sábado, 19 de setembro de 2009

CORONELISMO APADRINHOU A MÚSICA BREGA E SEUS DERIVADOS


Vamos raciocinar juntos as origens da suposta "música popular", para que assim, pelos sítios virtuais de busca, os pesquisadores de música brasileira vejam as razões de tanta rejeição ao brega-popularesco, que nada tem a ver com a tão alardeada imagem de "preconceito".

Os primeiros ídolos bregas surgiram entre 1959 e 1964, no interior do país. O contexto sócio-político do interior do país era marcado pela intensa mobilização das Ligas Camponesas, o Movimento dos Sem-Terra da época.

Desde muito tempo agricultores e fazendeiros entravam em conflitos sangrentos, e havia até lista de gente marcada para morrer e que estava associada às lutas contra os privilégios dos grandes proprietários de terras, privilégios estes que se estendiam no âmbito político, através do "voto de cabresto", ou seja, o voto imposto pelos poderosos sobre um povo guiado feito cavalo segurado pelo cabresto.

Os latifundiários não poderiam dizimar populações inteiras, tinham que exterminar apenas aqueles que lideravam as mobilizações contra o poder coronelista de cada região. Por isso decidiram manipular o povo rural através do entretenimento. As rádios controladas pelo poder coronelista, então, foram apadrinhar os primeiros ídolos cafonas.

O que seria de Waldick Soriano se não fosse o poder coronelista da Bahia, sobretudo de Caetité, terra natal do ídolo brega? Isso nem Patrícia Pillar nem Paulo César Araújo têm coragem de nos dizer.

Nessa época não existia os termos "cafona" (surgido por volta de 1962) nem "brega" (surgido por volta de 1972). Mas as caraterísticas da música cafona existiam, significando, em suma, uma relação entre o coronelismo e o capitalismo entreguista (as teses neoliberais, nessa época, ainda estavam restritas aos ideais dos empresários paulistas dos "institutos" IPES-IBAD).

Do coronelismo, a música cafona tinha como princípio o atraso, a subserviência do povo pobre, a assimilação tardia de modismos, a mediocridade, a má qualidade artística. Por isso mesmo é que a música cafona, nos primórdios, imitava (muito mal) os boleros e serestas. Isso quando os boleros e serestas já estavam fora de moda. O próprio Waldick Soriano não passa de uma paródia esganiçada do Vicente Celestino, um cantor que não era cafona porque era expressivo e genial no contexto do seu tempo. E certamente o cantor de "O ébrio" tinha uma voz bem melhor que a do cantor de "Eu não sou cachorro, não".

Mesmo a segunda geração brega também representava este atraso, significando uma assimilação tardia da Jovem Guarda, quando esta, como movimento, já havia acabado. Evidentemente, muitos de seus ídolos eram inspirados no Roberto Carlos. Inclusive Odair José, que nada tem a ver com o rótulo mentiroso de "Bob Dylan da Central". Estava mais para "Paul Anka de Madureira".

O aspecto entreguista da música cafona estava na assimilação submissa, tosca e caricata das influências estrangeiras. Em vez do povo pobre desenvolver sua própria canção popular, com seus sambas, baiões, modas de viola, maxixes e outros ritmos, havia a assimilação subordinada do que as emissoras de rádio coronelistas tocavam, sobretudo música estrangeira. Note-se que os primeiros ídolos cafonas também tentavam imitar a música italiana, fonte de diluição das duas primeiras gerações da música brega (a de Waldick e a de Odair).

Até meados dos anos 70, a música cafona tinha influência basicamente estrangeira. Não havia preocupação dos detentores do poder em forjar arremedos de brasilidade. Seu primeiro teste foi durante o período ufanista do governo do general Emílio Médici, entre 1969 e 1974, quando foi testado o "sambão-jóia", às vezes creditado pejorativamente como "samba-exaltação". Era uma paródia cafona do que artistas como Jorge Ben (Jor), Wilson Simonal e Originais do Samba faziam com brilho e criatividade. Nessa época, também, a música caipira, mesmo subordinada a influências de nomes como Bee Gees e Pepino di Capri, teve também que forjar brasilidade, através de duplas emergentes como Chitãozinho & Xororó.

A assimilação de influências estrangeiras, na música cafona, nada tinha a ver com a tese modernista da "antropofagia", difundida por Osvald de Andrade (1890-1954). Era um processo entreguista, mesmo, de colocar elementos estrangeiros não para enriquecer uma linguagem artística (que, na música cafona, sempre foi medíocre), mas para descaraterizar a música regional, mesmo.

Comparemos a "antropofagia" e o entreguismo cafona com a entrada de alguém num lar de família. Na "antropofagia" modernista, o estrangeiro é um visitante, recebido com respeito e carinho, mas sempre visto como alguém de fora. Na música cafona, o estrangeiro é um ladrão, a tirar dos familiares seus bens pessoais, e talvez até sequestrá-los e destruir a vida do lar de certa forma.

A simulação de brasilidade só foi efetivada a partir de 1976, quando a indústria do turismo, ao ser implantada pelos governos militares, criava uma mentalidade nova nos governos estaduais, já preocupados em forjar identidades regionais como forma de tornar o turismo competitivo e economicamente atraente.

Por isso, no decorrer desses anos, veio o forró-brega - se observarmos bem, a "Melô do Piripipi" da Gretchen, apesar da letra em francês, tem ritmo de forró-brega - , ritmo dançante da música brega já influenciado pelo compasso da disco music. Depois o projeto populista do governador baiano Antônio Carlos Magalhães propiciou a diluição do ritmo dos trios elétricos e dos afoxés baianos e, criando uma gororoba que misturava falsos frevos, falsos reggaes e falsos afoxés com um apelo popular copiado da Jovem Guarda, fez desenvolver o império da axé-music.

Vieram também as diluições da música caipira, cada vez mais subordinada aos elementos estrangeiros, se reduzindo a caricaturas de mariachis, country, boleros, sempre no mesmo "método" que titio Waldick Soriano "ensinou". Nos anos 80, o breganejo já aparecia nos programas de auditório de Raul Gil e Edson "Bolinha" Curi, mostrando essa diluição da música caipira, que, embora mantenha o rótulo "música sertaneja" em alta, praticamente ameaça de extinção a verdadeira música rural brasileira, mesmo quando alguns de seus clássicos são usurpados pelos ídolos breganejos.

O neo-brega surge então, depois da pasteurização da MPB pela aliança entre a Rede Globo e as grandes gravadoras, de um lado, e da "lapidação" da música brega pela dupla Michael Sullivan & Paulo Massadas, de outro, como um cruzamento da música brega com a "MPB pasteurizada". Vieram então novos nomes do breganejo, forró-brega, axé-music, sambrega (derivado do "sambão-jóia"), todos favorecidos pelo esquemão lúdico-empresarial respaldado pelo presidente Fernando Collor e também favorecido pela farra de concessões de rádio nos anos 80 pelo presidente José Sarney e pelo ministro das Comunicações Antônio Carlos Magalhães.

A eles, voltava a exceção à "brasilidade" forjada, que é o "funk carioca", na prática uma cópia quase literal do miami bass da Flórida (EUA). O verniz de "brasilidade" só viria tardiamente, e de forma tendenciosa, com o "tamborzão" (batida eletrônica que imita percussão de umbanda), apenas para reforçar toda a retórica demagoga dos empresários-DJs do "funk".

Em resumo: a música brega é um subproduto das oligarquias coronelistas e seus aliados do empresariado urbano para enfraquecer culturalmente o povo. Não se trata da verdadeira cultura popular, até porque é claramente medíocre e patética.

Para um país que teve Luiz Gonzaga, Ataulfo Alves, Cartola, Jackson do Pandeiro e outros, uma "cultura" marcada por breganejos, sambregas, axezeiros, funkeiros e "bregas de raiz" só pode ser considerada patética, ridícula e falsa. Esta suposta "cultura popular" reflete o esquema de dominação a que se submete o povo, representa a Música de Cabresto Brasileira, que cria um aroma artificial de povo, reduzindo as classes populares a uma mera caricatura de si mesmas.

Se nossos intelectuais e jornalistas investigassem melhor o que há por trás dessa "cultura popular" que eles tão hipocritamente elogiam, ficarão assustados com toda a estrutura coronelista-neoliberal que está por trás.

TROCAR ESCOLA POR "FUNK" DEU EM TRAGÉDIA


Policiais carregam o cadáver da jovem Andressa da Silva

A adolescente Andressa da Silva, conhecida pelos amigos como "Reloginho", morreu baleada por um grupo de extermínio no bairro de Ipiiba, em São Gonçalo (RJ).

A menina trocou a escola pelo "funk", ou seja, matava aula para ir aos "bailes funk" de sua área. Ela tentou se esconder do grupo de extermínio, mas não conseguiu. Tinha apenas 15 anos.

Isso é o que dar substituir educação pelo "funk". "Funk carioca" é mesmo cidadania, gente?