segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Chacrinha foi melhor nos anos 50-60


FASE ABORDADA PELO DOCUMENTÁRIO 'ALÔ ALÔ TEREZINHA' É APENAS UMA SOMBRA DO QUE O CHACRINHA FOI EM SUA CARREIRA. A MELHOR FASE DO VELHO GUERREIRO FOI DURANTE AS DÉCADAS DE 50 E 60.

O documentário Alô Alô Terezinha, de Nelson Hoineff, embora seja dedicado a um grande comunicador que até o estudioso Muniz Sodré (ver A Comunicação do Grotesco, Petrópolis: Vozes, 1972) não considera grotesco, segue a tendência dos documentários que visam promover a cultura brega como um "novo" (?!) fenômeno de mídia. Isso porque o documentário se concentra numa fase não muito boa do apresentador, nos anos 70 e 80, que envolveu passagem pela Rede Globo e outras redes de televisão.

Chega a ser até um tanto hipócrita que imagens do programa Cassino do Chacrinha, que a Rede Globo transmitiu até a morte do apresentador, em 1988, apareçam em preto e branco, como se fossem mais antigas do que realmente são, de meados dos anos 80.

Nessa fase, o programa, apesar de ser apresentado por uma figura de carisma e talento inegáveis que foi o Abelardo Barbosa, não mostra o apresentador na sua melhor fase. Nos anos 80, Cassino do Chacrinha representava o comercialismo televisivo, o culto implícito ao grotesco que Chacrinha outrora parecia se opor. Por trás de tudo isso está o filho do apresentador, o empresário e também apresentador Leleco Barbosa, que então dirigiu o programa do pai e, segundo o jornalista Ricardo Alexandre, atuava como um verdadeiro chefe do esquema.

Quem leu Dias de Luta (São Paulo: Art Books, 2002), livro de Ricardo Alexandre, sabe, por exemplo, o constrangimento que a extinta banda Ira! passou nos bastidores do programa, num especial de Natal.

Chacrinha, que começou no rádio, nos anos 40, trabalhando na Rádio Clube de Pernambuco e na Rádio Fluminense AM, esta de Niterói, começou sua carreira televisiva em 1957.

O programa que Chacrinha lançou, misto de apresentação de calouros com divulgação de artistas de sucesso, foi bastante inovador na sua linguagem. A hilária roupa de Chacrinha - que, no começo da carreira televisiva, aparecia com cabelo curto e bigode fininho, quase à maneira do Zé Trindade - , com um grande adereço que ora imitava um relógio antigo, ora um disco de telefone, já era um detalhe à parte na linguagem inovadora.

A imagem cult de Chacrinha veio na década de 60, mais precisamente por volta de 1967. Era o prestígio alcançado ao longo desses primeiros dez anos de programa, e os músicos tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil passaram a fazer propaganda do apresentador e seu programa, tanto que em 1969 o hoje ex-ministro da Cultura do governo Lula citou o apresentador na música "Aquele Abraço".

As dançarinas dos programas do Chacrinha, nos anos 50-60, nada tinham de cafona. Tinham aquela beleza gostosa e aquela sensualidade suave das mulheres da época, e isso também foi um ingrediente a mais para tornar o programa atraente, além de divertido e criativo.

CAFONICE VEIO NA DÉCADA DE 70 - No entanto, com o endurecimento da ditadura militar, por outro lado a mídia tentou uma forma de "refrescar" o astral do povo pobre nesses anos de chumbo. A ascensão da cafonice cultural foi a arma certeira das elites da grande mídia para manter o povo submisso e conformado através de valores "culturais" onde o pitoresco, o grotesco, o piegas e o ridículo sejam evocados.

Isso dominou praticamente todos os programas de auditório, que se tornaram principais pólos de divulgação dos ídolos bregas (cuja falsa imagem cult se resulta de uma interpretação errada da adesão humorística de performáticos paulistas dos anos 70-80). Raul Gil, Sílvio Santos, Edson Bolinha Curi (que surgiu como substituto de Chacrinha e ganhou programa próprio), todos eles acabaram divulgando ídolos bregas, o que desmente o mito da discriminação da grande mídia que os defensores do brega-popularesco atribuem aos ídolos cafonas.

A ideologia cafona acabou tomando conta dos programas de Chacrinha depois de 1972 - quando foi lançado o livro de Muniz Sodré, A Comunicação do Grotesco, em que o autor definia o estilo do apresentador como uma crítica ao grotesco. O sucesso dos calouros reprovados pela buzina apertada pelo apresentador fez cada vez mais aumentar o grau de grotesco dos mesmos, e em contrapartida o estado de espírito brega tomou conta do universo da população pobre. A essas alturas Chacrinha passaria a viver dos louros do passado, apesar de surgir como referencial para as gerações mais jovens.

Até as dançarinas foram afetadas. A partir dos anos 70, as dançarinas do Chacrinha passaram a ser em maioria aquelas mulheres de beleza enjoada, típicas do universo popularesco. Sem muita ternura, sem muito charme. O símbolo delas foi uma das primeiras musas boazudas do país, Rita Cadillac (a essas alturas o Cadillac, antigo carrão da General Motors, ou era artigo de colecionador ou de ferro-velho), espécie de ancestral das mulheres-frutas e dançarinas de pagode.

Por isso mesmo, o documentário de Nelson Hoineff praticamente não mostra a melhor fase do Velho Guerreiro, se concentrando apenas naquela fase que, apesar de ter mais vestígios que a fase áurea (da qual se perderam quase todos os registros e parte dela era anterior à época do vídeoteipe), é considerada uma fase menor do apresentador. Mesmo com os bons momentos dos grupos Rock Nacional fazendo mímica (playback) no programa, na década de 80.

O documentário, a princípio, é bom para quem viveu esta época na infância dos anos 80. Mas, numa observação mais cautelosa, é uma fase que deveria ser apreciada não com nostalgia, mas com memória crítica. O universo brega abordado pelo documentário mostra o quanto a ideologia cafona é entediante, cansativa e enjoada.

Jornal denuncia corrupção na UNE


Os tempos são outros. No dia em que escrevi o texto sobre uma antiga atividade da União Nacional dos Estudantes no período 1961-1964, o Estadão publicou uma denúncia de corrupção na entidade que, hoje, não é a sombra do que era antes e havia se transformado, nos anos 90, de "fábrica de carteirinhas", com dirigentes arrogantes, esnobes e coisa e tal.

E tem até caso de empresa fantasma sediada em Salvador, que é coisa que O "jornalista" Mário Kertèsz da Rádio Metrópole FM (que talvez tenha a cara de pau de denunciar este caso) entende muito bem. Ele criou DUAS empresas fantasmas quando era prefeito da capital baiana para incrementar sua fortuna pessoal e isso foi a origem da "honesta" e "informativa" rádio de Salvador.


UNE É SUSPEITA DE FRAUDAR CONVÊNIOS COM MINISTÉRIO

LEANDRO COLON - Agencia Estado
BRASÍLIA - Aliada do governo, a União Nacional dos Estudantes (UNE) fraudou convênios, forjou orçamentos e não prestou contas de recursos públicos recebidos nos últimos dois anos. A entidade chegou a apresentar documentos de uma empresa de segurança fantasma, com sede na Bahia, para conseguir aprovar um patrocínio para o encontro nacional em Brasília.

Dados do Ministério da Cultura revelam que pelo menos nove convênios celebrados com a UNE, totalizando R$ 2,9 milhões, estão em situação irregular - a organização estudantil toma dinheiro público, mas não diz nem quanto gastou nem como gastou.

O jornal O Estado de S.Paulo analisou dois convênios com prazo de prestação de contas expirado no ministério: o Congresso Nacional da UNE, realizado em julho, em Brasília, e o projeto Sempre Jovem e Sexagenária, celebrado em 2008, que tinha como meta produzir - até 4 de junho - 10 mil livros e um documentário sobre a história estudantil secundarista. O presidente da entidade, Augusto Chagas, de 27 anos, promete devolver o dinheiro, se forem comprovadas irregularidades.

Apesar de o governo ter repassado R$ 826 mil para os projetos, a entidade, mesmo cobrada, não entrega extratos bancários e notas fiscais, nem cumpre a "execução dos objetivos", os livros e o documentário. Sobre os livros, uma cláusula do contrato diz que a UNE teria 60 dias para prestar contas, a partir de junho, ou restituir em 30 dias as verbas não usadas. Não fez nem uma coisa nem outra.

Empresa fantasma

A UNE forjou orçamentos para obter dinheiro para o encontro em Brasília. Em 16 de julho, o ministério liberou R$ 342 mil para o evento, que teve a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). A entidade apresentou estimativa de gasto de R$ 70 mil com hospedagem, R$ 29 mil para segurança, R$ 26 mil em passagens aéreas, entre outros. O ministério cobrou três orçamentos.

Para explicar a despesa com segurança, a UNE entregou o orçamento de empresa fantasma, com sede em Salvador, a 1.400 quilômetros do evento. O outro orçamento também é de uma empresa baiana, que ocupa uma sala de 30 metros quadrados e não tem funcionários. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.