sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

ARNALDO ANTUNES FEZ CRÍTICA À TECNOCRACIA



"O passageiro de ônibus quer apenas conforto e rapidez". "O ouvinte de rádio quer acima de tudo prestação de serviço e informação". "Na vida amorosa, a mulher tem que escolher como marido o homem que possa sustentá-la e protegê-la".

Estas e outras frases expressam o ideal de racionalidade da tecnocracia. Uma tecnocracia que trata o povo como uma massa disforme, destinada a ter apenas o básico para sua sobrevivência.

O ideal tecnocrático tem seus defensores entusiasmados, às vezes provocadores, não raro autoritários. Num país ainda subdesenvolvido como o Brasil, a tecnocracia é uma espécie de religião salvadora que promete milagres e respostas para todas as questões humanas. Isso não é verdade, mas muita gente acredita assim e tem argumentos verossímeis - mas, com um olhar mais atento, contraditórios - para defender o ideal tecnocrático, não com essa denominação. A "religião" tecnocrática não se considera tecnocracia, prefere usar o rótulo de "cidadania". Para difundir esse monstro abobalhado chamado "cidadão", sem cara, sem forma, mas feito para representar os interesses tecnocráticos atribuídos supostamente ao povo.

Pois Arnaldo Antunes havia escrito uma letra criticando a tecnocracia. Poucos perceberam. Trata-se de "Comida", cuja música Arnaldo, então integrante dos Titãs, também fez, em parceria com Sérgio Britto e o falecido Marcelo Fromer. A música foi um grande sucesso, faz parte do álbum Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas, de 1987, e teve até remix dançante. Mas ninguém percebeu a intenção da letra, aparentemente um poema concreto sem sentido.

Os primeiros versos são contundentes. A tecnocracia que só pensa objetivamente no "cidadão", no fundo, deseja apenas para o povo o supostamente básico, as necessidades imediatistas, as necessidades objetivas. Não está aí para o prazer, nem para a complexidade do ser humano com suas novas necessidades subjetivas. Daí os primeiros versos, contundentes: "Bebida é água, comida é pasto". Vejam a letra:

COMIDA (Arnaldo Antunes - Sérgio Britto - Marcelo Fromer)

Bebida é agua
Comida é pasto
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?
A gente não quer só comida,
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida,
A gente quer saída para qualquer parte,
A gente não quer só comida,
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida,
A gente quer a vida como a vida quer

Bebida é agua
Comida é pasto
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?
A gente não quer só comer,
A gente quer comer e quer fazer amor
A gente não quer só comer,
A gente quer prazer pra aliviar a dor
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer inteiro e não pela metade

Bebida é agua
Comida é pasto
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?
A gente não quer só comida,
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida,
A gente quer saída para qualquer parte,
A gente não quer só comida,
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida,
A gente quer a vida como a vida quer

Bebida é agua
Comida é pasto
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?
A gente não quer só comer,
A gente quer comer e quer fazer amor
A gente não quer só comer,
A gente quer prazer pra aliviar a dor
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer inteiro e não pela metade

Desejo,
Necessidade e vontade
Necessidade e desejo
Necessidade e vontade
Necessidade e desejo
Necessidade e vontade

Um comentário:

Marcelo Pereira disse...

Para os tecnocratas, é interessante dar o básico para que eles não gastem muito e possam continuar com suas riquezas.

Convém lembrar que todo tecnocrata segue a ideologia liberal, que defende que os direitos plenos pertencem apenas às classes poderosas e que as outras classes, além de existirem apenas para suprir as necessidades dos poderosos, tem direito apenas ao mais básico. isso quando sobra algo para eles, pois muitos nem acesso ao básico tem.

Bela letra de Arnaldo Antunes (a letra é só dele) e combinada com o seu texto nos ajuda muito a refletir sobre esse mundo injusto.

O álbum originaldessa música é um discaço, um dos melhores dos Titãs, que recentemente perdeu Gavin para uma carreira solo, nem que seja como produtor apenas.