quarta-feira, 4 de novembro de 2009

QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO


Os "líderes de opinião" foram os primeiros a aplaudir a falácia do historiador Paulo César Araújo, de que os ídolos bregas dos anos 70 eram "injustiçados" só porque foram censurados.

Com uma abordagem típica de um moleque produzindo teorias conspiratórias delirantes, Paulo César Araújo preparou o seu livro Eu Não Sou Cachorro Não no auge da Era FHC, mas lançado no declínio deste ciclo político, às vésperas do "apagão". A Era FHC, que do mesmo modo da Era Collor e da ditadura militar, formatou o mercado brega-popularesco brasileiro, precisava de ideólogos que pudessem dar um verniz "social", "militante" e "cultural" para ídolos popularescos ameaçados pelo seu natural desgaste.

Por isso vieram nomes como Paulo César Araújo e Hermano Vianna, com um discurso habilidoso que mais parece conversa de pescador. Como vendedores que vão de casa em casa falando de supostos milagres de seus produtos, eles defenderam os ídolos popularescos do passado e do presente como se fossem a "verdadeira cultura popular". Um discurso que tenta ser sutil e, quando não consegue convencer, se torna agressivo e "revanchista".

Tentei ler Eu Não Sou Cachorro Não e não consegui, de tantos absurdos que o livro apresenta. PC Araújo perde o tempo todo tentando provar que a canção que dá título ao livro, que foi um sucesso de Waldick Soriano, era uma "canção de protesto". Ele não trabalha com dados objetivos, mas com sentidos supostamente ocultos da canção de Waldick, uma reles canção de corno, da pior espécie, e que no entanto o autor do livro tenta a todo custo creditar como "canção de protesto".

Mas o discurso de PC Araújo, apesar de discutível, convenceu muita gente que, recentemente, até uma blogueira radialista se comoveu com o livro. Foi uma história bem contada, uma típica história de pescador que, de meia-verdade em meia-verdade, produz uma mentira convincente. Os "líderes de opinião" elogiaram PC Araújo, que também foi cortejado pela "mídia gordinha".

No entanto, nós aqui deste blog sabemos que o que Araújo escreveu não é verdade. O sentido de "protesto" da música de Waldick foi apenas um uso não-informal de alguns fãs, quase que um uso humorístico, satírico, que não faz a música virar uma canção de protesto de fato.

Também a censura não dá aos ídolos cafonas, como Waldick e Odair José, qualquer status de "vítimas da ditadura". Até porque a censura não envolveu letras de conteúdo político, mas de conteúdo pornográfico, que politicamente não ameaçavam o regime militar. E a censura de "Torturas de Amor", sucesso de Waldick de 1960, teve o sentido tão absurdo quanto a censura de uma peça de Sófocles citada por Sérgio Porto no seu FEBEAPÁ 1.

Por outro lado, as rádios que mais apoiaram a ditadura militar tocavam com gosto, e muito gosto, a música dos ídolos cafonas, todos eles. E vale lembrar que, do contrário da visão etnocêntrica flumi-paulista dos historiadores brasileiros, a Bossa Nova e mesmo os ritmos brasileiros autênticos tinham menos acesso às rádios do interior do país.