quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Diploma de jornalista pode voltar a ser exigido


Pessoal, pode vir aí uma ótima notícia. Sim, NOTÍCIA, mesmo. E ÓTIMA. O diploma de jornalista pode voltar a ser exigido para profissão. Leiam esta nota que foi publicada originalmente pela Agência Brasil:

CCJ APROVA EMENDA QUE EXIGE DIPLOMA DE JORNALISTA

DISTRITO FEDERAL, Brasília - A Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) do Senado aprovou hoje (2) a proposta de emenda à Constituição (PEC) que exige o diploma de jornalista para o exercício da profissão. Ao restabelecer essa condição, o Congresso revê a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que acabou com a exigência do diploma.

A PEC conta com o apoio de 50 senadores e, agora, será votada em dois turnos pelo plenário. Se aprovada, a proposta vai à apreciação da Câmara dos Deputados. Pela matéria, a habilitação em jornalismo será facultativa para colaboradores e para os profissionais que já tenham registro no Ministério do Trabalho e do Emprego.

Defensores da música brega "idealizam" povo pobre


"É sempre assim: quando alguma manifestação cultural criada pela juventude pobre rompe as barreiras sociogeográficas e passa a aparecer com destaque em meios de comunicação, a primeira reação é de alarme, choque e desconfiança. Assim aconteceu com o punk paulistano no final da década de 70, assim também foi recebido o rap da periferia de São Paulo ali pelo meio da década de 80 e não é de se espantar que tenha voltado a ocorrer no final de 2000 com o funk carioca. Seus músicos e compositores vêm dos morros e favelas do Rio de Janeiro, seu público – que nas letras é caracterizado como composto por popozudas, tigrões, tchutchucas – é original também. Enquanto as músicas com batida monocórdica e refrões repetitivos ("tá dominado/tá tudo dominado") saíam de quase todas as rádios, TVs e barraquinhas de CDs piratas espalhadas pelas cidades brasileiras, uma onda de horror moralista seguiu-se à invasão do funk." (BIA ABRAMO (foto), jornalista que trabalhou na BIZZ e Folha de São Paulo, e que integra a Fundação Perseu Abramo, em cujo site foi publicado o texto "Cultura: O funk e a juventude pobre carioca
")


Não havia ainda o crescimento da campanha organizada pela mídia e pela intelectualidade a ela associada para perpetuar a música brega-popularesca, tipo de música comercial feita no Brasil cujo valor artístico é bastante duvidoso. Mas surgiram vozes querendo defender essa música comercial como se fosse "a verdadeira cultura popular", num discurso romantizado, por vezes agressivo, que emenda uma série de pretensas motivações, tudo para permitir a degradação cultural brasileira, sob o argumento de que "é isso que o povo sabe fazer".

Esse parágrafo acima é um texto da jornalista Bia Abramo defendendo o "funk carioca", além de fazer defesa explícita à axé-music e ao breganejo, estilos do establishment da mídia brasileira. No entanto, em sua retórica ela põe estes três estilos popularescos (associados claramente ao poder da grande mídia) no mesmo nível do punk rock e do hip hop, estilos que não possuem muito espaço na mídia. Foi publicado em 2001, um ano antes da "explosão apologista" da mídia, da intelectualidade e dos artistas ao universo brega-popularesco, em particular o "funk", cujo discurso apologista adotado por Bia Abramo viraria moda, estranhamente, após a morte de Tim Lopes, em 2002. Tim investigava o submundo funqueiro quando foi capturado por traficantes da Vila Cruzeiro (sub-bairro da região da Penha, no Rio de Janeiro).

Antes de Bia Abramo (também sobrinha de Cláudio Abramo, que integrou uma geração esquerdista de jornalistas nos anos 60), sabemos que, em Salvador, o sociólogo baiano Milton Moura já havia defendido os grupos de porno-pagode (diluição do samba de gafieira com apelos pornográficos, lançada pelo É O Tchan) em texto publicado em 1996 pela revista Textos de Cultura e Comunicação, produzido pela UFBA mediante um conselho editorial composto por professores e pesquisadores de várias universidades brasileiras.

Essa campanha adota um discurso engenhoso, um repertório retórico bastante sofisticado que compensa a baixa qualidade artística da música brega-popularesca. Com a frequência e um engajamento comparáveis aos antigos IBAD/IPES ("institutos" fundados por empresários para promover o ideal neoliberal brasileiro sob uma retórica ora panfletária, ora "científica"), essa retórica, apesar de muito habilidosa, se baseia nas ideias principais de defesa do brega-popularesco:

1. Que a rejeição à hegemonia da música brega-popularesca é fruto de "preconceito", quando os ídolos envolvidos ainda não haviam atingido o sucesso desejado.

2. Que a rejeição à hegemonia da música brega-popularesca é fruto de "inveja", quando os ídolos envolvidos já conquistaram o sucesso hegemônico.

3. Que o universo brega-popularesco é a "verdadeira cultura popular" do povo pobre e a baixa qualidade artística é na verdade resultante da formação cultural desse povo.

Apesar de engenhoso, persuasivo, e por vezes agressivo, paranóico e chantagista - quem critica o brega-popularesco é logo tido como "elitista", "burocrata" e outros adjetivos pejorativos - , esse repertório discursivo aponta muitas falhas.

A maior delas é essa: por que, em outros tempos, numa época com menos acesso às informações, tínhamos grandes artistas como Ataulfo Alves, João do Vale, Cornélio Pires, Donga, Noel Rosa, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, e o repertório que eles produziram era associado à verdadeira canção popular, sem academicismos, enquanto hoje a mesma coisa que esses artistas fizeram outrora não corresponde mais à música popular contemporânea? Por que hoje um favelado que faça uma música do nível de Ataulfo Alves agora é classificado como "elitista", "pobre de alma burguesa", "burocrático", "normatista" e até, numa ironia paternalista, "sofisticado"?

A situação se agrava quando as pessoas hoje têm mais acesso a informações do que há 70 anos atrás, quando a nossa rica canção brasileira florescia nas rádios e ganhava divulgação nacional. Não há como não reconhecer a péssima qualidade de grupos recentes ditos de "samba" que se limitam a fazer uma cópia fajuta de soul music com batidas e instrumentos de samba, e que tais músicos não sabem a diferença entre maxixe e gafieira. Será que tal discernimento só é possível para formandos das Faculdades de Música?

Além disso, disfarçar essa mediocridade chamando alguns medalhões do brega e do neo-brega para gravar covers de MPB autêntica não ajuda em coisa alguma no enobrecimento deles e, pelo contrário, só os faz nivelar a incompetentes calouros de TV que não possuem repertório próprio e fazem interpretações forçadamente pomposas.

Só para citar as contradições e os equívocos dos defensores do brega-popularesco, daria um grande livro de ensaios. Mas o que podemos analisar é que, por trás disso, essa defesa esconde um sentimento paternalista em relação ao povo pobre, e mesmo a ideia vaga do que é povo e do que está por trás da indústria cultural brasileira.

Afinal, não podemos ser ingênuos e aceitar que as armadilhas da música comercial só existem nos EUA e que no Brasil tudo é "transparente". Primeiro, porque um universo musical que, durante muitos e muitos anos, se alimentou de todo um esquema de jabaculê, espécie de "mensalão" do entretenimento, não pode agora dizer que nunca fez jabaculê, que é a "verdadeira cultura brasileira", que não teve apoio de mídia etc. Isso é cuspir no prato em que comeram.

Primeiro, porque o paternalismo dos defensores do brega-popularesco se torna mais grave do que aquele paternalismo à cultura popular que a MPB cepecista (dos CPC's da UNE e dos festivais da canção) era acusada de exercer. Pois o "paternalismo" dos cepecistas e seus discípulos nos anos 60 respeitava a integridade cultural do povo, enquanto o paternalismo não-assumido dos defensores do brega-popularesco de hoje fala até em desprezar a estética, a ética, a questão da alienação ou do barbarismo cultural desmoderado e indefeso (da parte dos brasileiros).

Isso porque, por trás das alegações desses defensores de que "não se devem determinar normas para a cultura do povo", há uma satisfação cínica em relação à "cultura popular que aí está", e um desconhecimento ou desprezo de todo um histórico de controle social que propiciou a ascensão da música brega-popularesca. Afinal, não há como dizer que foi "obra do acaso" o declínio qualitativo de sambas, modas de viola, baiões, maxixes, frevos para ritmos confusos e esquizofrênicos que reproduzem de forma subordinada e não-criativa tendências estrangeiras banalizadas e, mesmo assim, de forma bastante caricata e estereotipada. Cair do Luiz Gonzaga para o Calcinha Preta, e do Jackson do Pandeiro para o É O Tchan, é um problema que não podemos jamais ignorar em sua gravidade.

Mas aí surgem intelectuais que falam em "antropofagia", como se o fã de Calcinha Preta estivesse por dentro da obra e vida de Oswald de Andrade. Os intelectuais então lançam toda uma idealização do povo - ente que eles não conhecem bem, pois continuam julgando o povo através de seus preconceitos de classe média alta - , atribuindo sabedoria onde ela não existe, tanto para disfarçar o controle social da mídia por trás da cafonice cultural dominante quanto para iludir o povo pobre, que acaba acreditando que não precisa de Educação nem de assistência social para se progredirem, porque são supostamente dotados de uma "inteligência pronta".

Atribuindo uma suposta "inteligência" para os pobres, os defensores do brega-popularesco acabam se livrando da missão de lutar pelo progresso do povo. Se "o povo é inteligente, nada podemos fazer, não é mais necessário", acabam dizendo eles numa mensagem subliminar.

Assim, é legal, para eles, atribuir um "feminismo" nas funqueiras cariocas e pagodeiras baianas, elas mesmas manipuladas num contexto social machista. É legal, para eles, atribuir como "naturais" estereótipos de um povo pobre infantilizado, patético, conformista, tolo, medíocre. é legal, para eles, atribuir como "boa" a música insuportável que o povo é induzido a produzir, manipulado pela mídia gorda, pelo poder político e econômico desde a ditadura militar, e, no interior do país, até antes do golpe de 1964.

Eles até falam mal do "paternalismo", vejam só que cinismo. Eles julgam o povo com sua visão etnocêntrica, de ver o povo como um "bom selvagem", como "monstrinhos domesticados", rebolando feito macaquinhos de realejo, indiferentes a seus problemas econômicos, problemas de moradia, saúde, segurança etc, e falam mal do "etnocentrismo" e do "paternalismo" que atribuem aos outros, tal um político corrupto quando chama seu rival de "corrupto".

Mas dá para perceber a natureza do problema. Enquanto o povo rebola o "tchan" e o "créu", esses intelectuais e outros defensores ficam felizes. "É a vitória da cidadania da periferia", dizem, demagogicamente. Mas, quando há o outro lado da questão, com favelados tomando uma rodovia porque um menino da comunidade morreu atropelado porque, na falta de passarela, ele atravessou a estrada para pegar uma bola, aí esses intelectuais, assustados, deixam a máscara cair.

Aí aquela "solidariedade" que os defensores do brega-popularesco tanto exerciam se converte numa condenação moralista. "São uns arruaceiros, uns desordeiros", dizem eles diante da pacífica passeata dos favelados, mais pelo horror dos pneus em chamas e pelo horror do engarrafamento causado. Claro, aí o povo não dança o "tchan", nem o "créu", nem o forró-calcinha, e nem mesmo os sambregas e breganejos de sorrisos arreganhados.

Porque aí entra o mundo pobre que os intelectuais de classe média e sua "comitiva" de artistas, políticos e figurões da mídia e do entretenimento não gostam. Deslizamento de terra não aparece no "créu", não dá as caras (nem a quem acontece) nas músicas "engajadas" do "funk de raiz" (mais preocupado em expulsar a polícia dos morros do que condenar maus policiais). Enchentes na Baixada Fluminense, mau atendimento na rede de atendimento à saúde, mau ensino nas escolas de um lado e alunos violentos de outro. Isso a intelectualidade que defende o brega-popularesco só se limita a dizer "tsc tsc, que pena" e fica por aí.

O povo é idealizado como "bobo alegre", "bom selvagem" e outros termos. Mas também a intelectualidade não sabe mais o que é "povo" nesse mundo brega-popularesco. As dançarinas classe-média do É O Tchan também são "gente da periferia"? O breganejo bonitão com sua fazenda de gado também é "o pobre homem do campo"? O axezeiro milionário também veio da "vida nas ruas"? O pagodeiro que troca doze paletós numa única apresentação é "pobre homem das favelas"?

Não, essa "intelligentzia" não sabe o que é povo. Defendem a "cultura de sucesso que aí está" para ficar de bem com a moda e de bem com a mídia. Querem apenas viver suas vidas de classe média alta em condomínios de luxo, nos seus confortos garantidos pelos diplomas acadêmicos, obtidos menos por suor do que pela camaradagem docente, e querem se passar por bonzinhos diante de um povo que, mais do que sofrer misérias, descasos e tragédias, sofre também sua crise de valores sociais, morais e culturais, e isso não exclui a música.