domingo, 28 de fevereiro de 2010

"FALHA" DE SÃO PAULO DÁ SUA VERSÃO SOBRE O QUE É BREGA



Certamente foi a partir de uma reclamação do próprio Guilherme Arantes, já que ele sente o fardo pesado de ser tratado como se fosse um artista brega. Ele veio de um cenário em que cantores de uma mesma geração biológica se dividiam, de um lado fazendo uma espécie de música brega juvenil, de outro fazendo uma MPB mais ensolarada e pop.

Esses dois grupos surgiram praticamente ao mesmo tempo, há cerca de 30 anos, e até hoje confundem muita gente, criando injustiças e equívocos. O grupo do brega juvenil safra 1977-1984 mostrava Fernando Mendes, Nahim, Dudu França, Ângelo Máximo, José Augusto, Adriana, Sílvio Brito, Markinhos Moura e, sobretudo, Fábio Jr. O grupo da MPB ensolarada, por sua vez, apresentava Marcos Sabino, Biafra, Jessé, Dalto, Luís Guedes & Thomas Roth, Zizi Possi, Lúcia Turnbull, Tunai e, sobretudo, Guilherme Arantes.

As injustiças permitiam que os ídolos do brega juvenil sejam classificados como "MPB" enquanto tratava como "bregas" os ídolos da MPB jovem. Fábio Jr. faturou horrores com essa manobra, a mesma que quase deixou Guilherme Arantes no ostracismo.

Fábio Jr. chegou, aliás, a se aproveitar até mesmo do legado de outros veteranos da MPB que lançavam discos nessa fase. Como por exemplo nas duas composições de Vinícius Cantuária (grande músico da geração batalhadora de Ritchie e Celso Fonseca), "Só Você" e "Na Canção", que chegaram a tocar no rádio nas versões do próprio autor. No entanto, Fábio Jr., oportunista, pegou carona na regravação e hoje, enquanto Vinícius Cantuária rala muito nos EUA em busca de algum reconhecimento, Fábio Jr. se apropria das duas músicas, vendo que boa parte do grande público de hoje, muito bebê para ter acompanhado as gravações de Vinícius Cantuária, não se lembra dessas gravações originais.

Pois agora a Folha de São Paulo, a rósea flor espinhenta do PiG, conhecida pelos blogueiros como Falha de São Paulo, põe lenha na fogueira desta situação. Explorando a queixa de Guilherme Arantes, a Folha veicula a ideia de que brega é aquele que escreve letras de amor nas músicas.

Para a "Falha", é como se brega não fosse ligado à qualidade musical, mas apenas a uma natureza temática. A Folha de São Paulo tenta realimentar a própria injustiça de Guilherme Arantes. Tenta reabilitá-lo, mas como preço para isso está também a reabilitação do que vier de brega-popularesco no caminho. A Folha de São Paulo já tentou reabilitar Waldick Soriano, já exaltou a axé-music e o "funk carioca" nas suas primeiras páginas, já paparicou o "sertanejo universitário" e outras farsas breganejas como nenhum outro, apesar dos "líderes de opinião" taparem os ouvidos quando se fala que o PiG apóia o brega-popularesco.

Ou seja, através da exploração da situação vivida por Guilherme Arantes, a Folha de São Paulo (que já classificou Raul Seixas de "brega", da mesma forma que Veja) irá realimentar a própria injustiça que vitimou o cantor-autor de "Amanhã", "Deixa Chover" e "Cheia de Charme". Acabará também promovendo a "reabilitação" do outro lado, tentando vender a falsa imagem de cult para artistas de acesso fácil no establishment midiático dos anos 70-80, como José Augusto e Sílvio Brito.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...
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