntico, porque o desejo do picareta é se passar pelo autêntico.

Graças a isso, enquanto a música pseudo-caipira, com seus medalhões e agora com ídolos emergentes - protegidos pelo rótulo hipócrita de "sertanejo universitário" - , faz grande sucesso comercial e gera até defensores fanáticos como Olavo Bruno, a música caipira verdadeira segue silenciosa enquanto puder se expressar.

A música caipira autêntica não é a música dos latifundiários, dos empresários de agronegócio, dos burgueses das grandes capitais metidos a consumir "música do campo". É a música dos trabalhadores rurais, vítimas de toda uma campanha da mídia, que trata como verdadeiros vilões qualquer um que tenha uma enxada na mão e queira se expressar.

A demonização dos trabalhadores rurais, junto ao desprezo à verdadeira música caipira - coisa que não se resolve com covers da música rural gravados pelos breganejos - , faz com que a música rural brasileira corra risco de extinção, seja ameaçada de desaparecimento. Convém fazermos alguma coisa para evitar isso.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Não deixemos a música caipira morrer!