segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

GILBERTO FREYRE, HOJE, TERIA SIDO BARRADO PELA PÓS-GRADUAÇÃO


O ANTROPÓLOGO E SOCIÓLOGO GILBERTO FREYRE

Sim, meu livro de cabeceira no momento é o delicioso Casa Grande & Senzala, do antropólogo e sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, publicado originalmente no final de 1933, com posteriores edições ampliadas e atualizadas.

Pois o livro, que o autor classificou como um ensaio, também adota uma linguagem de crônica, se estivesse em planejamento hoje em dia, seria completamente vetado pelos cursos de pós-graduação. Para Mestrado, seria um trabalho amador, coisa de romancista frustrado. Para Doutorado, então, o trabalho nem passaria do rascunho das primeiras páginas, jogadas no lixo por um rigoroso orientador do curso, por achar demasiado infantil o tipo de narrativa do grande ensaio.

Pois é, os cursos de pós-graduação nas universidades brasileiras sofrem de vários problemas. Eu mesmo tentei entrar na pós-graduação em Comunicação na UFBA, e em História na mesma universidade, e não consegui. É meio misterioso o rol de interesses que determina quais os critérios de um "bom trabalho de pós-graduação". Os professores que lidam com a pós, quando ensinam para graduandos em outras matérias, ficam inventando que a temática é livre, que o anteprojeto é fácil, mas tudo se transforma numa peneira quase impermeável.

Mas, se os interesses se tornam misteriosos, dá para inferir que por trás disso escondem vaidades pessoais que não devem ser confrontadas com mestrandos ou doutorandos de grande senso crítico. E também existe o grande problema das bolsas de pesquisas. Narrativas quase romanceadas e temáticas críticas são incômodas para o padrão de teses que devem ser priorizados para receber bolsas do CNPq (sigla que corresponde ao antigo Conselho Nacional de Pesquisa, que em 1971 - eu era um bebezinho fofo - , virou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia).

Tudo tem que ser "científico". Na narrativa, no tema. A serventia social vai para as picas. Tudo tem que ter aquela retórica "científica", chata. Você tem que adotar, num projeto de pós-graduação, pelo menos em Comunicação ou História, temáticas assim:

1) COMUNICAÇÃO - "A problemática do sentido - a questão do não-sentido no contexto da realidade globalitária".

Ou então: "Cibercomunicação - Os espaços e os não-espaços da informação, os cenários e as não-fronteiras da Idade Mídia".

2) HISTÓRIA - "A religiosidade do canto das lavadeiras de Cabrobró de Pirijipe".

Ou então: "Ritos e Lendas - O trágico e o saudoso nas Festas de São Dindinho da cidade de Conceição do Deus Me Livre".

Aí o orientador fica tranquilo. Sua vaidade sai intata. Não tem moleque bacharel ou licenciado querendo lhe passar a perna com novas ideias. O rigor da narrativa "científica" é uma espécie de coleira que tenta domar a "fera bacharelesca" ou "fera licenciaturista" em certos procedimentos "objetivos".

Comparemos o seguinte discurso:

"Qual o problema da modernidade? A modernidade, com todos os seus desafios, perdeu o sentido de esperança, de anunciada salvação da humanidade através do progresso e do avanço tecnológico. A expectativa de que a tecnologia traria a paz e a prosperidade simplesmente caiu em descrédito. Os detentores do poder tecnológico e informacional, antes pouco identificáveis pelo público comum, ou, se assim são, eram de forma divina, totémica, hoje são alvo de profundos questionamentos de pessoas comuns que até usam a tecnologia, como no caso a Internet, mas para alertar sobre os perigos da automatização da sociedade, da overdose informativa, das modernas relações de poder na Comunicação".

Nada "científico", não é mesmo? O texto seria científico na Europa, onde se estimula o senso crítico, mas no Brasil o texto acima é visto como "panfletário", coisa de zineiro revoltado que publica jornalzinho mimeografado na faculdade.

O padrão considerado "científico" seria mais ou menos este:

"A modernidade globalitária, dentro do mundo em que vivemos, se configura numa transformação de paradigmas que se inserem num contexto de ruptura de valores e sentidos simbólicos, onde os personagens do cenário em transformação se intercalam e deixam de assumir seus antigos papéis. Em contrapartida, relações de poder se reciclam ou se extinguem, dependendo do contexto da informação e do jogo de interesses, resultando assim num quadro onde o modo de se transmitir informação ou de se exercer relações sociais não se torna mais o mesmo que há alguns anos atrás. O sentido entra em crise, mas uma crise transformadora, onde o que está em jogo é toda uma infraestrutura e uma superestrutura de valores, de objetos e objetivos, de símbolos, de praxes, que mexem decisivamente num jogo de relações humanas que compromete as fronteiras geográficas, as distâncias físicas, juntando personagens longínquos do processo comunicativo num novo cenário, onde a virtualidade e a realidade concreta se fundem e se interrelacionam".

Texto "lindo", não é? É, sim, mas só para os professores de pós-graduação. Para eles, o segundo texto é bastante "científico", segue todo um processo rigoroso de planejamento e elaboração. É um discurso prolixo, mas que enfeita perfeitamente as revistas publicadas pelas universidades brasileiras. É um discurso que os professores universitários, na macaqueação da retórica dos grandes semiólogos europeus, mas, do contrário dos originais, desprovida de algum conteúdo inteligível.

Vai um intelectual europeu, da geração de um Michel Mafesoli, por exemplo, e lê o tal parágrafo "científico" que apresentei, e ele certamente perguntará, espantado: "O que é isso?".

Vamos citar um trecho de Casa Grande & Senzala, um trecho inocente, sabiamente escrito pela criativa mente de Gilberto Freyre:

"Pela Europa os banhos à romana, ou de rio, às vezes promíscuos, contra os quais por muito tempo a voz da Igreja clamara em vão, haviam cessado quase de todo, depois das Cruzadas e dos contatos comerciais mais íntimos com o Oriente. O europeu se contagiara de sífilis e de outras doenças, transmissíveis e repugnantes. Daí resultara o medo ao banho e o horror à nudez".

Trata-se de um trecho do consagrado livro de 1933. Mas venhamos que este trecho seja inédito e seja apresentado num projeto de tese de um nerd candidato ao Mestrado de História. O professor da banca examinadora, potencial orientador do aspirante a mestrando, sentirá horrorizado com o trecho:

- O que é isso? Redação de escola primária, hoje ensino fundamental? Que narrativa infantil é essa? Um trabalho de pós-graduação, de Ciências Sociais, assim com essa narrativa? Me desculpe, mas essa falta de qualquer conteúdo científico torna esse trabalho completamente inviável. Sinto muito, mas este projeto está determinantemente reprovado. Sem pensar duas vezes. Imagine eu orientar um aluno que descreve palavras "adjetivantes" como "horror" e "repugnantes".

Sim, meus caros. Gilberto Freyre, se fosse um jovem hoje, e tentasse um projeto de mestrado com o que veio a ser Casa Grande & Senzala, seria barrado logo na entrada do Mestrado. Um rico trabalho de pesquisa teria sido inédito, seja pela abordagem ousada (o livro desfez vários mitos historiográficos, sobretudo sobre negros e índios, e ainda rendeu polêmica por isso), seja pela narrativa quase de crônica.

É para entendermos como andam certos valores sociais, tão burocráticos que seriam capazes de vetar um valioso estudo de Ciências Sociais.

Um comentário:

Marcelo Pereira disse...

Gilberto Freyre hoje, teria que ser blogueiro e espalhar os capítulos de seu livro em textos no seu blog.

E com certeza não teria muito sucesso no mercado de trabalho, visto que idéias como as dele não são aceitas no mercado acadêmico.

Mas se ele tivesse o corpão, fosse tão linda e dançasse como a Beyoncé, talvez o meio acadêmico pudesse reconsiderar seus textos.