quinta-feira, 16 de julho de 2009

A FARSA DO BREGA "UNIVERSITÁRIO"



Uma das maiores farsas mercadológicas dos últimos anos é o chamado "brega universitário". "Sertanejo universitário", "pagode universitário", deve haver depois o "funk universitário" e o "forró-brega universitário" (diferente do honesto e não-brega "forró universitário"). Isso não deve ser confundido com outros grupos "universitários" surgidos há mais tempo, como Batifun e Falamansa, que são musicalmente autênticos, sem fazer parte do universo popularesco, são apenas grupos pouco criativos, mas honestos.

O que queremos falar é de nomes como Vítor & Léo, Sorriso Maroto, João Bosco & Vinícius, Don & Juan, Jeito Moleque, entre outros. São grupos que se inspiram na atitude pedante de fenômenos mais recentes do sambrega e do breganejo, como Exaltasamba, Grupo Revelação e Bruno & Marrone. E que só são considerados "universitários" num país onde o festival de besteiras sobreviveu à documentação do saudoso Sérgio Porto (1923-1968), mais de 40 anos depois. Um festival de besteiras onde o líder-maior do Legislativo, José Sarney, gasta ninharias com dinheiro público e pratica nepotismo, Michael Jackson ganha estátua na Galeria do Rock, as desejadíssimas (não por mim) dançarinas de pagode e "funk" insistem num celibato inútil e ex-políticos corruptos ganham aura de "honestos" quando viram dublês de jornalistas em rádio FM.

Em outros tempos, o termo "universitário" se relacionava a um público mais intelectualizado, que teve atuação importante na revolta contra os abusos da ditadura militar. Para entendermos esse problema, vamos recuar um pouco no tempo.

CPC'S DA UNE

Depois de uma breve experiência sob o comando de jovens ligados à UDN (União Democrática Nacional - primeiro nome do partido DEM - DEMOCRATAS), a União Nacional dos Estudantes deu início a uma fase de muita mobilização e idealismo.

Era o período de Juscelino Kubitschek como presidente da República, e muitos sonhos, esperanças e até iniciativas eram feitos para tirar o Brasil da situação de país sub-desenvolvido. Havia até um instituto empenhado para pensar os projetos políticos e econômicos para o país, o Instituto Brasileiro de Estudos Superiores, cujos principais membros eram Roland Corbisier, Hélio Jaguaribe e Nelson Werneck Sodré.

Alguns estudantes, ligados ao ISEB, e outros, integrantes de vários movimentos culturais, formaram então um grupo na União Nacional dos Estudantes para pensar o mesmo projeto do ISEB aplicado à cultura popular e ao engajamento social de trabalhadores, camponeses e estudantes.

O poeta concretista Ferreira Gullar, o ator, diretor de teatro e dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, o cineasta Cacá Diegues, o militante estudantil Carlos Estevam Martins e o músico e compositor Carlos Lyra foram alguns dos membros que estavam nas primeiras discussões e atividades dos Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC- UNE).

A ciração dos CPC's coincidiu com as primeiras manifestações estudantis que marcaram a década de 1960. Era o ano de 1961 e pode-se dizer seguramente que 1968 começou em 1961. Na França, Inglaterra, EUA e América do Sul, já haviam manifestações estudantis no começo dos anos 60, e é memorável o protesto de um grupo de estudantes negros nos EUA, que permaneceram tranquilamente sentados às mesas de um restaurante até que alguém decidisse atendê-los (os funcionários, por racismo, se recusaram a servi-los).

A partir dessa atuação, os estudantes, principalmente os universitários, começaram a desenhar um novo perfil de Universidade, pois o mito positivo que temos do ensino superior vem dessa época. Antes dele, a Universidade era um antro de sisudez e de um rigor acadêmico cuja serventia social era inexpressiva, salvo honrosas exceções.

A geração que fez as revoltas estudantis dos anos 60 era apenas parte de extratos sociais que transformaram os anos 60. Com eles, vieram novos conceitos de ciências sociais, cultura, política, arte, mobilização social, altruísmo etc.. No âmbito musical, eles contestavam a máquina do hit-parade, dominante então no mundo e novidade no Brasil, e defendiam uma cultura musical de qualidade. Como se vê, ser universitário estava associado aos valores inteligentes e sensatos da humanidade.



No entanto, o Brasil havia optado pelo golpe militar que gerou uma ditadura que, a princípio, prometia apenas reparar as falhas mais graves que os conservadores viram no governo João Goulart. Mas depois a ditadura tornou-se efetiva, iniciando uma reviravolta nos valores sociais do Brasil cujo auge se deu nos governos Collor e FHC que completaram, sob o pretexto aparentemente democrático, o mesmo projeto "liberal" proposto pelos militares.

Na ditadura militar, o Ministro da Educação, Flávio Suplicy de Lacerda (foto), que havia sido reitor da Universidade Federal do Paraná, criou um plano que tanto previa punições para quem realizasse manifestações estudantis como desenvolveu uma parceria com a United States Agency for International Development, conhecida como acordo MEC/USAID, que pretendeu transformar o ensino superior num processo puramente tecnocrático, numa "indústria de novos profissionais", dentro dos padrões rijos do FMI. Revoltas estudantis reagiram a esse projeto, e vários jovens morreram. O principal deles nem foi manifestante estudantil, e muito menos era universitário, mas o secundarista Edson Luís de Lima Souto, funcionário do restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, morreu baleado enquanto almoçava, durante o confronto entre outros estudantes e a polícia militar.

Veio o AI-5 e a ditadura militar representou um retrocesso na vida brasileira. A redemocratização foi conduzida pelas mesmas forças civis que comandaram, junto às Forças Armadas, a ditadura. O "fantasma" da privatização das universidades públicas, federais ou estaduais, previsto no acordo MEC/USAID, perseguiu os estudantes brasileiros durante vários anos, até o governo Fernando Henrique Cardoso, impossibilitado de levar adiante essa ameaça, devido ao intenso protesto de entidades estudantis, resolveu partir para uma alternativa sutil: liberou a implantação de universidades e faculdades particulares.

Não vamos detalhar esse fenômeno. Mas a verdade é que isso representou uma queda no nível de aprendizado de nossos jovens. A cultura de qualidade não era mais uma bandeira de luta, mas meramente uma conversa para boi dormir. Se minha geração curtia drogas como Menudo e Dr. Silvana & Cia. mas os abandonava assim que chegasse aos 15, 16 anos, os "universitários" dos anos 2000, pelo contrário, mantinham o mesmo gosto musical retardado da adolescência num período de degradação da mídia no país.

A Internet não resolveu o problema desses jovens, que com sua formação confusa passaram a consumir e até a fazer estilos musicais meramente comerciais, apesar da pose (arrogante ao extremo) de "defensores da boa cultura".

Com uma formação acadêmica deficiente, que só veio a complementar a péssima formação sócio-moral da infância e a péssima formação cultural pela mídia, os jovens que curtem brega-popularesco viraram uma demanda potencial para o chamado "brega universitário", a mentira que fariam os técnicos do acordo MEC/USAID sorrirem feito pais orgulhosos.

Afinal esses dois ritmos que puxam o "brega universitário", como o "pagode universitário" e o "sertanejo universitário", não há inteligência alguma. Os músicos é que são domesticados pelos empresários, produtores e arranjadores que estão por trás, tudo para dar a eles uma roupagem "bonitinha", tal qual o fazem com os veteranos pedantes do neo-brega (Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Zezé Di Camargo & Luciano, Harmonia do Samba, Belo).

Além disso, eles não apresentam surpresa alguma. Só são novos produtos da grande mídia, apenas consumidores da "country music" caricata, que eles traduzem logo na "moda de viola" caricata, ou de "soul music" caricata, que traduzem logo no "samba" caricato. Nada que Exaltasamba e Bruno & Marrone não haviam feito há cinco anos, Só Pra Contrariar e Zezé Di Camargo & Luciano há quinze e Chitãozinho & Xororó e Raça Negra há vinte. Tudo o mesmo lixo brega que deprecia e maltrata o verdadeiro samba e a verdadeira música caipira que são deixados para trás por esses usurpadores e diluidores.

UNIVERSOTÁRIOS

Pena que agora essa nova geração seja considerada "universitária", apenas porque é bem mais "arrumadinha" que as anteriores. Mas, quem diria, o grupo João Penca & Seus Miquinhos acabou entrando na antologia visionária quando escreveu "Universotário", em 1986, sem perceber que cantava uma realidade que se tornou atual hoje em dia, com estudantes universitários até promovendo eventos horrorosos que incluem até pagodão pornográfico (do É O Tchan aos sucessores do Psirico) e o mais grotesco "funk carioca" (os sucessores do MC Créu). E ainda ficam posando de "sábios" e "perfeitos" nas comunidades do Orkut e vivem a patrulhar quem não gosta do lixo sonoro que eles consomem.

Pois veja essa letra, de deixar os orkuteiros do mal roendo de inveja se souberem que a letra diz muito da vida deles. Não foi possível obter os créditos originais de quais integrantes compuseram a música. Vejamos a letra:

UNIVERSOTÁRIO

É impossível não reparar
Que maluco o estudante vai ficar
De tanto estudar pro vestibular
Ele vai se transformar
Num babacão (bocó, bocó)
Num babacão (bocó, bocó)

Não sai nem pra pegar um cinema
É do tipo de garoto que não dá problema
Não serve, nem sabe nem mesmo namorar
Porque ele é um babacão (bocó, bocó)
Um babacão (bocó, bocó)

Crescendo vai virar universotário
Revoltas vão constar do seu diário
Só que nada disso nunca vai dar pé
Porque ele é um babacão (bocó, bocó)
Um babacão (bocó, bocó)

Um belo dia vai se apaixonar
E com uma virgem burra vai querer se casar
E o filho obrigar a estudar
Pra se transformar num babacão (bocó, bocó)
Um babacão (bocó, bocó)

Mas o filho que não vai ser bobo
Vai querer correr o mundo todo
Mesmo só pra ver, só pra ver qual é
Ele não quer ser um babacão (bocó, bocó)
Um babacão (bocó, bocó)
Um babacão (bocó, bocó)
Um babacão (bocó, bocó)

Ele era um babacão

- Quem, eu é?

- Palhaço...

JOÃO BOSCO - O AUTÊNTICO, DA MPB TAMBÉM AUTÊNTICA, LANÇA NOVO DISCO



Essa é para um almofadinha que mandou um comentário para O Kylocyclo falando que as músicas da dupla breganeja "João Bosco & Vinícius" são "maravilhosas". Esse rapazinho deveria ficar ouvindo os discos da dupla ao invés de ficar patrulhando quem não gosta dela. Vá mandar tais mensagens para o Fausto Silva e para de nos amolar!! Vale lembrar que a mensagem dele teve sua publicação vetada.

Espera-se que o João Bosco, o autêntico, não dependa de trilhas de sonora de novelas da Rede Globo para divulgar seu trabalho. Embora eu não seja um grande fã do cantor, apoio o seu trabalho e fico triste ao vê-lo ofuscado por um homônimo que integra a tal dupla breganeja.

A volta de Bosco com Blanc
Parceria histórica é retomada em refinado álbum de inéditas de tonalidade cool, calcada no violão
João Bosco canta versos de seu filho no samba "Tanto Faz"

Mauro Ferreira - revista Isto É Gente - 20 de julho de 2009

FORAM SETE ANOS sem um álbum de inéditas de João Bosco, mas a espera valeu a pena. Não Vou pro Céu, mas Já Não Vivo no Chão nasce histórico pelo fato de sacramentar a retomada da parceria de Bosco com Aldir Blanc, iniciada nos anos 70 e desativada nos anos 80 por desentendimento de caráter pessoal. Retomada em 2006, com a composição do samba que dá título ao humorístico televisivo Toma Lá, Dá Cá, a dupla volta em grande forma em quatro das 13 músicas do álbum. Um dos destaques é o samba "Sonho de Caramujo".

A ausência do tema maroto de Toma Lá, Dá Cá no repertório é justificada. Calcado nos violões tocados por Bosco e por Ricardo Silveira, o disco ostenta refinada atmosfera cool pela qual foram filtrados sambas como "Navalha" e "Tanto Faz", parceria de Bosco com seu filho, o poeta Francisco Bosco.

Aliás, os versos dos demais parceiros - Francisco Bosco, Nei Lopes e Carlos Rennó - exibem o mesmo alto nível das letras de Blanc. Entre canção que celebra Dorival Caymmi ("Desnortes", com vocais em falsete de Bosco) e samba-canção que cita Tito Madi ("Mentiras de Verdade"), o disco se revela sedutor em sua economia. É como se Bosco reverenciasse outro João, Gilberto, mestre do essencial.

USUÁRIOS PODEM PROCESSAR EMPRESAS DE ÔNIBUS DE SALVADOR PELO VISUAL "BRANQUELO"





Raimundo Varela deveria denunciar a pouca vergonha dos ônibus esbranquiçados de Salvador, Bahia, que só ficam com "alguma cor" durante as chuvas, com a "ajudinha" das lamas das ruas alagadas. Mas cadê o Varela para enfrentar os empresários de ônibus que se reúnem no sindicato "Setépis", leitura risível da complicada sigla SETPS que confunde os analfabetos e até os alfabetizados?

Essa humilhação que são os ônibus brancos - isso com uma passagem convencional que na capital baiana é a mesma de Niterói e Rio de Janeiro, R$ 2,20 - deveria acabar completamente. Os passageiros têm até instrumentos legais para banir a pintura branca, mesmo diante de desculpas dadas por empresários e autoridades: as desculpas variam desde a economia de tintas até um suposto padrão visual dos ônibus soteropolitanos, isso numa cidade famosa por sua cultura multicor.

Os passageiros podem reclamar em massa para o telefone (71) 3371-1580, mas tem que reclamar em massa, chamando o papai, a mamãe, o vovô, a vovó, o filhinho, a filhinha, a empregada, o porteiro, o chofer, os titios e titias, todo mundo, porque se for um e outro reclamar, a burocrática funcionária da Secretaria de Transporte Público, mais robótica que a Rosie, a empregada eletrônica dos Jetsons, só vai anotar a queixa maquinalmente, isso depois de se comportar como "secretária eletrônica" (estou falando do aparelho): "Número de ordem do veículo, horário e dia da ocorrência?". Por isso tem que ser todo mundo, para as autoridades verem que o problema é sério.

Mas se isso não adiantar, o pessoal pode mover o Ministério Público. A atitude de várias empresas de ônibus em pintar (?) os ônibus com um "branquinho básico" é CONTRA o interesse público e por isso um processo contra o "Setépis" e, se for o caso, contra a Prefeitura de Salvador por consentimento a essa irregularidade, é uma solução viável.

Quem não tem dinheiro para pagar um advogado pode arrumar um defensor público, para que ele conduza um processo contra as empresas de ônibus que "pintam" suas frotas de branco e das autoridades que contribuírem para a manutenção dessa irregularidade. Há um posto do Ministério Público da Bahia, no bairro de Nazaré, em Salvador, nas proximidades da Fonte Nova, mas na Rua Joana Angélica.

Outra solução é encaminhar um abaixo-assinado para a Câmara Municipal de Salvador, localizada na Rua Chile, próximo ao Elevador Lacerda na Cidade Alta, para que os parlamentares adotem medidas legais para punir os empresários de ônibus soteropolitanos que investem nestas frotas branquelas.

Democracia não é ficar de braços cruzados enchendo a cara e olhando para o céu feito um bobão. Democracia serve para o pessoal lutar pelos seus direitos, e a própria lei permite as oportunidades e os meios de conquistar estes direitos. Defender por seus direitos é um dever do cidadão consciente.