terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Adeptos do brega-popularesco sentem horror à cultura de verdade


AS ELITES BRASILEIRAS SENTEM UM GRANDE HORROR EM VER O "PANCADÃO" FUNQUEIRO (FOTO) DAR LUGAR A UMA MÚSICA DE QUALIDADE ARTÍSTICA E DIGNIDADE MORAL GENUÍNAS VINDA DAS CLASSES POBRES.

Em 2001, Bia Abramo escreveu o texto contestando aquilo que ela definiu como "uma espécie perversa de exclusão estético-ideológica" que reage à ascensão de ritmos brega-popularescos que rompem "as barreiras sociogeográficas e passa a aparecer com destaque em meios de comunicação". Ela define essa reação ao império brega-popularesco - que ela encara como se fosse a "genuína música popular" - como um "horror moralista".

Quanta ingenuidade da autora, que havia escrito naquele ano seu artigo defendendo o "funk" (FAVELA BASS), um ano antes da morte de Tim Lopes (que investigava a criminalidade em "bailes funk") e dois anos antes da atual fase de modismo do ritmo carioca, que agora vende a imagem de "movimento cultural" obtido por lobby político.

Pois o horror não está do lado de quem critica funqueiros, axezeiros, breganejos, sambregas, arrocheiros, bregas veteranos etc. O horror está do lado deles, sobretudo por parte das elites que, através de todo um sistema que envolve rádios, TVs, jornais, revistas e sites, apoiados por redes de supermercados e eletrodomésticos, empresas de entretenimento, assessorias dos ídolos popularescos, além do respaldo a todos estes dado por políticos de direita e grandes proprietários de terras.

Enfim, são essas elites que muitos fingem não existirem, é esse esquema de mídia que muitos fingem não haver, é um sucesso comercial que acreditam não existir, mas, se não dá para esconder, acham pouco.

O que vemos é a escalada dos ídolos brega-popularescos em penetrar em redutos sociais antes reservados apenas à MPB autêntica, e todo esse sistema de cooptação que, na política, corresponde ao esquema do "mensalão" ou às insólitas alianças políticas de antigos rivais unidos pelo fisiologismo político. Se contestamos isso, eventualmente aparecem professores, dirigentes funqueiros, divulgadores de breganejos e axezeiros, entre outros, exibindo raivoso reacionarismo, sem medo de ofender ou xingar quem contestar seus ídolos

GOLPISMO CULTURAL - Esse golpismo cultural é que se trata de uma arma dessas elites e da base de apoio cooptada (de cientistas sociais a jornalistas, passando por artistas e celebridades em geral), que, isso sim, sente o verdadeiro horror de ver a antiga Música Popular Brasileira, autêntica e de boa qualidade, emergir feito fênix do terremoto brega-popularesco.

É o horror de ver surgir na favela sucessores de grandes nomes como Cartola, Pixinguinha, Ataulfo Alves e Nelson Cavaquinho.

Horror de ver surgir Garoto ou Noel Rosa nas gentes humildes ou de classe média baixa das zonas urbanas.

Horror de ver surgir, nos sertões nordestinos, gente como Jackson do Pandeiro, Luís Gonzaga e João do Vale, ou de aparecer um novo Cornélio Pires nas roças.

Horror de ver moças solitárias se consolando com Chico Buarque, Edu Lobo e Flávio Venturini, e não com Fábio Jr., Wando e José Augusto.

Horror de ver surgir, nas universidades, Chico, Edu, Elis Regina, Alceu Valença, Sidney Miller, Sérgio Ricardo, Taiguara, fazendo o verdadeiro som popular-universitário de boas melodias e grandes idéias.

Horror de ver as melodias falarem mais alto que o marketing.

Horror de ver moças faveladas se recusando a fazer papel ora de barangas calipígias, ora de mocréias revoltadas, e partirem, com dignidade e simplicidade, para compor e cantar excelentes canções.

Horror de ver surgir jovens negros com postura sóbria e belas vozes, como Wilson Simonal e Agostinho dos Santos, investindo em canções bem arranjadas.

Horror de ver grupos de samba que até são engraçados, mas que nunca põem a piada acima da música (de qualidade).

Horror de ver duplas caipiras autênticas que, mesmo humorísticas, não fazem um som estereotipado de boleros, mariachis e countrys caricatos de voz desafinada e postura forçada de caubói ianque e que, em vez disso, investem na verdadeira música rural, respeitando de fato suas origens regionais.

Horror de ver grupos negros baianos voltarem a fazer música com dignidade, sem necessariamente fazer protestos, mas nunca sucumbindo ao pagodão-baixaria que, no fundo, mais ofende que honra a negritude local.

Horror de ver favelados cariocas fazendo black music à brasileira de verdade, tocando instrumentos, cantando boas canções, com humildade e despretensão.

É esse horror que sentem as pessoas que tanto elogiam Waldick Soriano, Amado Batista, MC Créu, Chiclete Com Banana, É O Tchan, I. S. Zezé Di Camargo & Luciano, Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, DJ Marlboro, Vítor & Léo, João Bosco & Vinícius, Exaltasamba, Sullivan & Massadas, Wando, Roberta Miranda e tantos outros.

Porque elas temem que toda essa música comercial que apoiam, herdeira de todo um esforço "cultural" das elites que promoveram a ditadura militar feito para neutralizar os debates do projeto CPC da UNE, seja passada para trás pelo retorno ao mainstream da MPB mais autêntica, verdadeira, e que não se define como "lotadora de micaretas, rodeios e bailes funk".

Essas elites até minimizam o pavor, para não chocar. Dizem coisas do tipo "respeitamos o que vocês chamam de MPB autêntica", que apenas defendem o "inocente" espaço de seus ídolos, chegando a usar como pretexto a "diversidade". Justamente uma falsa "diversidade", que até pouco tempo atrás era conhecida como monocultura de ritmos popularescos.

Mas não adianta. Essas elites têm horror à cultura de verdade. Elas não conseguem esconder esse horror. Principalmente quando reagem furiosamente às nossas críticas a seus ídolos.

Essas elites temem que seja derrubado o mundo popularesco delas, construído por décadas através do jabaculê e do marketing, que rendeu fortunas com menos esforço e sobretudo com a mediocridade musical, que rendeu lobby até mesmo a cientistas sociais frustrados pela rotina acadêmica que viviam e que viram na defesa do popularesco um meio de aparecerem na mídia e ganharem mais dinheiro.

Por isso o horror fascista, meio porralouca, meio sádico, mas sempre inteiramente nervoso, de ver cair o establishment musical brasileiro de todo jeito. Horror de perder toda a fortuna acumulada pelo "jeitinho brasileiro" de degradar nossa cultura. Horror de ver um país mais inteligente que lhe escape ao seu domínio e controle.

Essas elites têm horror de um país mais democrático e forte, porque não é a "democracia" controlada e manipulada por eles.

"Curitibanização" dos ônibus mostra incoerência com o contexto atual


A "curitibanização" do sistema de ônibus em qualquer cidade do país revela uma grande incoerência em relação ao contexto atual da sociedade.

Por isso mesmo até prevejo que esse modelo de sistema de ônibus vai decair mais tempo ou menos tempo, só sendo aproveitadas algumas poucas vantagens. Com a máxima segurança, a padronização visual, por trajeto ou tipo de ônibus, está FORA dos aspectos aproveitáveis do sistema. Não é preciso ser doutor em engenharia para prever isso, aliás é aconselhável até não ser doutor em engenharia, mas veterano em vivência pessoal e prática como passageiro de ônibus.

Pois esse modelo "curitibano", que já aponta decadência tanto em Curitiba como em São Paulo - que só prevalece porque os ônibus, mesmo pouco funcionais, são bonitos - , cidades que fazem justamente o principal marketing desse modelo de sistema, mostra total incoerência com o contexto de sociedade em que vivemos.

Numa época em que se fala em enxugar e evitar a sobrecarga da estrutura do Estado brasileiro - seja nas esferas federal, estadual e municipal - , num país que atualmente quase não possui bancos estatais (aliás só tem a CAIXA - Caixa Econômica Federal - , porque o Banco do Brasil é de economia mista) e que assistiu a uma multiplicação de universidades particulares que rompeu com a antiga supremacia do ensino superior público, falar numa "Empresa Municipal de Transportes", dentro desse padrão "curitibano", é totalmente sem sentido.

ESTATAL "MASTODÔNTICA"

Pois, apesar dessa "empresa" se autodefinir como "mera fiscalizadora" do transporte coletivo, na prática se torna uma estatal de transportes. Politicamente, é uma estatal até bem mais "mastodôntica" do que as antigas empresas estatais que concorriam com as empresas particulares nas capitais brasileiras.

Pois é uma empresa estatal, vinculada à Secretaria de Transportes de um município, dotada de poderes para controlar as linhas de ônibus que, apesar de serem concessões públicas, não precisa ter essa estrutura "chinesa" da mão-de-ferro municipal. Dizem que os empresários de ônibus têm poder de decisão, e que o interesse é do passageiro, mas quanto ao primeiro isso é relativo, e quanto ao segundo, isso na prática não existe. Porque são decisões praticamente vindas "de cima" e somente quem é desinformado das coisas apoia tais decisões, porque na sua ignorância acaba tomando como "sua" as causas de engenheiros (tecnocratas), políticos e empresários. E fica defendendo com mãos-de-ferro essas causas em páginas de discussão na Internet.

A "Empresa Municipal de Transportes", qual nome ela tenha, controla as linhas de ônibus e decide até nas renovações de frotas. As empresas de ônibus particulares apenas participam no processo econômico e técnico, mas em compensação terão maior pressão nas prefeituras e, deixando de controlar as linhas de ônibus de forma autônoma, poderão por outro lado ter mais influência na pressão eleitoral.

A própria padronização visual não é mais do que uma propaganda dessa empresa estatal, que na prática operará em regime de economia mista, mas dentro de um padrão que denomino de "chinês", por causa do rigor político aliado aos investimentos da iniciativa privada.

Por isso mesmo isso torna-se incoerente, e vai fracassar, seja no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e outras cidades. Pois Florianópolis já acabou com a padronização visual faz tempo, as empresas aos poucos vão recuperando a personalidade visual e operacional.

Sei que não tenho o prestígio e o status dos tecnocratas do transporte coletivo, e minhas previsões serão vistas como "delírios". Mas eu tenho intuição e observação, e os fatos futuros comprovarão que minhas análises estarão certas.