sábado, 6 de fevereiro de 2010

CRÍTICAS AO BREGA-POPULARESCO SÃO VISTAS COMO "COISA DE ROQUEIRO E SAUDOSISTA"


BROCK - O ROCK BRASILEIRO DOS ANOS 80 - Livro de Arthur Dapieve fala sobre um estilo tirado do mainstream pelos ídolos popularescos.


A partir de 1990, o Rock Brasil, movimento musical que tornou-se dominante na década de 80 - embora as regiões interioranas e os subúrbios em todo o país já vivam a escalada do brega-popularesco - , deu lugar para as primeiras tendências modernas da Música de Cabresto Brasileira (música caraterizada pelo espírito brega-popularesco), já na sua fase rumo à hegemonia absoluta.

Essas tendências eram o breganejo, o sambrega, a lambada e o "funk carioca" (na sua primeira diluição que hoje é rotulada de "funk de raiz"). O sambrega veio como herdeiro do "sambão-jóia" que fez muito sucesso durante a ditadura militar e que é confundido, injustamente, com o vibrante "samba-jovem" também conhecido como samba soul e samba rock (apesar do nome rock se referir mais ao uso de guitarra elétrica do que ao som).

Ao longo da década de 90, outras tendências vieram a constituir todo o universo brega-popularesco acumulado desde os primeiros ídolos cafonas. Vieram axezeiros, vieram tendências como forró-brega, vieram o "arrocha", o porno-pagode e por aí vai.

Com tudo isso, muitos críticos e intelectuais reagiram negativamente a esse universo popularesco, com textos questionando o pretenso apelo popular de ídolos como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Só Pra Contrariar e É O Tchan.

O argumento de boa parte deles, em artigos e livros, era de que os ídolos popularescos deram fim aos áureos tempos do Rock Brasil, que já não estavam tão áureos assim. Eram sobretudo críticos musicais e jornalistas da geração 80, como Arthur Dapieve, Ricardo Alexandre, Jotabê Medeiros e Tom Leão, que reclamavam da perda da hegemonia do rock brasileiro no gosto popular.

Outros, como Mauro Dias, Ruy Castro e Arnaldo Jabor, tinham outra queixa: a de que a música brasileira não era a mesma, que a música popular de outros tempos era mais rica, enquanto a "música popular" dominante desde os anos 90 era de qualidade bastante duvidosa. Mauro Dias chegou a dizer que o país vive um massacre cultural sem precedentes.

Embora as queixas sejam justas, elas, pelas suas naturais limitações argumentistas - uns se queixavam que o Rock Brasil perdeu seu espaço, outros se queixavam que a música popular não era tão boa quanto no passado - fizeram com que os queixosos fossem classificados, de forma negativa, como "roqueiros frustrados" e "saudosistas".

A partir dessa imagem pejorativa, o universo brega-popularesco comandado pela indústria fonográfica, pelos meios de comunicação nacionais e regionais e por empresários de entretenimento e oligarquias envolvidas, permitiu uma reviravolta discursiva que fez prolongar a música brega-popularesca que, sucesso nos anos 90, já exibia sinais de profundo esgotamento.

A retórica então partiu para novas manobras. Primeiro, é ignorar que o brega-popularesco tenha feito parte do mainstream nos anos 90. Falava-se de breganejos, axezeiros etc como se eles nunca tivessem feito sucesso algum na vida. Segundo, é creditá-los como "vítimas de inveja e preconceito", permitindo a ampliação do espaço dos ídolos popularescos, indo de tributos à MPB até programas de TV educativa e rádios segmentadas. Ampliação esta por interesses claramente financeiros, mas isso os defensores tentam desmentir. Terceiro, é insistir no desprezo a valores estéticos, éticos e sócio-culturais, porque a música brega-popularesca é assim porque assim tem que ser, é o que "o povo sabe fazer", é feito na "intuição", entre outras desculpas.

Rejeitar o brega-popularesco acabou virando coisa de roqueiro e saudosista. Aparentemente, as pessoas normais que gostavam de MPB tinham, que respeitar o brega-popularesco de todas as formas. Seja por convencimento de livros como os de Paulo César Araújo e Hermano Vianna, seja por convencimento da indústria publicitária da axé-music.

Cabe no entanto mostrarmos que isso não é verdade. Não se trata de radicalismo roqueiro nem de saudosismo das velhas bossas novas. A queixa contra o brega-popularesco, a Música de Cabresto Brasileira, é a queixa contra o poderio da mídia, contra os defensores reacionários a querer nos intimidar com desaforos, contra a máquina jabazeira que, abertamente operante, agora trabalha escondido enquanto seu esquema é desmentido pelos defensores do brega-popularesco.

Cabe mostrarmos que não queremos uma cultura popular parada no tempo, enquanto a música brega congelava cronologicamente boleros, Jovem Guarda, serestas, tropicalismos, sem a força nem a integridade original. Cabe mostrarmos que não queremos criar normas para a Música Popular Brasileira, enquanto ídolos como Alexandre Pires, Daniel e Exaltasamba fazem a cartilha da "boa música brasileira" às custas de muita pompa e outros aparatos. Cabe mostrarmos que não queremos a elitização da cultura popular, enquanto, por trás de tantos ídolos popularescos, mesmos os "calcinhas" e "calypsos", existem oligarquias poderosas apoiando.

Enfim, cabe cobrarmos coerência.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Será que, na passagem dos anos 70 para os 80 (uma das fases mais difíceis da história da MPB), tinha algum jornalista, antropólogo e sociólogo defendendo abertamente o brega-popularesco?