terça-feira, 12 de janeiro de 2010

HOLLYWOOD PECA COM ABUSO NAS TRILHAS SINFÔNICAS


O cinema dos EUA investe, desde meados da década de 90, num terrível cacoete. É a obsessão por trilhas orquestrais de seus filmes. O que anda trazendo desvantagens imensas nos seus filmes, além da crise financeira que atinge a indústria cinematográfica e que pesa negativamente até mesmo nos seriados e mesmo nos roteiristas. Pois as orquestras numerosas custam dinheiro e são os roteiristas que pagam o pato.

Na década de 80, boa parte dos filmes produzidos nos EUA tinham trilhas sonoras econômicas. Havia comédias que tinham uma simpática trilha a base de um teclado simples. Apenas algumas produções especiais tinham trilhas sonoras com orquestras, com todo o direito ao uso de violinos e violoncelos nos momentos de tensão.

Mas veio a banalização das produções e o que se via apenas em filmes tipo Superman, Batman, Star Wars, Indiana Jones e derivados, passou a se ver até mesmo em comédias comuns ou em filmes de ação de segunda categoria. Tem até trilha típica de cinema catástrofe em comédia, basta fulano levar um susto ao saber de um compromisso difícil que sai a orquestra toda tocando. Basta o cara escorregar numa banana para violinos e violoncelos chorarem e quase destruírem o sentido cômico da cena.

Até seriados de TV que tem trilha incidental com guitarra e teclado, quando viram longa-metragem, salvo exceções, tudo fica sinfônico. Se num filme infanto-juvenil aparece a chuva, vem a orquestra junto com violinos lacrimejando. Se é uma comédia policial, a orquestração mais parece de épico de guerra. Numa comédia romântica, se o galã derrama água oxigenada no seu cabelo, vai a orquestra tocar um tema tenso.

E o pior é que tem até filme com cheerleaders misturando house music com orquestra sinfônica que soa muito estranho. Tudo para dar trabalho às orquestras, pouco importa se o filme é na verdade uma continuação menor de uma mesma franquia temática.

Assim não dá! Nem todo filme é Star Wars, Indiana Jones, Batman. Mas aí você vai dizer que em outros tempos as trilhas dos filmes eram orquestradas. Tudo bem. Mas com a atual tecnologia, e com os valores diferentes da sociedade, é preciosismo demais e à toa o cinema estadunidense investir demais em orquestras, como se quisesse torrar tudo quanto é grana em violinos, violoncelos, metais, mesmo em filmes bobos com cachorrinho e criancinhas.

Além disso, fica muito estranho, em filmes juvenis, haver uma trilha incidental sinfônica ao passo que, quando se mostram festas juvenis, se toca música eletrônica e rock.

Há até clichês da alternância de trilhas orquestrais com música eletrônica, hip hop ou rock, que ficaram muito banais e contrastantes em filmes juvenis em geral.

1) Se um grupo de bandidos visita um banco e tenta desmanchar o sistema eletrônico de segurança, toca música eletrônica. Mas, se solta o alarme e o grupo foge, rola um tema orquestral tenso.

2) Se um grupo de jovens adolescentes vai a um shopping center comprar roupas, toca um rock tipo new wave no fundo. Mas se elas ao voltarem para casa, encararem uma chuva imensa, solta o tema orquestral tenso.

3) Se um adolescente skatista passeia pela rua de sua casa, rola um rock do tipo poppy punk. Mas se ele, em outra situação, vai ajudar a irmã mais velha em apuros, rola o tema orquestral tenso.

4) Se aparece um grupo de moças atraentes em um carro, rola um hip hop ou um rock pesado. Mas se, no decorrer do episódio, elas são descobertas como um bando de ladras e ameaçam sequestrar os rapazes enganados por elas, rola o tema orquestral tenso.

Sem falar em madames cheias de frescuras, ex-amigas que passam a brigar, solteirão que leva choque com o pente elétrico, internauta que persegue um hacker, policiais caricatos brigando com bandidos estereotipados. Tudo leva orquestra. Até desenho animado, seja Fuga das Galinhas, seja qualquer produção da Pixar, todo mundo com orquestra desse tamanho.

Isso não faz do cinema dos EUA de hoje voltar aos Anos Dourados. Não ressuscita a fase áurea de Hollywood. Pelo contrário, a banalização do uso das trilhas orquestrais acaba comprometendo muitas vezes a leveza dos filmes, e muitas produções alegres acabam soando tristes ou tensas. E também acaba gerando consequências negativas quando o sucesso dos filmes é abaixo do esperado: com o fracasso das bilheterias, ocorre prejuízo, e aí a indústria, tendo que pagar por suas gigantescas orquestras, acaba atrasando os salários dos produtores e roteiristas. Daí as greves de roteiristas e produtores que fizeram Hollywood passar vergonha diante do mundo inteiro.

Moral da história: preciosismo demais custa caro.

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