domingo, 17 de janeiro de 2010

REJEIÇÃO DO "FUNK" NADA TEM A VER COM A ANTIGA REJEIÇÃO DO SAMBA


Pequeno moinho de açúcar (1822), do pintor francês Jean-Baptiste Debret.

Não é demais repetir sobre o grande equívoco dos funqueiros e seus defensores em comparar a rejeição que o "funk carioca" sofre com a que o samba, o maxixe e outros ritmos autenticamente populares sofreram há 100, 150 anos atrás.

Só para sentir o absurdo da tese, que engana muita gente por ser sentimentalmente sedutora, mas desprovida de qualquer sentido realmente lógico, eu estava pesquisando textos relacionando as palavras "funk" e "imprensa golpista" e cheguei a este texto, do Observatório da Imprensa, sobre aquela reunião dos funqueiros na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), em setembro do ano passado.

O texto, intitulado FUNK INCOLOR - FAMA, OMISSÃO E COOPTAÇÃO, de Marcelo Salles, do blog Fazendo Média, mostra uma "pérola" da "brilhante pesquisadora" Adriana Facina, antropóloga, que investe num dos clichês argumentativos dos defensores do "funk carioca". Aqui está a frase para percebermos o grande absurdo:

"Quero começar relembrando que o que o funk sofre hoje na verdade é um capítulo de uma história mais antiga de criminalização da cultura negra no Brasil. A perseguição aos batuques que vinham das senzalas, à capoeira, ao maxixe, ao samba, entre outros, fez parte da formação da nossa sociedade, profundamente opressiva com os debaixo".

Francamente, Adriana, igualar os tempos de Pereira Passos com os tempos de Eduardo Paes, nessa analogia de comparar o "funk" ao samba, em termos de rejeição, é uma das coisas mais ridículas que se ouve nessa retórica toda apologética ao "funk", que, sabemos, não tem o nível de criação, de arte e de decência do samba brasileiro.

No passado, o samba era lascivo, sim, tinha forte apelo sexual, mas o sexo não estava acima da música, eram coisas separadas que se associavam nas situações de lazer. E a música do samba era de valor, sim, uma adaptação brasileira de ritmos tribais do povo africano, que têm profunda finalidade social de transmissão de conhecimento.

O "funk", pelo contrário, tem, em boa parte de suas músicas - se é que pode chamar isso de música - o sexo como motor. Não há melodia, não há canto, não há beleza, o que há é um som brutal, espécie de téquino da idade da pedra, cujo maior sentido está em glúteos sacolejantes. O "funk" é só música de mercado, totalmente descartável, e não possui finalidade social alguma e não exerce qualquer tipo de transmissão de conhecimento. Desde quando "É o Pet, é o Pet, é o Pet" ou "Créééééééuuuuuuuu" são transmissões de conhecimento? Nem em sonhos!

"FUNK" NUNCA FOI CONTRA O SISTEMA; SEMPRE FOI ESTABLISHMENT

Outro dos absurdos descritos no referido texto está nos próprios "argumentos" de Marcelo Salles, que, talvez por ingenuidade ou desinformação, desconhece o apoio das Organizações Globo ao "funk", e que a omissão das declarações da antropóloga segue apenas a lógica da seleção da edição jornalística, que, numa emissora comercial, certamente acharia "difícil" colocar uma declaração de uma antropóloga em notícias que devem ter duração limitada. Se isso é omissão ou não, aí o problema não é meu nem de você, leitor deste blog.

Marcelo Salles chega à tolice de pedir aos funqueiros que tomem cuidado com a cooptação do sistema. Como se o ritmo nunca fizesse parte do esquema, sempre vendendo a falsa imagem de "movimento dos sem-mídia", depois de anos entrando em TODA E QUALQUER atração das Organizações Globo, Grupo Bandeirantes, Rede Record, Grupo Folha, Grupo Abril e praticamente toda a grande mídia brasileira.

Essa intelectualidade ou a esquerda que simpatizam com o "funk" sofrem de uma cegueira enorme. Além da falta de discernimento histórico - comparar os valores morais de hoje, mais abertos, com os do século passado, que eram muito rijos - , não veem o apoio da grande mídia, da mídia mais gorda, ao ritmo que eles tanto defendem.

O "funk" sempre foi establishment, sempre foi pró-sistema, os "bailes funk" são um mercadão há anos, com DJs se enriquecendo e virando empresários. E muito sucesso comercial às custas dessa retórica demagoga, que tenta vender um ritmo de sucesso como se ele fosse ainda emergente desse sucesso que já foi além do auge.

Não custa repetir: toda essa retórica tão linda e sofisticada se desfaz radicalmente quando se toca um CD de "funk carioca". Isso nem os defensores mais extremados têm coragem de fazer, para não romper com a doce ilusão que sentem em prol do ritmo. Porque, através da pura audição de CD, só uma tese se leva em conta: o "funk carioca" não merece toda essa reputação de arte e cultura que tanto lhe dão intelectuais, militantes e adeptos ou simpatizantes em geral.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...
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