terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A defesa de Fábio Pannunzio e os "donos da opinião e do saber"


Lendo o texto do Altamiro Borges em seu blog, soube da defesa que Fábio Pannunzio fez do colega Bóris Casoy na TV Bandeirantes. O texto foi publicado no site do próprio jornalista, veterano repórter da emissora dos tempos em que Chico Pinheiro trabalhava na emissora.

Tentando inocentar o colega, o qual Pannunzio diz conhecer há apenas dois anos, o repórter e apresentador-suplente do Jornal da Noite - que tem Casoy como titular - classificou de cyberbulling (implicância virtual) a reação de boa parte dos blogs - O Kylocyclo está dentro - contra a ofensa que o âncora fez aos lixeiros.

Altamiro Borges, em seu texto questionando a defesa feita por Pannunzio, nos lembrou o seguinte: "No texto “Em defesa de Boris Casoy”, Fábio Pannunzio comete vários erros. As pessoas sensatas não “crucificam” o âncora “por seu credo, origem ética ou preferência sexual”. Não se combate preconceitos com preconceitos. Casoy, sim, é que nunca escondeu os seus piores preconceitos, principalmente os de classe. Com suas ironias, risadinhas e trejeitos, ele vive desqualificando os trabalhadores, principalmente os que lutam por seus direitos. Seu ódio aos ativistas do MST que lutam pela reforma agrária é visceral, escancarado; todas as greves são motivo de seu veneno".

Eu mesmo pude ver a pose cínica dos comentários de Bóris Casoy, quando assistia ao TJ Brasil. Em 1989, eu tinha 18 anos, puxa. E pensava que o TJ Brasil era um grande avanço na mídia brasileira, e boicotava a tola novela Bebê a Bordo, da Rede Globo (que, além da história sem pé nem cabeça, abusava de "Carmina Burana" na trilha incidental).

De fato, o TJ Brasil do SBT parecia um olha na terra de cego. Mas muita gente foi ingênua de ver revolução em coisas hoje banais, como um telejornal cujo apresentador opinava (e somente Bóris opinava, se havia um suplente, não comentava, como o Heraldo Pereira, há um bom tempo tendo voltado à Globo e, ironicamente, já atuando como comentarista).

Mas a Folha, a tão reacionária Folha de São Paulo, estava travestida de "moderna" e "democrática", como símbolo maior de um jornalismo "moderno e dinâmico" e tivemos que engolir esta postura durante anos. E muita gente que achava a Rede Globo tendenciosa comprava a Folha com gosto e prazer, fazia até pose na cadeira, cruzando as pernas, folheando com cuidado as páginas dos cadernos da Folha, fazendo um sorriso esnobe de puro prazer.

Felizmente os tempos são outros e já se sabe a palidez com que sentem os jornalistas da TV Bandeirantes quando tentam defender Bóris Casoy. Até mesmo jornalistas que não são arrogantes nem presunçosos, como Pannunzio e Ricardo Boechat, mas que em todo caso são colegas de Casoy e com ele convivem constantemente, de uma forma ou de outra, no cotidiano jornalístico da emissora.

A TV Bandeirantes, em reputação, foi também uma espécie de "Folha de São Paulo" em versão audiovisual (com o prestígio estendido para outros veículos do grupo, como a Band News FM), símbolo do "jornalismo moderno e dinâmico" que chegou até a ultrapassar, em prestígio, a própria Folha, até os recentes ataques ao MST pela mídia dos Saad e pelo episódio Casoy.

E muita gente se iludiu com a mídia com muito mais idade que meus 18, 19 anos naquela virada dos anos 80 para os 90. E com muito mais ingenuidade. O que dizer dos experientes Emiliano José e Oldack Miranda, dois jornalistas de esquerda baianos, mais de 30 anos de profissão, diante do tendencioso Mário Kertèsz?

O passado de Kertèsz nos anos de chumbo não é menos sombrio que Bóris Casoy e do dono da Folha Octavio Frias, no que diz ao apoio aos militares, já que todo mundo andou de mãos dadas com a ARENA, com o AI-5 e apoiando todo tipo de aparelho repressivo para afastar qualquer germe "comunista" que surgisse ou tivesse alguma atribuição, ainda que delirante, pelos militares. É bom lembrar que Oldack e Emiliano são autores de um livro sobre o guerrilheiro Carlos Lamarca, um dos inimigos da "revolução" instaurada em 1964 e reafirmada com o quinto ato institucional.

Mas torna-se coisa risível o apoio que Kertèsz recebeu dos dois jornalistas de esquerda, um apoio quase servil, que resultou num grande choque. Foi quando o dono da Rádio Metrópole passou a espinafrar os dois em pleno ar, com uma irritabilidade que antes não se imaginava, porque o ex-prefeito de Salvador convertido em pseudo-jornalista (sem diploma, sem formação, sem talento ou coisa alguma, só com fome e sede de poder). Foi em 2008.

Esse e outros exemplos, seja de gafes ou reacionarismo da grande mídia, seja ela nacional ou regional, têm um aspecto bastante positivo. Faz com que o chamado "quarto poder" da mídia caia de seu pedestal. Faz com que os proclamados donos da opinião pública sejam desmascarados, antes que nossa liberdade de pensamento se torne, na prática, um bem privativo deles.

É bom que Barbeiros, Casoys, Frias, Kertèsz, Garcias, Hippolitos, Mainardis, Petrys, Azevedos que comandam noticiários no rádio, imprensa escrita e TV sejam desmascarados. Melhor assim do que trairmos nossos pontos de vista, nossa formação intelectual espontaneamente desenvolvida, para adaptarmos ao "seguro pensamento" desses astros da grande mídia.

Imagine como seria ridículo abrirmos mão de nosso senso crítico e, de forma crédula, aderirmos ao padrão de pensamento desses "âncoras", só porque eles detêm os segredos das fontes de suas notícias e são pessoas supostamente dotadas de profunda informação e saber. Seria uma atitude similar a do povo diante dos sacerdotes da Idade Média, eles mesmos também "donos da opinião e do saber", pelo mesmo pretexto de detentores dos mais profundos segredos e mistérios da humanidade. Pretexto que se demonstrou muito falso, como o de nossos jornalistinhas de escritório.

Cabe agora não levarmos muito a sério os "sacerdotes" modernos da Idade Mídia, que, com suas gafes ou seu reacionarismo, escorregam feio do mármore liso de seus pedestais.

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