quarta-feira, 14 de outubro de 2009

"FUNK" REPRESENTA DIVÓRCIO ENTRE DISCURSO E REALIDADE



O "funk carioca" será marcado para a posteridade como um ritmo de qualidade duvidosa que usou e abusou de todo tipo de discurso publicitário. Todas as apologias, todas as alegações, todas as desculpas, tudo foi feito para transformar o ritmo no terceiro império mercadológico da Música de Cabresto Brasileira, depois da axé-music e do "sertanejo".

O "funk" tem como caraterística maior o grande contraste que tem o discurso em defesa do ritmo com a realidade de sua "música" e dos espetáculos em casas noturnas de subúrbio, através dos chamados "bailes funk". Teoricamente, o "funk" parece algo maravilhoso e fascinante, a princípio estimulando curiosidade entre os leigos. Na prática, porém, ele é constrangedor e horrendo, chegando ao ponto do repugnante.

De um lado, todo o repertório discursivo de defesa do "funk carioca", que apela para todo tipo de apologia e comparação, da Semana de Arte Moderna ao punk rock, passando pela Revolta de Canudos ou pelos Anos Dourados do Rio de Janeiro de 1958. Todo mundo caprichando para dar uma falsa ideia de que o "funk" é "uma coisa linda", como se houvesse poesia, lirismo, musicalidade, decência e inocência no ritmo carioca. Reforçando esse arsenal retórico, os defensores do "funk carioca" fazem outras apelações, desde a trivial acusação de "preconceito" aos que rejeitam o ritmo, até mesmo a mobilização política para transformar o "funk" num suposto patrimônio cultural.

De outro lado, vemos a realidade nua e crua do "funk carioca". Essa realidade toda a retórica melíflua tenta esconder ou fazer vista grossa, mas não consegue. Musicalmente, o "funk" é RUIM de doer. Pouco importa se é "de raiz", "comercial" ou "proibidão", é praticamente tudo igual, é um(a) MC vociferando uma letra, com o andamento que parodia uma cantiga de roda, e uma batida eletrônica. Nenhuma criatividade, nenhuma brasilidade, nenhum valor artístico. Junto a isso, toda uma "coreografia" brutal de traseiros empinados, que poucos perceberam ser EXPLICITAMENTE inspirada na abominável "dança da boquinha da garrafa" que horrorizava os mesmos intelectualóides que hoje louvam o "funk carioca".

IDEIA DE "PRECONCEITO" DOS FUNQUEIROS É MENTIROSA

A ideia de que quem rejeita o "funk carioca" é preconceituoso é de uma mentira cavalar, o que mostra que os defensores do ritmo não estão preocupados necessariamente com abordagens concebidas ou pré-concebidas. O que eles querem é apenas que todo mundo apoie o ritmo deles.

Segundo o dicionário Houaiss, um dos mais conceituados do Brasil (chega a ser melhor que o Aurélio), preconceito é "julgamento ou opinião concebida previamente; opinião formada sem fundamento justo ou conhecimento suficiente" (grifo meu).

Certamente, não é o caso de quem rejeita o "funk", porque quem rejeita o ritmo é porque teve contato indiretamente com seu universo, até demais. A vizinhança toca "funk carioca" em alto volume. O cidadão vai para a rua e os camelôs tocam "funk", os playboys com seus carrões tocam "funk", o rádio dos bares toca "funk".

Se dá uma zapeada na televisão e aparecem uns idiotas cercados de moças calipígias e perfil jeca rebolando a "dança da boquinha da garrafa" reciclada na "coreografia" funqueira. Algo bem mais patético do que naquele filme Namorada do Aluguel (quando o hoje galã de Grey's Anatomy, Patrick Dempsey, era um nerd que subornou uma linda garota para ser namorada dele), em que a "dança do tamanduá africano" havia sido usada pelo protagonista para ser a coreografia do baile estudantil, transformada depois em modismo. Pelo menos a coreografia se baseou num ritmo folclórico autêntico, o que não é o caso da "dança da boquinha da garrafa" nem de sua similar dança sob o rótulo funqueiro.

Para perceber o quanto os adeptos, empresários e dirigentes do "funk" não estão aí para ideias concebidas ou pré-concebidas (se bem que essa ideia de "preconceito", de tão discutível, não é levada a sério por gente como Millôr Fernandes), vamos citar o seguinte caso.

Digamos que um sujeito nunca ouviu falar de "funk carioca". Ao ler um jornal, com reportagem elogiosa ao ritmo, esse sujeito fica logo deslumbrado. Ele aí telefona para uma entidade funqueira - pode ser a Furacão 2000, ou a APAFUNK, ou mesmo qualquer um que milite a favor do ritmo - e diz, sem ter ouvido sequer algo do "funk", que o ritmo é maravilhoso, que sua história é linda, que tudo é decência, tudo é cidadania, tudo é poesia e amor no "funk". Imagine então se esse carinha coloca todas essas impressões no seu blog.

Certamente os defensores do "funk" vão ficar tranquilos. O cara nunca ouviu um sucesso funqueiro na vida mas elogia o ritmo. Fez o que os defensores do "funk" tanto queriam. E mais: esses defensores vão dizer, na maior CARA-DE-PAU, que o cara "rompeu os limites do preconceito". O que é uma mentira, porque foi o preconceito, no sentido houaissiano, que fez esse sujeito elogiar o "funk".

Por outro lado, se perguntarem para quem odeia "funk" o porquê disso, boa parte destas pessoas terá muitos motivos e uma justificativa consistente para contestá-lo. Isso não é preconceito.

Disco Music não é música sofisticada


Studio 54, casa noturna de Nova Iorque que, fundada em 1977, tornou-se reduto da disco music na época

Depois de ridicularizada pelos roqueiros oitentistas, o pop dançante dos anos 70 passa a ser superestimado, tido exageradamente como “música de alto requinte”

“A Disco music não é a melhor música do mundo”. Essa frase, nos anos 80, seria um quase consenso. No entanto, hoje em dia ela pode causar polêmicas intermináveis. Isso por causa de um dos fatores sintomáticos dos anos 90, que foi a superestimação do gênero.

A disco music foi a dance music da década de 70. Seu surgimento foi até bem intencionado, pois eram intérpretes de soul music da fase 1972-1973, como Harold Melvin, Barry White e o som da Philadelphia, nos EUA, que lançaram músicas mais ritmadas.

A origem do fenômeno é discutida por muitos. A maioria das versões credita a “Rock the Boat”, do Hues Corporation, como o marco zero da música da “discoteca”. A canção é de 1972. A partir daí, a música disco seria um sucesso, primeiro nos EUA e Europa, até atingir repercussão mundial a partir de 1976.

Em 1976, o movimento punk veio como uma reação ao otimismo que os países do Primeiro Mundo viviam desde o fim do movimento hippie. Segundo os punks, esse otimismo não era mais do que uma mentira. A popularidade da disco, por isso, era grande, mas tinha que se sustentar por outros países que ainda não haviam vivido a explosão punk.

No Brasil, a disco music foi difundida pela novela Dancin’ Days da Rede Globo de Televisão e pela Rádio Cidade do Rio de Janeiro. A partir de abordagens duvidosas da mídia hit-parade dos EUA, surgiu até uma discussão boba indagando se a disco music era ou não uma subdivisão do rock. Claro que não era, a disco apenas fascinou nomes como Rolling Stones e Kiss, entre outros, e no Brasil Rita Lee, Guilherme Arantes e Gilberto Gil. Mas embora a disco aparecesse de forma explícita, era um elemento secundário.

Com o tempo, a disco music passou a ser uma coisa do passado. Sua influência na música dançante ainda continua, e de forma bastante expressiva, mas hoje o estilo dançante é chamado apenas de dance music. A disco, com suas caraterísticas peculiares daquele período de 1972 a 1983 (quando a disco foi ofuscada pela onda break, uma dança que lançou a trilha sonora do hip hop), se tornou coisa do passado. Apesar de haver pessoas acreditando que a disco music continua existindo, é só lembranças e até mesmo homenagens a um tempo que passou.

POR QUE SUPERESTIMAM A DISCO MUSIC?

Nos anos 90, veio um surto de nostalgia em relação à disco music. De repente, tudo aquilo que era repudiado nos anos 80 passou a ser elogiado até com certo exagero. De repente disco music virou sinônimo de “música sofisticada”, “light” ou de “alto requinte”, algo impensável até mesmo durante seu auge. E o mercado radiofônico, deturpando a segmentação ao gosto do mercado, requentou a disco music sob um rótulo pretensamente light, algo impensável no tempo em que a discoteque era moda.

Só a nostalgia para justificar a exagerada recordação da disco. Mas isso significa que o gênero não merece recordação? Não é assim. O estilo merece lembrança, tem seus fãs cativos e tudo, mas não merece manifestações pedantes que colocam, até de forma genérica, a disco music sob rótulos discutíveis como “boa música”, “música de bom gosto”, “classe A” e “adulto contemporâneo”.

A disco music foi alvo de definições pedantes porque a nostalgia que a cerca evoca hábitos e lembranças das classes mais ricas. Daí toda a aura de pretenso “refinamento” que cerca a música, que distorce até mesmo alguns fatos sobre o gênero:

1. A disco music pode ter seus fãs convictos, e pode render até mesmo livros e teses universitárias. É direito das pessoas procederem assim. Mas daí a nivelar a disco music lado a lado do jazz, a ponto de ter “presença obrigatória” nas rádios “refinadas”, isso é um grande exagero. No rádio, o espaço da disco music deve se limitar em rádios de flash back sem qualquer bandeira “sofisticada” e a rádios de dance music que possam tocar sucessos atuais e sucessos do passado.

2. De repente, todo mundo que participou da disco music se transformou em “gênio”. A nostalgia, desesperada, generalizou toda uma cena, e até a parte mais cafona e de gosto duvidoso virou “música de bom gosto”. Assim, até Village People, Boney M, La Bionda e outros foram superestimados. Donna Summer e Bee Gees, intérpretes de altos (nem tão altos assim) e baixos, viraram ídolos inatacáveis. O ABBA, então, já tem quatro bancadas à direita de Deus, no paraíso celestial, para daqui a uns quarenta anos, pelo menos. A menor crítica soa como ofensa imperdoável e sujeita a respostas agressivas dos fãs. Mesmo uma crítica objetiva, por mais gentil que seja, faz acender o pavio curto desses fãs.

3. Até informações a respeito da época foram distorcidas. Por exemplo, “Dance a little bit closer”, sucesso de Charo & The Saulsoul Orchestra, nem de longe representa a “sofisticação” da disco music. E “I will survive”, sucesso de Gloria Gaynor, não foi exatamente um hino gay. Este estigma veio apenas através do filme Priscila (1993), com o veterano ator dos filmes dos anos 60 Terence Stamp fazendo papel de gay, que teve “I will survive” como um dos temas tocados.

4. O Brasil, para piorar, está desamparado pela sobriedade da antiga Rádio Cidade do Rio de Janeiro. A emissora carioca hoje é dominada por uma horda de ignorantes e grosseiros que promovem uma caricatura de milésima categoria da cultura rock, deixando saudades da despretensão de Fernando Mansur, Romilson Luís e companhia. Eram eles que davam uma abordagem sóbria da disco music.

5. O próprio narcisismo das classes mais ricas, principalmente no Brasil, faz com que a disco music exerça uma suposta “superioridade cultural”. Música muito tocada em festas de gala nos anos 70, a popularidade deste tipo de música entre as pessoas mais ricas e elegantes vira pretexto para essa superestimação motivada pela nostalgia. É um sintoma típico do neoliberalismo cultural, em que os ricos, mesmo não entendendo patavinas de música, sempre são vistos como “superiores” até mesmo no gosto musical.

6. A nivelação por baixo da música, com modismos e ídolos cada vez menos talentosos, faz com que o que era trivialmente comercial e pop passasse a ser visto como “sofisticado”. Certamente a linguagem musical, nos seus aspectos formais, não se transformou substancialmente, as melodias, os acordes e os ritmos são os mesmos, diferente é a forma das pessoas utilizarem estes elementos. Por isso, diante da constante banalização da música, não se pode admitir que a disco music, só porque vivemos numa época dominada por rappers monocórdicos tipo Eminem, P-Diddy e 50 Cent, tenha se tornado “sofisticada”. Village People, agora, também é “sofisticado”? Se fosse assim, daqui a vinte anos, até a “Egüinha Pocotó” e o É O Tchan serão “sofisticados”. Como diz o ditado, “em terra de cego, quem tem u