terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O maior erro dos defensores do "funk"


Grande erro fazem os defensores do "funk" (FAVELA BASS) que criam toda uma retórica engenhosa para um ritmo chinfrim. Fazem um discurso desesperado. Se apropriam de velhas canções. Criam teses quilométricas, de mais de duzentas páginas, só para tentar provar que o Créu é militante da música de protesto, que os glúteos das popozudas fazem balé tão clássico quanto o do Teatro Municipal.

Mas também o fascismo se serviu tendenciosamente de Nietszche, Pavlov, Proudhon, Kierkegaard para se justificar, como hoje os retóricos do "funk" se servem de velhos sambas e de teses de Tinhorão, Marc Bloch, Glauber Rocha, Mário de Andrade, Torquato Neto para suas defesas. Não vou prolongar isso, mas dá para perceber o quanto uma retórica rica pode esconder uma tendência que não é assim tão grande coisa.

A chamada mídia de esquerda, ou algo próximo disso - como os dissidentes da grande imprensa que hoje a questionam - tentam encampar toda a retórica pró-funqueira, menos por terem ouvido seus discos e mais por sentir pena de uma suposta discriminação do povo pobre.

Um exemplo disso foi a acolhida, no blog Vi o Mundo, de Luiz Carlos Azenha, de um texto de Celso Lungaretti, jornalista, escritor e blogueiro (ele faz o Náufrago da Utopia), que chega a se apropriar de uma canção de Zé Kéti, conhecido sambista fluminense, autor da famosa música "Opinião": "Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião / Daqui do morro / Eu não saio, não".

É a mesma música que Paulo César Araújo, o "historiador do brega", se apropriou na sua desesperada tentativa de creditar "Eu Não Sou Cachorro, Não", sucesso de Waldick Soriano, como uma "música de protesto", numa retórica que, mexendo no sentimentalismo paternalista da classe média, enganou muita gente boa.

Pois essa tentativa de se apropriar de antigas canções da MPB foi feita também por uma Fernanda Abreu desesperada e irritada, mas aí tentando borrar o trabalho de um compositor falecido há três décadas substituindo "samba" por "funk".

Aliás, o próprio discurso pró-funqueiro nem pode se dar ao luxo de usar Zé Kéti nem Haroldo Barbosa nem qualquer outro grande artista para reforçar a retórica. Até porque, no fundo, os defensores do "funk", na sua "felicidade de arranha-céu", talvez queiram pensar como nas palavras de Herivelto Martins na sua "Ave-Maria no Morro", achando que, assim como "Quem mora lá no morro / Já vive pertinho do céu", "Quem faz o seu 'funk' / Já faz a música dos anjos". Pura utopia etnocêntrica, não é verdade?

Lungaretti também cita a argumentação de um dirigente funqueiro: "O que radicalizou o funk foi a proibição, nos anos 90, de os clubes terem festa. O baile foi para dentro da comunidade, e a favela passou a falar para a favela: as pessoas falam sobre o que vivem. O preconceito é com o funk, como antigamente o sambista era preso. A favela não pode se expressar". Muito lindo, muito maravilhoso, assim nessa arrumação de palavras.

Só que, nos EUA, ninguém vestiu uniforme dos Panteras Negras em Chubby Checker nem fantasiou Neil Sedaka de Bob Dylan. Mas aqui vem esse discurso todo "militante", "intelectualizado", desesperado, achando que o "funk" é a voz da miséria. É mesmo? Há vários anos seus DJs se enriquecem com esse discurso todo, fazendo até apresentações caras para plateias riquinhas, porque a retórica funciona, qualquer "bacaninha" dos Jardins e da Barra da Tijuca vai a um "baile funk" na boate da moda e tem a falsa impressão de que faz ativismo sócio-cultural.

Além disso, samba é samba, "funk" é "funk". E a rejeição do primeiro, numa sociedade ainda predominada pela zona rural, de costumes quase puritanos, não se compara à rejeição do segundo, numa sociedade moralmente mais aberta. A comparação, tão insistente, revela uma falha muito grande dos defensores do "funk", que tentam criar uma analogia literal entre duas épocas diferentes. Quem está análogo à época dos calhambeques e da luz de lampião são os defensores do "funk", que veem o povo pobre com o paternalismo de dondocas de instituições de "caridade".

Além disso, o "funk" não deixa a favela falar da favela. Grande engano. O favelado não pode tocar violão, a não ser quando o papel é ser um patético MC Leozinho. A favelada não pode fazer música, ou ela faz papel de popozuda abobalhada ou faz papel de mocréia enfezada. O favelado não pode fazer poesia, não pode obter conhecimentos, ele fica preso no "funk", vira escravo do "funk". No "funk", a voz maior é a dos DJs-empresários, é a dos dirigentes funqueiros, que no seu instinto populista falam do povo como se eles, ricos e poderosos, fossem eles mesmos o povo que, na verdade, eles exploram.

Cínicos, os defensores do "funk" acham que, se houver Educação e melhorias de vida, o ritmo melhora. Grande demonstração de hipocrisia.

Se o "funk" fez sucesso nesses anos todos, certamente os DJs e militantes funqueiros arrecadaram muito dinheiro, em venda de discos, produtos derivados e ingressos nos "bailes funk".

Se arrecadaram muito dinheiro, significa que eles têm dinheiro suficiente para mudar a qualidade de vida das comunidades. Isso incluiria a Educação, a assistência social, e, com o apoio de autoridades, seria a efetivação de uma série de reformas sociais para melhorarem as favelas. Não adianta aqui, no meio do caminho, dizerem que o "funk" é só música, porque os próprios defensores sempre dão a impressão de que o ritmo é mais do que isso, superestimando até mesmo a suposta ideia de "militância sócio-cultural".

Francamente, é muito discurso, muita pretensão, para nada. Uma retórica sofisticada sem sentido real. Você toca o CD de "funk" e você não vê poesia Modernista, não vê Tropicalismo, não vê Revolta de Canudos, não vê atitude punk, não vê a coragem do samba, não vê melodias, não vê coisa alguma de bom que seus retóricos apologéticos tanto evocam.

É tocando um CD de "funk" que cai por terra abaixo toda a retórica sofisticada que protege este ritmo.

4 comentários:

Lucas Rocha disse...

Se os cantores católicos gravassem "funks cristãos", deveriam sair "versos" tipo: "mexe o popozão e mostra o calçolão". Ao invés disso, essas "músicas" deveriam ter "letras" falando sobre o Deus Criador, o Nosso Senhor Jesus Cristo e sua mãe, a Virgem Maria, os papas, os santos, a libertação de todos os vícios do mundo (aborto, adultério, alcoolismo, cigarro, drogas, homossexualismo, prostituição, racismo, seitas "religiosas" como o Seicho No Iê, etc.), a paz (que deveria botar um ponto final em todas as guerras assassinas), as tragédias que mataram centenas ou milhares de pessoas (como, por exemplo, aquele acidente de avião com o Voo 3054 da TAM, em 2007), as pessoas que vivem abandonadas pelas ruas (sem conforto nenhum, nem casa para morar, nem comida, nem higiene, muito menos escola ou emprego) e
também, é claro, o secularíssimo condomínio brega-popularesco que quase assassinou a verdadeira MPB.
Imagine, por exemplo, o Padre Antônio Maria regravando a música de Roberto Carlos "Todas as Nossas Senhoras" em ritmo de "pancadão"... Seria ou não um pecado contra a Virgem Maria e seu todo-poderoso filho chamado Jesus?

O Kylocyclo disse...

Nem colocando letras religiosas o "funk" melhorará. O ritmo é ruim, mesmo, os vocais são ruins, que seria até pior se evocasse uma figura tão íntegra e admirável como Jesus Cristo. A ruindade do "funk" está na própria música, daí ser um pecado haver um "pancadão-cristão".

"Rap da Cruz"? "Ra-tatatá-tataratata"? Não faz sentido. Jesus merece melodias de verdade.

Sem falar que "Jesus Cristo", de Roberto Carlos, é 'soul music' de primeira. Ouça a gravação de 1969. Roberto foi um soulman. De fazer frente ao amigo Tim Maia. Sério! Ouça "Jesus Cristo" de 1969 e confirmará o que digo. E a 'soul music' gerou o verdadeiro funk, pelas mãos e mentes de James Brown & companhia. Nada de Créus, Apafunks, Marlboros, Buchechas, Leozinhos e outras porcarias.

Lucas Rocha disse...

É por isso que todos os "funkeiros" são servos do Inquisidor Satanás... Mas, se as popozudas do "funk" se vestissem de freiras, trocando o rebolado pelo convento, será que elas ficariam "mais bonitas" ou MUITO ESTRANHAS?

O Kylocyclo disse...

Bom, elas ficariam estranhas vestidas de freiras. Além disso, elas já estranham pelo celibato de quase todas elas, porque elas são cobiçadíssimas pelos machões do "povão".