quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A decepção do Grupo Bandeirantes


Os fortes rumores de que a TV Bandeirantes ameaça demitir os operadores que deixaram vasar os comentários do jornalista Bóris Casoy mostram que é mais um grupo de mídia que cai de seu pedestal, numa queda bem mais vergonhosa do que outros veículos de mídia mais reconhecidos como reacionários.

Muitos viam no Grupo Bandeirantes de Comunicação um oásis de cidadania dentro do tendenciosismo comercial da grande mídia. É verdade que isso não passava de mito e ia a certos exageros - havia quem achasse que o Grupo Bandeirantes era mídia de centro-esquerda - , mas esse mito se deu nas circunstâncias de crise da ditadura militar.

Afinal, o Grupo Bandeirantes, junto ao grupo Folha, haviam feito, há cerca de trinta anos, as façanhas de difundir vozes e expressões opositoras ao regime militar, de uma forma ou de outra. Isso colocou tais veículos no circuito da mídia progressista, que eu defino como "mídia boazinha" ou "mídia fofa" (neste caso para contrapôr ao reacionarismo aberto da chamada "mídia gorda"). Além disso, da forma que o Grupo Bandeirantes defendia o produto jornalismo, dava a impressão de que os diretores do grupo queriam fazer a "Revolução Francesa" no Brasil através do trabalho jornalístico. Fernando Mitre virou um mito, como em outros tempos eram mitos Gilberto Dimenstein e Heródoto Barbeiro.

Só que com o efeito dominó derrubando a grande mídia, seja a mídia gorda ou a mídia fofa, em caráter regional (Rádio Gaúcha, de Porto Alegre, e Rádio Metrópole, de Salvador) ou nacional (Globo, Folha, Veja, CBN), as decepções com a grande mídia em geral se acumulam, a ponto de se falar no Partido da Imprensa Golpista (PiG, com o "i" em minúsculo em alusão ao portal iG - Internet Group - que, para quem não sabe, tem o Grupo Bandeirantes como sócio).

A Bandeirantes, no entanto, não era considerada PiG pela própria mitologia que até pouco tempo atrás cercava a companhia (considere-se, em conjunto, incluindo tanto a TV Band como a Rádio Bandeirantes e a Band News FM), por mais que essa mitologia seja exagerada (afinal, como um grupo de engravatados pode ser tutor ou guia maior de toda a opinião pública?). Até o fato da TV Band ter um programa de debates, o Canal Livre, o único na TV aberta comercial, fortalece a mitologia.

Mas com os recentes ataques do jornalismo da Band aos trabalhadores sem-terra, sem distinguir os alhos dos bugalhos que surgem com o rótulo de "MST", começavam a fazer tremer o mito "iluminado" do grupo midiático. Embora com uma abordagem "racional" que a revista Veja é incapaz de adotar, o reacionarismo da Band neste sentido já fazia a intelectualidade sentir um frio nas espinhas.

Agora, com a tolerância para com Bóris Casoy e a possível cumplicidade com o jornalista, apesar do comentário dele ser de responsabilidade pessoal do mesmo, já que a punição será feita aos operadores que deixaram vasar o comentário, e não o jornalista, que mal conseguiu convencer com pedidos de desculpa e com a aparente admissão da "bobagem" que fez, a Band arranha sua imagem seriamente.

Claro que isso soa novidade para quem não viveu o período anterior ao golpe militar, quando as posturas golpistas eram defendidas até por veículos que, duas décadas depois de 1964, passavam a imagem de "mídia boazinha".

A moderna Folha do projeto arrojado de 1984-1990 é a mesma Folha precocemente caquética, mal nascida de uma fusão de três jornais, que defendeu o golpe de 1964 e a manutenção da ditadura (que, a princípio, seria um governo provisório). Por isso faz sentido haver uma Folha que fale não em ditadura militar, mas em "ditabranda militar".

A progressista TV Band do jornalismo reflexivo e da prestação de serviço à cidadania, do mesmo grupo da Rádio Bandeirantes que "briga pelo cidadão", correspondia à mesma caquética Rádio Bandeirantes de Adhemar de Barros (o "rouba mas faz") que com sua mulher organizou marchas religiosas ultra-conservadoras que pediam a queda de Jango e sua substituição por generais, sem temer que eles transformassem o Brasil num grande quartel, tudo para varrer políticas progressistas que então se ascendiam (independente de se associarem ou não ao janguismo) e eram associadas maldosamente ao comunismo.

Pois o Grupo Bandeirantes que se mobilizou para pedir o Golpe de 1964 só podia mesmo manter um jornalista como Bóris Casoy, que em 1968 havia frequentado reuniões do Comando de Caça aos Comunistas, grupo que incendiou a sede da UNE, invadiu teatros para espancar atores e invadiu rádios para destruir equipamentos, além de brigar com universitários progressistas a ponto de matar um deles, e de sequestrar e matar um padre progressista.

A grande mídia, pelo jeito, é um grande arranha-céu em chamas. Muita coisa grave ainda vai acontecer.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Parodiando aquela frase de Chico Buarque:

Chamem a Globo!