quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

INSTITUTO MILLENIUM: A DIREITA MAIS UMA VEZ BRINCANDO DE "INSTITUTO"



Repete-se a História como uma farsa. Os contextos se diferem, mas as mesmas manobras parecem ressurgir, com as devidas adaptações do tempo.

Recentemente tivemos a militância do "Cansei", movimento organizado por um advogado paulista da OAB, Luiz Flávio D'Urso com o apoio da FIESP, que realizou passeatas dos mesmos moldes das Marchas da Família com Deus pela Liberdade, eventos realizados em 1964 em várias cidades do país, cujo momento máximo foi o evento do Vale do Anhangabaú, em São Paulo, no dia 19 de março, em reação ao comício de João Goulart na Central do Brasil, na então Guanabara, seis dias antes.

As passeatas do "Cansei" tinham até várias celebridades, como Hebe Camargo, Ivete Sangalo e Zezé Di Camargo (sem o irmão, que preferiu ficar cauteloso), e eram quase que uma releitura pop das citadas marchas de 1964.

Agora temos outra iniciativa, esta inspirada nos antigos "institutos" IPES e IBAD. O IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) surgiu primeiro, em 1959, por iniciativa de um grupo de empresários (Ivan Hasslocher, Gilbert Huber Jr., Paulo Ayres Filho e Glycon de Paiva, entre outros), para reagir ao caráter nacionalista implícito no projeto político de Juscelino Kubitschek, que tinha o neo-trabalhista João Goulart como vice-presidente.

O IBAD tinha uma ação mais política, mas, para complementar seu trabalho, criou um outro órgão, um "instituto" derivado, de aparato mais "intelectual", o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais). Essa brincadeira da direita de inventar "institutos" era uma forma de fazer frente a um autêntico instituto, o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), criado para dar consultoria ao governo Kubitschek.

Criado em 1956 a princípio por pessoas de várias correntes (tinha até o conservador Roberto Campos), o ISEB passou para a esquerda depois que um dos membros fundadores, o sociólogo Hélio Jaguaribe (que está vivo até hoje), propôs a quebra do monopólio estatal da Petrobras em um de seus livros, O nacionalismo na realidade brasileira, publicado em 1958. Outro fundador, Roland Corbisier, conduziu o ISEB para a causa esquerdista, depois que a crise interna resultou na saída de Jaguaribe. Outro membro fundador do ISEB foi o militar e historiador Nelson Werneck Sodré. O ISEB foi extinto pelo AI-2 da ditadura militar, em 1964.

A dupla IPES-IBAD representou um verdadeiro who is who da direita brasileira. Juntando seus membros e os colaboradores diretos e indiretos, a lista ia desde o general Jurandir de Bizarria Mamede - que fez um discurso violento contra a vitória eleitoral de Kubitschek durante o enterro do general Canrobert Pereira da Costa, em 1955 - até o então empresário Paulo Maluf, mais tarde político. Mas tinha também Antônio Carlos Magalhães, Roberto Marinho, Roberto Campos, os pais do então adolescente Fernando Collor de Mello, dona Leda Collor e Arnon de Mello, o general Golbery do Couto e Silva, Assis Chateaubriand, os irmãos Orlando e Ernesto Geisel, entre outros. No braço intelectual, os escritores Rubem Fonseca, Rachel de Queiroz e Fernando Sabino embarcaram no IPES por boa-fé. Mas o cineasta e fotógrafo Jean Manzon, parceiro de David Nasser em muitas reportagens, vestiu a camisa do IPES com convicção.

O IPES-IBAD recebia também apoio de empresas multinacionais e do Departamento de Estado dos EUA, cujos investimentos tinham destino creditado ao IBAD. Foi o que uma CPI no Congresso Nacional constatou, o que fez o IBAD ser extinto, no final de 1963, enquanto o IPES sobreviveria até 1972, quando suas ações seriam consideradas desnecessárias diante do poder de ferro dos militares terem dominado o país.

Agora, temos o Instituto Millenium. Nos mesmos moldes ideológicos do IPES-IBAD, baseados num suposto ecumenismo ideológico e na "despretensão" político-partidária, o Instituto Millenium conta com a ala mais explícita do Partido da Imprensa Golpista. Sua equipe editorial inclui desde o filho do ministro ditatorial Hélio Beltrão, o empresário Hélio Beltrão Filho (sócio do Grupo Ultra, que financiou a tortura militar nos anos de chumbo), até mesmo o apresentador do Big Brother Brasil, Pedro Bial.

Sua presidente, a economista Patrícia Carlos de Andrade, é filha do falecido jornalista Evandro Carlos de Andrade, que trabalhou em O Estado de São Paulo e nas Organizações Globo (O Globo e Rede Globo). Há também Roberto Civita (Abril), Washington Olivetto (W/Brasil), Jorge Gerdau Johannpeter (Grupo Gerdau), João Roberto Marinho (filho do "doutor Roberto" que apoiou o IPES-IBAD), além dos jornalistas Eurípedes Alcântara (Veja) e Maristela Makei (Folha de São Paulo), da ex-deputada Sandra Cavalcanti, do empresário André Franco Montoro Filho (cujo pai foi um dos fundadores do PSDB) e dos economistas Armínio Fraga e Gustavo Franco, ambos ligados ao Banco Central durante a Era FHC, e do colega dos dois, o ex-ministro do governo Sarney Mailson da Nóbrega.

Entre os colaboradores ou entrevistados, se vê a fauna reacionária da imprensa paulista, como Carlos Alberto Sardenberg (CBN, Globo News), José Neumanne Pinto (O Estado de São Paulo), Reinaldo Azevedo (Veja), Ali Kamel (Rede Globo), Sandro Vaia (O Estado de São Paulo), Heródoto Barbeiro (TV Cultura e CBN) e Diogo Mainardi (Veja). Mas surpreende que, assim como Rubem Fonseca colaborou com o IPES, Guilherme Fiúza, do livro Meu Nome Não é Johnny, está engajado no atual "instituto".

Até agora o Millenium não repercutiu com a força necessária para derrubar o reformismo lulista ou para barrar qualquer alternativa política para as classes populares. Mas, assim como a grande mídia fala do "monstro da Censura" num comercial de TV, nós falamos do grande monstro, igualmente sinistro e perigoso, igualmente adormecido há anos, que é o do golpismo ideológico. Que atua em várias frentes, não apenas no aspecto político e econômico. É bom lembrar que o IPES-IBAD chegou a atrair até mesmo uma parte reacionária e pelega de estudantes e operários.

Alguém até hoje imagina que a "música popular" de sucesso hoje, que na verdade é a Música de Cabresto Brasileira, brega-popularesca, não tem a ver com os interesses golpistas da nossa grande mídia?

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Deixe essa imagem da logo do Millenium aí, Alexandre. Servirá de base para eu criar um atalho do blog Brasil, um País de Tolos direto para o artigo.

Eu só tenho dois detalhes a acrescentar. Sobre o criador do Cansei, o sr. Luiz Flávio D'Urso (presidente da OAB-SP) é também advogado da Igreja Apostólica Renascer em Cristo e de seus líderes Apóstolo Estevam Hernandes e Bispa Sonia Hernandes. A igreja e o casal tem direito a advogados e o sr. D'Urso tem direito a trabalho, mas nada disso deixa de ser interessante de ser anotado.

Em relação ao Millenium, o jornalista José Neumanne Pinto (Estadão) também está há anos na rádio Jovem Pan, e já teve passagens pelo jornalismo do SBT.