quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

ESCLARECENDO A "ANTROPOFAGIA" DE OSWALD DE ANDRADE


Oswald de Andrade (1890-1964), um dos intelectuais da Semana de Arte Moderna de 1922 e um dos dois Andrades que, sem qualquer parentesco apesar do sobrenome, foram amigos do poeta e também modernista Mário de Andrade (o outro, Rodrigo Melo Franco de Andrade, fundou com Mário o SPHAN, atual IPHAN), é responsável pela ideia de "antropofagia" cultural que hoje conhecemos.

A "antropofagia" oswaldiana foi lançada pela revista organizada por ele e outros intelectuais, a Revista de Antropofagia. Foi em 1928. Os números eram creditados como "primeira dentição", "segunda dentição" e por aí vai.

A inspiração do termo se deu pelo costume canibal de certas tribos indígenas. O episódio mais famoso ocorreu em 16 de julho de 1556, no litoral de Alagoas, quando o padre português Pero Fernandes Sardinha, de 60 anos, durante um naufrágio no local, foi capturado e devorado por índios da tribo caeté. Alguns historiadores, no entanto, atribuem o canibalismo aos índios da tribo tupinambá.

O que se sabe é que a antropofagia indígena consistia em devorar um ser humano não por motivos de nutrição, mas pela crença de que, alimentando sua vítima ou inimigo, o índio estaria absorvendo as virtudes do devorado, tornando-se mais forte por isso.

Na metáfora de Oswald de Andrade, a antropofagia consiste na absorção do elemento estrangeiro pela cultura brasileira. Oswald acredita na força da cultura brasileira que, diante da influência colonizadora do estrangeiro, absorve seus elementos mas reativa, renova e redimensiona suas forças locais. Em outras palavras, a cultura brasileira absorve elementos estrangeiros, mas a sua força local faz trabalhar esses elementos como força renovadora das expressões locais.

Por isso mesmo, é bom diferir a simples tradução fria e aleatória do elemento estrangeiro pela "cultura de massa" brasileira da antropofagia oswaldiana. Vamos fazer uma comparação que difere muito bem a "cultura de massa" do brega-popularesco com a verdadeira cultura moderna brasileira, a primeira sem qualquer vínculo com os princípios modernistas e a segunda com qualquer vínculo. Vamos diferir o que é antropofagia cultural e o que é entreguismo cultural.

Há dois casos de pessoas entrando numa casa. Uma é a de um grande amigo que visita uma família, outra a de um ladrão que invade uma casa. Na antropofagia, a ideia é a de um amigo que visita uma família. É alguém de fora que é recebido, fica à vontade, mas sabe muito bem que a casa não é sua. É tratado com carinho e sua visita deixa marcas na vida da família, mas é de todo modo alguém de fora, embora com influência benéfica. Já o entreguismo cultural se assemelha a um ladrão que invade uma casa, leva os pertences e apenas mantém as vítimas vivas.

Como é que vamos atribuir como antropofagia cultural os ritmos da Música de Cabresto Brasileira, se dá para perceber que sua "brasilidade" soa caricata e confusa? Além disso, classificá-la assim soa etnocêntrico, mais parece uma visão de intelectuais de classe média que julgam as expressões musicais de caráter duvidoso diante de suas lentes abastadas. Um bondoso etnocentrismo, mas ainda assim etnocêntrico: o outro sendo julgado não pelo que é, mas pelo que os intelectuais gostariam que fosse.

O "funk carioca" (FAVELA BASS) nunca seria antropofágico, porque sua "brasilidade" é frouxa e tendenciosa. Além disso, quase todos os funqueiros não têm ideia de quem foi Oswald de Andrade. Como também não teriam outros popularescos, sejam os músicos de sambrega e breganejo, claramente entreguistas no aspecto cultural, fazendo imitação de música estrangeira dentro de uma roupagem brasileira de fachada. Ouvindo, sabe-se que os breganejos estão mais preocupados em imitar (de forma bem caricata e subserviente) o country e os sambregas a soul music usando apenas uma fachada "brasileira" até por questões de mercado. A brasilidade se torna apenas um artifício para disfarçar o elemento estrangeiro dominante.

Dos ritmos recentes, o mangue beat pernambucano é o que melhor traduz as ideias oswaldianas de antropofagia. é uma rica assimilação do hip hop, do rock pesado e do funk autêntico mas dissolvida dentro de referenciais do folclore local, como o maracatu, o frevo, o coco e outros ritmos locais. A Bossa Nova também é outro caso, quando o jazz e os standards de Hollywood encontraram os elementos de samba e até baião que resultaram numa fusão musical que conquistou o resto do mundo. Nestes dois casos, os elementos estrangeiros foram assimilados, mas sobressaiu a linguagem brasileira.

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