segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

ROCK IN RIO COMPLETOU 25 ANOS


Entre os dias 11 e 20 de janeiro, o Brasil se lembrará dos 25 anos do festival que mudou o âmbito dos concertos internacionais, o Rock In Rio.

O Rock In Rio é um projeto organizado pela Artplan, um festival moderno que incluiu praça de lanches, shopping, serviço de atendimento médico e uma enorme infra-estrutura para atender milhões de pessoas. Foi um projeto dedicado ao público jovem organizado por um empresário moderadamente conservador, Roberto Medina, irmão do político Rubem (que, como repórter, havia entrevistado John Kennedy em 1962 e, em 1980, mudou-se do PMDB para o PDS) e ambos filhos de Abraão Medina, dono da loja Rei da Voz e inventor do mito proto-brega Orlando Dias (pelo amor de Deus, não confunda com o verdadeiro rei da voz, o grande Orlando Silva).

Em todo o caso, o Rock In Rio, hoje conhecido como Rock In Rio I devido às edições posteriores, tornou-se fundamental porque era o contexto da redemocratização política - apesar da eleição indireta, pelo colégio eleitoral, o candidato era civil, Tancredo Neves, que se não era aquela maravilha de político, não era um general; mas, morrendo ele, José Sarney assumiu o poder (um oportunista político, oligarca maranhense, mas ao menos também não era militar, apesar de ter apoiado a ditadura) - e de uma nova cultura jovem emergente no país.

Se o cenário político pós-ditadura a ser assumido no país não era grande coisa, de alguma forma eram novos tempos. Sim, tal qual o Império brasileiro, que manteve a estrutura do Brasil colonial, e da República Velha, que manteve a estrutura do Segundo Império, no século XIX, a redemocratização brasileira manteria a estrutura civil da ditadura militar. Mas já era grande vantagem você não ter sua casa invadida pela polícia só por dizer o que pensa.

Também o Rock In Rio não era um festival perfeito. O evento valeu menos pelo cardápio de atrações do que pelo astral que o festival, em si, carregava. As atrações não eram ruins, mas pouco tinham de contemporâneas, exceto as bandas mais populares do Rock Brasil, Paralamas do Sucesso, Blitz, Kid Abelha e Barão Vermelho, mais o cantor e guitarrista Lulu Santos, e o grupo da nova onda do metal britânico, Iron Maiden, Ozzy Osbourne e AC/DC, nomes do metal sempre a satisfazerem seus fãs com seu estilo e integridade. Além deles, havia também os B-52's, que, se não eram os mais badalados representantes da new wave do Primeiro Mundo, eram, e são, muito bons. E as Gogo's são sempre simpáticas e lindas.

De veteranos, havia o pessoal da MPB - Alceu Valença, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Moraes Moreira, Baby Consuelo, Pepeu Gomes (estes três eram dos Novos Baianos) Rita Lee, Ivan Lins, Erasmo Carlos - , havia intérpretes de pop adulto como Al Jarreau, James Taylor (que depois homenageou sua experiência na música "Only a Dream in Rio") e George Benson.

Do rock setentista, os grupos ingleses Queen e Yes já eram muito populares na década anterior à do Rock In Rio.

Queen era marcado pelo carisma de Freddie Mercury na voz e, às vezes, também no piano, e pelos solos de Bryan May. O concerto do Queen foi uma compensação ao cancelamento da apresentação no Maracanazinho, em 1982. Portanto, representou para os fãs a oportunidade de fazer como os paulistas, que cantaram, em uníssono, a música "Love Of My Life", balada composta pelo vocalista.

Yes era a banda progressiva dos sonhos dos brasileiros, mas também veio a ser dos pesadelos também, quando os tempos já não eram bons para o sucesso grandioso do progressivo. Mas era a chance, embora tardia, dos jovens setentistas verem seus heróis tocando ao vivo, pouco depois de um período de esquecimento quebrado pelo sucesso de Jon Anderson, vocalista do grupo, em seu trabalho com Vangelis (ex-Aphodite's Child) e pela volta do Yes com "Owner of a Lonely Hearts".

Havia também o Whitesnake e Scorpions, que faziam bom rock pesado nos anos 70, mas declinaram para o metal-farofa na década seguinte, e a chata Nina Hagen, quase que uma ancestral da Lady Gaga.

O Rock In Rio serviu também para marcar as carreiras de três nomes que, pouco depois, já não estavam mais entre nós: Ricky Wilson, B-52's, falecido poucos meses depois do evento, em outubro daquele 1985, Cazuza, falecido em julho de 1990 e Freddie Mercury, falecido em novembro de 1991 no mesmo dia de Eric Carr, do Kiss (outra banda muito popular no Brasil).

Houve momentos constrangedores como a vaia ao veterano Erasmo Carlos, por culpa da escalação errada num dia de bandas heavy. Erasmo até adotou um visual próximo do "radical", mas seu repertório de cunho romântico - ele integrou a Jovem Guarda, gente! - irritou os fãs de Iron Maiden que estavam na platéia. Eduardo Dusek e Kid Abelha também passaram por momentos constrangedores, devido à plateia fã do AC/DC. Como os artistas vaiados tinham também segundas apresentações, eles tiveram mais sorte nesta segunda vez, sem coincidir com grupos de rock pesado.

A grande surpresa foram os Paralamas do Sucesso que, com apenas quatro anos de carreira e dois LPs, encarou pela primeira vez um grande público sem medo, demonstrando segurança e desenvoltura. Eu só vi trechos da apresentação ao vivo pela TV. Mas, no Festival de Verão de Salvador, de 2002, pude ver ao vivo a banda e Herbert Vianna, mesmo paralítico, mantinha o mesmo talento de cantor e guitarrista consagrado no Rock In Rio.

O Rock In Rio teve como benefícios favorecer o desenvolvimento do profissionalismo na organização de espetáculos musicais. Antes do Rock In Rio, não havia uma estrutura confiável e as apresentações de Kiss e Van Halen no Brasil tiveram problemas. O profissionalismo valeu não apenas para os artistas estrangeiros, mas também para os artistas nacionais.

Outra vantagem puxou, no entanto, uma desvantagem. Fortaleceu o segmento rock no Brasil, mas aí vieram os oportunistas, rádios pop convencionais viravam "rádios rock" para capitalizar com o segmento, o que acabou, na década de 90, enfraquecendo e eliminando as rádios de rock originais, outrora supercompetentes, obrigadas a competir com as similares picaretas. Também vieram jornalistas tendenciosos e picaretas, locutores "engraçadinhos", bandas medíocres, selos pseudo-independentes, o que fez o segmento rock inchar e enfraquecer logo em 1990, apesar de continuar forçando a barra no eixo RJ-SP até pouco tempo atrás, abrindo espaço para os popularescos.

Enfim, houve a abertura lúdica do Rock In Rio e a abertura política da redemocratização. Mas quem pensa que a trajetória está completa e perfeita, é bom dizer que aquilo tudo foi apenas o começo de um longo caminho.

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