quarta-feira, 11 de novembro de 2009

MARECHAL HENRIQUE LOTT E SEU "GOLPE" PELA LEGALIDADE


O militar Henrique Batista Duffles Teixeira Lott (1894-1984) tornou-se uma figura injustiçada. Oficial do Exército Brasileiro, ele no entanto tinha uma vocação democrática e legalista. Ideologicamente, era moderado, tendo inclinações nacionalistas mas dentro do rigor da lei e do equilíbrio democrático.

Ele se destacou em 1955, quando outro clima de tensões havia emergido um ano após as turbulências de 1954 - atentado contra Lacerda e suicídio de Vargas - , desta vez no enterro do general Canrobert Pereira da Costa, opositor ao varguismo. No funeral, outro general, Jurandir Bizarria Mamede, fez um discurso violento que entusiasmou seus adeptos mas irritou outros presentes, dentre eles o general Henrique Lott.

Nesta época, Juscelino Kubitschek havia vencido a campanha para a Presidência da República, derrotando Juarez Távora, Eduardo Gomes (então único sobrevivente da revolta dos 18 do Forte e cuja posição de brigadeiro da Aeronáutica inspirou até o batismo de um delicioso doce de chocolate) e Adhemar de Barros.

Juscelino, em si, não causava revolta na classe política conservadora. O problema estava no vice de sua chapa, o herdeiro do varguismo, João Goulart. Nesta época havia eleições em separado para vice-presidente e Jango teve até mais votos como vice do que Juscelino no cargo titular. Aí os opositores da chapa tentaram alegar que Juscelino não venceu com maioria absoluta e coisa e tal.

Nessa época, Café Filho, que era vice de Vargas e assumiu a Presidência com o suicídio do estadista gaúcho, se licenciou do mandato alegando estar doente. Não esclareceu realmente que doença tinha, mas em todo caso entrou no seu lugar o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz.

Carlos Luz então armou um golpe com Lacerda e Jânio Quadros, este governador de São Paulo, que incluiu tropas militares e navios para impedir que Juscelino seja empossado. Seria feito um golpe para que os opositores da vitória de JK - associado ao varguismo, por conta de seu vice - tomassem o poder.

Mas Lott, aconselhado por um outro general, decidiu armar um contragolpe, para destituir Carlos Luz e colocar no seu lugar o presidente do Senado, o catarinense Nereu Ramos. Lott mandou suas tropas para a sede do Governo Federal e mandou outros militares para, em seus navios, impedirem a ação dos golpistas. Foi em 11 de novembro de 1955, e o contragolpe garantiu a posse de Juscelino e Jango para janeiro de 1956. No ínterim, Nereu Ramos foi o presidente da República em exercício.

A CAMPANHA PRESIDENCIAL DE 1960

Mas, em 1960, parece que o povo passou a querer o espetáculo, bem acima dos grandes projetos. A oposição havia atacado Juscelino por achar a construção de Brasília inútil - mas o tempo provou o contrário, pois no aspecto geopolítico, Brasília é melhor capital para o país do que Rio de Janeiro - e JK, apesar de ter inaugurado a nova capital no prazo do seu mandato, não conseguiu eleger o candidato que ele apoiava, o já marechal Lott, com Jango como vice, mais uma vez.

Lott nem havia apoiado Juscelino em 1955, mas Juarez Távora, outro militar do Exército. Mas a defesa da legalidade e a garantia de posse de JK aproximou os dois. Lott foi um patriota e defendia, entre outras coisas, a educação pública como prioridade, mas seu jeito disciplinado era insosso para quem começava a ser educado pelo espetáculo sensacionalista, através de rádios (a TV era ainda incipiente). Não por acaso, os primeiros ídolos cafonas eram lançados sob as bênçãos dos latifundiários, no primeiro esforço das oligarquias em controlar culturalmente o povo.

Por isso Lott ficou em desvantagem com Jânio, um político um tanto esquizofrênico, que misturava trejeitos populistas com moralismo ultra-conservador e um estranho fascínio pelas nações comunistas (Jânio pôs no seu gabinete uma foto do presidente da Iugoslávia Jozip Broz Tito e condecorou o guerrilheiro Che Guevara, co-autor da Revolução Cubana). Tinha uma aparência que lembrava os cômicos Irmãos Marx, falava de forma rebuscada (o anedotário popular, de gozação, parodiou Jânio com a frase "fi-lo porque qui-lo") e dizia que usaria a vassoura para moralizar o país e tirar toda a sujeira da política anterior.

Com isso, Jânio Quadros, entre demagogo e cômico, acabou sendo eleito. Foi mal para o país. Jânio só governou sete meses, no ano de 1961. Criou uma instabilidade política a partir do rompimento de Carlos Lacerda com Jânio, que o jornalista e governador da Guanabara apoiou. A direita não queria que Jango tomasse o poder, armaram um governo parlamentarista tosco, depois retomaram o presidencialismo, mas derrubaram Jango com um golpe e uma ditadura que nos trouxe a impunidade, a corrupção, o arrocho salarial, a "cultura" brega, a tecnocracia, agravou as desigualdades sociais e comprometeu a evolução democrática do país.

Se o marechal Lott fosse eleito no lugar de Jânio, Jango seria moderado pelo legalismo do militar, que implantaria um projeto político, social e econômico mais desenvolvimentista, mas mantendo os princípios democráticos e contribuindo para o progresso real do país. O Brasil não teria passado pela ditadura militar, teria alcançado mais cedo o posto de nação emergente e sua cultura não sucumbiria pela breguice dominante.

Agora temos que reparar os estragos causados a partir da eleição de Jânio. A sujeira continua, e ainda há quem se ofenda quando alguém tenta reparar cada sujeira incômoda.

HÁ UM ANO, DEIXEI SALVADOR


Há um ano , no dia 10 de novembro de 2008, deixei de morar em Salvador, capital da Bahia. Foi um dia especial, porque depois de 18 anos, eu voltaria a viver em Niterói, cidade de criação.

Salvador é uma cidade linda e tem sua história notável, como primeira capital do país. Mas, infelizmente, a cidade sucumbiu, desde o século XVII, ao provincianismo que foi agravado por movimentos coronelistas que dominaram a Bahia, dos antigos latifundiários até o falecido senador Antônio Carlos Magalhães. Isso fez Salvador mergulhar num atraso estarrecedor, criando uma aristocracia burra e viciada e um povo submisso e emburrecido pela miséria e pela instrução quase nula, o que fez a cidade ser desagradável para eu viver.

Foi uma pena. Tentei me adaptar a Salvador, cidade da família do meu pai, e não deu. Quando meus pais decidiram voltar para Niterói, fiquei entusiasmado. Nos preparamos para a mudança em 2008, embora desde 2007 eu tinha feito vários passeios de despedida em Salvador.

Arrumamos as embalagens para a mudança, que foi por caminhão, enquanto eu e minha família nos hospedamos na casa de uma tia minha até ela nos levar para o Aeroporto, pegar um avião para o Rio de Janeiro, mas com escala em São Paulo. Foi emocionante o último dia em Salvador porque havia esperança de mudança de vida, não aguentávamos mais tanto provincianismo que impedia até eu de ter emprego. Ou eu trabalhava em empresa em falência (emprego inseguro), ou trabalhava em empresa em implantação (também emprego inseguro). E, como jornalista, só poderia trabalhar em rádio corrupta.

Por isso mesmo, foi bom ter saído de Salvador. A cidade, de tão provinciana, foi passada para trás por duas mega-potências do Nordeste, Recife e Fortaleza. Muita gente não gosta de ouvir isso, acha que Salvador continua sendo a "capital do mundo", mas a realidade é esta mesmo. Não sou eu que falo isso, é a aristocracia política, cultural e midiática que faz para a capital baiana permanecer neste lodo que a prejudica.

Niterói, apesar de ser uma cidade pequena, tem a vantagem de ser vizinha ao Rio de Janeiro, o que influi na sua estrutura urbana. É uma cidade com infraestrutura boa, e pelo fato de eu ter me criado nesta cidade e ter nela vivido durante anos, estou acostumado com esta vida. A cidade tem problemas, mas nada que a faça mergulhar num bairrismo viciado, preguiçoso e míope. A aristocracia niteroiense pelo menos não é burra nem esnobe. E aqui tem mais variedade de comércio, só o bairro de Icaraí parece uma cidade à parte, pelo menos tenta competir com Copacabana, senão de igual com igual, pelo menos de uma forma digna, mesmo com o bairro carioca em vantagem.


Eu voltei a me acostumar com a rotina de Niterói. Muita coisa mudou de 1990, quando saí de Niterói, e 2008, quando voltei. Ironicamente, moro no mesmo condomínio de onde saí em 1990. E muitas coisas boas tive, como em vários passeios no Rio, indo até para o Centro Cultural Banco do Brasil. Aqui no Grande Rio a vida é mais movimentada. Em Salvador, infelizmente, eu me sentia deslocado.

Por isso mesmo foi bom sair de Salvador, não por detestar a cidade, que é muito bonita. Coloquei a foto da Rua Cassilandro Barbuda, no Costa Azul, onde ficava minha última residência na capital baiana (segundo prédio, do lado esquerdo da rua), no alto deste texto, por lembrança triste mas carinhosa. A foto é extraída do portal Skyscrapercity. Já as outras fotos, que mostram a Rua Dr. Mário Viana, no final de linha de Santa Rosa, em Niterói, eu tirei perto de casa.

Me sinto meio um filho pródigo que se aventurou noutra cidade e voltou à anterior cheio de esperanças.