sábado, 4 de julho de 2009

CRISE DO RADIALISMO ROCK - IV - FINAL


Entre 1995 e 2006, o radialismo rock no Brasil entra em processo de decadência acelerada. Se a decadência já acontecia desde 1988, quando surgiram rádios de hit-parade que aparentemente levantavam a "bandeira" do rock, mas mantendo toda a estética e cosmética de rádios pop, ela se tornou mais evidente depois de 1995.

Muita gente não reparou a decadência do radialismo rock no final dos anos 80, e havia até gente deslumbrada quando rádios de pop ou de brega se "convertiam" em "rádios rock" sem qualquer tipo de adequação. Bastava botar uma música de trabalho de nomes como Ramones, Clash, Ira! e Iron Maiden para a garotada sair exagerando nos elogios.

Mas, em 1995, pouco antes do crescimento da Internet no Brasil, a situação era diferente. A experiência anterior das ditas "rádios rock" serviu de lição, vide a repetição de músicas e a mesmice do rock pesado puxada pelo grunge e pelo poser metal. Nessa época, as pessoas começaram a exigir bandas melhores e mais criativas nas rádios, além de uma programação bem mais criteriosa e menos repetitiva, coisa que o avanço da Internet tornaria bem mais crescente, já que a rede mundial de computadores faria o que essas rádios não tiveram sequer interesse em fazer.

Entre 1993 e 1995, um grande número de rádios denominadas de "rock", autênticas e bastardas, saiu do ar. As bastardas saíram primeiro, pressionadas pela rejeição de ouvintes mais exigentes e pela decadência do grunge. Dessa forma, rádios como 96 FM (Salvador), Atalaia (Aracaju), 100 (Fortaleza), entre outras, abandonaram o formato.

Mas as rádios autênticas de rock, que passavam então por uma crise de identidade e princípios - a pressão da MTV e das rádios bastardas as obrigava a investir numa programação mais previsível e "palatável", para atrair ouvintes não-roqueiros - , levaram a pior, porque não tinham uma estrutura comercial desenvolvida. As rádios Fluminense (Niterói), 97 (Santo André) e Estação Primeira (Curitiba) foram vendidas ou arrendadas para outros grupos empresariais. Dizem boatos que o arrendamento teria sido recomendado por gente da 89 FM, em represália ao fracasso da emissora como arremedo de rádio alternativa.

A Fluminense FM foi um dos símbolos dessa situação. A rádio havia virado pop em março de 1990, mas depois retomou o rock, mas numa conduta neurótica e bem menos criativa. Seu repertório era dependente da MTV, embora não muito repetitivo. Mas seus locutores, salvo exceções, começavam a decepcionar, como a equipe que comandava o "Jack Ruim" e o locutor Rhoodes Dantas, que, cínico, afirmava ao microfone que detestava rock.

Com esse desempenho, a Fluminense perdeu audiência e foi arrendada pelo Grupo Jovem Pan Sat, virando Jovem Pan Rio, cuja programação quase toda reproduzia a matriz paulista, enquanto locutores e DJs folguistas locais eram contratados: Marcelo Arar, Victor "Orelhinha", Mário Bittencourt, entre outros. Dizem rumores que eles são da mesma turma do Rhoodes.

Várias rádios tentaram, quase todas parcialmente, assumir o legado da Fluminense: Búzios FM (Búzios), Ondas FM (Cabo Frio), Tribuna FM (Petrópolis), Costa Verde FM (Itaguaí), além de diversas rádios comunitárias, com destaque a Progressiva FM (Bonsucesso, bairro do Rio de Janeiro). Até a Globo FM também aderiu à tendência.

Somente a Tribuna e a Progressiva chegaram a ser rádios de rock em todo o horário de transmissão. As demais encontraram diversas limitações, seja pelo fato de serem rádios de pop adulto, que não as permitia de tocar certas tendências de rock, seja pelo fato dos programas serem arrendados em alguns horários.

A chance da Costa Verde suceder a Fluminense, no entanto, foi por água abaixo quando denúncias à polícia foram feitas contra o programa "Jack Ruim", por causa dos palavrões e piadas de mau gosto. Com isso, a faixa de horário arrendada para os antigos programas da Flu foi banida e a Costa Verde preferiu virar rádio brega-jovem comum.

Mas o que poderia parecer uma boa notícia tornou-se um terrível pesadelo para o público roqueiro: a Cidade e a Transamérica, duas rádios de dance music, tentaram mudar, em 1995, sua orientação para o rock. Consta-se que, mesmo com o fato da Transamérica ser irradiada de São Paulo, as duas rádios optaram pelo rock mediante um acordo com a Jovem Pan Sat, que queria criar sua reserva de mercado na dance music no rádio carioca, que já contava com a concorrência forte da RPC FM (mas tarde, essa rádio daria lugar à FM de brega-popularesco O Dia).

A Cidade e a Transamérica haviam parasitado o segmento rock em 1985, chegando a contratar os locutores da Fluminense FM. Suas condutas no segmento, porém, nunca foram das melhores, já que agiram visando os "louros" do primeiro Rock In Rio e, entre tantos deslizes, havia locução em cima das músicas, locutores engraçadinhos, mentalidade hit-parade. Não eram bem vistas, na época, pelos ouvintes da Fluminense FM, que acusavam as duas rádios de puro oportunismo. Luiz Antônio Mello havia escrito, no livro A Onda Maldita: "Tínhamos uma verdadeira fobia de que uma Rádio Cidade, de repente, despejasse, em seus milhares de quilowatts, rock sobre o Rio".

A diferença entre o oportunismo de 1985 e o de 1995 foi que, na primeira fase, as duas rádios não "levantavam" a bandeira do rock e apenas incluíram parcialmente programas e hits de rock na programação. Era uma competição cautelosa com a Fluminense. Mas, sem a rádio niteroiense, a Cidade e a Transamérica, em 1995, passaram a se passar por "rádios rock" num desempenho que não foi outra coisa senão vergonhoso e constrangedor.

A Transamérica recuou do segmento rock em 1996 mas o programa T-Rock, carro-chefe da fase, morreu aos poucos até ser extinto em 1997. Correram rumores de que o radialista da 97 Rock, Leopoldo Rey, trabalhava na Transamérica, mas ele nunca permitiria uma performance vergonhosa da rádio e, além disso, uma coluna da Revista Transamérica atribuída a ele - mas "assinada" como Leopoldo Reis - só falava de coisas óbvias.

A Cidade, porém, persistiu no segmento rock da forma mais cínica e deplorável possível. Foram duas fases, a de 1995-1999, com alguns intervalos de meses quando a rádio voltou à programação dance, e 2000-2006, como afiliada à dita "rede rock" da 89 FM. Na primeira fase, a Rádio Cidade era exatamente um cruzamento entre a fase decadente da Fluminense FM de 1991-1994 com a Jovem Pan Rio que era sua concorrente direta, mas não explícita (a pretensa postura "rock" fazia com que a Cidade não admitisse que competia com rádios dance, apesar de terem praticamente a mesma personalidade, apesar da diferente pose). Rhoodes Dantas estava na equipe da Rádio Cidade em toda a sua trajetória como rádio pseudo-roqueira.

A Rádio Cidade, que no discurso de seus adeptos "lembrava um pouco a Fluminense FM", promoveu em sua programação um perfil estereotipado e caricato do jovem roqueiro, que odiava ler livros e só via filmes de terror e esportes radicais, e tinha uma índole que misturava o MacCaulay Culkin dos filmes Esqueceram de Mim com Beavis & Butthead, a dupla desbocada da MTV. Era algo como um pestinha mimado, alienado mas arrogante, e que era até fanático por futebol, esporte que no Brasil nada tem a ver com a cultura rock.

Isso foi prejudicial. A Rádio Cidade acabou gerando, com sua pregação ideológica, um público de pseudo-roqueiros fanáticos, arrogantes, esnobes, e uns até eram especializados em mandar vírus por e-mail para quem discordasse de tudo que eles acreditavam. Era um público que, na personalidade, juntava o reacionarismo dos jovens do antigo Comando de Caça aos Comunistas, o senso de humor dos nazipunks e o apetite de drogas e curtição dos junkies.

A programação roqueira era pior até do que a Fluminense de 1991-1994, por ser bem mais óbvia e rigorosa no hit-parade. Eram apenas 60 músicas na programação diária, que variavam de quatro em quatro meses. Os grandes nomes do rock não compareciam com mais de dois sucessos ao mesmo tempo manjados e acessíveis, fora alguma música de trabalho que rolava na MTV durante dado momento. Os defeitos das rádios hit-parade - falação e vinhetas em cima das músicas, repetição dos mesmos hits, locutores engraçadinhos, esnobismo, arrogância e até erros nas informações - a Rádio Cidade tinha. "Jack Ruim" e "Pânico da Pan" deram à luz a "rádio rock" dos 102,9 mhz.

Na verdade a Rádio Cidade fazia um grande truque para tapear os ouvintes. O forte da rádio, mesmo no seu pior nervosismo pseudo-roqueiro, nunca foi tocar heavy metal e rock australiano, mas tocar sempre pop juvenil. No grosso, sua programação era tocar Cidade Negra, Kid Abelha, Skank, Lenny Kravitz, Alanis Morissette e até Andru Donalds e Des'Ree, que a Jovem Pan Rio também tocava, com a mesmíssima assiduidade. Só que, ao invés de tocar nomes do pop dançante como Whigfield, Double You, Backstreet Boys, Undercover e Madonna, botava Metallica, Iron Maiden, Spy Vs Spy, Hoodoo Gurus e os medalhões do grunge, além das bandas do rock brasileiro dos anos 90, que sucumbiam à mediocridade pós-Raimundos, como Mamonas Assassinas, Virgulóides, Baba Cósmica, Profeta, Ostheobaldo, entre outros de triste lembrança, que abriram o caminho que seria depois de nomes como NX Zero, Fresno e outras frescuras.

Houve um esforço dos adeptos da Rádio Cidade "roqueira" em apagar da memória pública o passado pop da emissora. Quando a Rádio Cidade comemorou 20 anos, em 1997, tudo o que se falou da emissora é que ela tocou Sugarhill Gang e Lulu Santos e que seus locutores romperam com a sisudez das FMs da época. Não se falou, por exemplo, que a rádio foi a primeira a cobrir intensamente o fenômeno da disco music nem que ela foi uma das primeiras a tocar Madonna e Michael Jackson no dial carioca. Os adeptos da Rádio Cidade "roqueira" se irritavam quando a antiga rádio era lembrada na Internet. Mas, com o tempo, a história original da Cidade foi relembrada por vários internautas, e eu mesmo cheguei a fase um site chamado Cidade Disco Years.

O recuo da Rádio Cidade ao rock se deu em 1998 e 2000. Era fruto de um descontentamento de roqueiros autênticos irritados com o pretensiosismo da rádio. Mas a volta da Rádio Cidade se deu por um recurso meramente tecnológico, que tapeou a direção da rádio direitinho.

Os adeptos da Rádio Cidade normalmente eram jovens ricos da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes , alguns deles usuários de drogas que compravam sua "merenda" no subúrbio ou na Baixada Fluminense. A região da Barra e Recreio é conhecida por não receber sinal de rádios menos potentes, e o sinal da Fluminense sempre "morreu" na Gávea, já distante da Barra. Não era um público roqueiro enorme, embora se autoproclamasse "nação roqueira", porque se era incapaz de manter uma Fluminense FM no ar, se morasse nas áreas cobertas pela antiga rádio niteroiense, era da mesma forma incapaz de convencer uma rádio comercial a agir por eles.

Mas a campanha pela volta da Rádio Cidade ao pretensiosismo "roqueiro" se deu com e-mails com pseudônimos, entre outros truques que esse público organizado dos condomínios de luxo da Barra fizeram para dar a falsa impressão de uma "gigantesca campanha da nação roqueira". Em 1999 e 2000, a rádio tentou um repertório mais "comportado", com a contratação de Lia Easter e José Roberto Mahr, radialistas autenticamente roqueiros, para a produção. Mas a experiência fracassou porque continuava a mesma Rádio Cidade de 1995-1998 apesar de um Eric Clapton aqui, um Led Zeppelin ali no cardápio musical. Resultado: a Rádio Cidade voltou ao pop em 2000.

Mas aí a campanha dos jovens riquinhos voltou e eles foram premiados com a seguinte notícia: a Rádio Cidade tornou-se filiada da "rede rock" da 89 FM. A essas alturas Lia e Mahr estavam fora da rádio, mas a Cidade, antes de pegar a rede da 89, tentou reproduzir a programação "comportada" dos breves meses de 1999-2000. Aí a linguagem virou totalmente "Jovem Pan com guitarras" porque seu coordenador passou a ser Alexandre Hovoruski, o mesmo que produziu os CDs de dance music da série As Sete Melhores da Pan.

A programação ficou mais amarrada nos hits "roqueiros" - mas que, no fundo, era uma tapeação de sucessos de pop com rock pesado ou surfista - e a arrogância dos adeptos e até dos produtores da Rádio Cidade foi além dos limites, o que faria a mundialmente famosa arrogância dos irmãos Gallagher do Oasis parecer o mais elevado exemplo de humildade humana. Nem a matriz da 89 FM, cujos produtores eram bastante temperamentais (pecado lamentável para os padrões de um bom radialismo), atingiu tão sério patamar de arrogância.

A situação chegou ao ponto dos próprios produtores e ouvintes-adeptos da Rádio Cidade comprarem briga contra os roqueiros, numa atitude kamikaze, uma vez que a Rádio Cidade entrava em conflito justamente com um público que supostamente queria atingir. Nas mensagens publicadas na coluna de Magali Prado, na Folha On Line, eu cheguei a ter uma polêmica com um tal de "Roger Strauss", que se confessava irritado com o saudosismo dos roqueiros em torno da antiga Fluminense FM. Ele, além disso, afirmou que odiava clássicos do rock, como Who e Led Zeppelin. Isso foi nocivo para a Cidade que, com isso, se isolou cada vez mais no grunge, poser, emo e outras "poproquices" até ser arrendada para a Telemar, virando uma emissora "descolada" OI FM, que apesar do perfil pop tem uma programação bem mais criativa que a Rádio Cidade "roqueira".

No mesmo caminho, a 89 FM deixava de existir como "rádio rock" para virar, sob a associação ao Grupo Bandeirantes, a Play FM, de perfil similar à Mix FM (que chegou a ser uma versão mais caricata da 89, mas assumiu o formato pop). Também sucumbiu, no segmento rock, a Brasil 2000, com os equívocos de contratar o ex-89 Tatola e depois Lélio Teixeira (que derrubou o rock na 97 FM) para a coordenação, e depois arrendar a retransmissão de quatro horas da Rádio Bandeirantes AM paulista, que já tinha uma clone toda em FM, noutra frequência. A Kiss FM surgiu como uma boa rádio de rock, mas depois perdeu o rumo, reduzindo-se a uma correta rádio de hits roqueiros, que no entanto peca por cortar as músicas e botar vinhetas e locução em cima.

A Venenosa FM, rede da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO, da região de Niterói), tentou retomar a vida inteligente do radialismo rock, seguindo a receita inversa das rádios pseudo-roqueiras do final dos anos 80: enquanto estas só colocavam bandas alternativas para chamar atenção do público exigente e, depois, despejar programação só de hits, a Venenosa colocava bandas convencionais de rock dos anos 90 para depois jogar nomes mais difíceis e conceituais do rock. A rádio chegou a ter Luiz Antônio Mello na programação, e Mello já havia coordenado, entre 2000 e 2002, a webradio Rocknet, em cujo site eu cheguei a ser colunista (Pelos Porões do Rock).

Mas o mercado radiofônico já estava se fechando e interesses políticos e econômicos do dono da UNIVERSO fizeram com que a Venenosa (que havia tido afiliadas até em Goiás e no Triângulo Mineiro, redutos de música brega-popularesca, mas estranhamente não era irradiada no Grande Rio) saísse do ar, dando lugar à tenebrosa rádio popularesca Mania FM, que já havia estado no dial carioca nos 95,7 mhz antes de virar Paradiso (atual Sul América Paradiso).

Com essa situação, hoje a única rádio de rock existente no Brasil é a Unisinos FM, da universidade homônima de Porto Alegre, única capital onde o rock é segmento forte. A Ipanema FM, última rádio de rock original a resistir, desde 1997 aderiu ao pop "descolado" e chegou a ter programação parcialmente Aemizada até 2000. A Felusp FM virou rádio Pop Rock FM e hoje ela assume o mesmo perfil da OI FM. A Estação Primeira chegou a ter uma seguidora bem menos criativa, a 96 Rock, que desapareceu ao dar lugar à Band News FM (a mesma que ocupa hoje o espaço da antiga Fluminense FM).

Rock virou coisa de roqueiro, e no Brasil isso não dá dinheiro para rádio. A diluição do segmento rock, para linguagens mais pop e para uma programação restrita a hits que gerasse "sucessos grudentos", visava conquistar ouvintes não-roqueiros para viabilizar comercialmente as rádios de rock.

Esse raciocínio, apesar de correto em termos administrativos, foi cruel para o cotidiano radiofônico, porque sacrificava a personalidade própria das rádios de rock, jogava para o segmento rádios sem tradição nem vocação para o gênero (como a 96 FM de Salvador e a Rádio Cidade do Rio de Janeiro) e irritava os roqueiros mais exigentes, que liam as revistas e sites estrangeiros e percorriam as garagens e lojas independentes e conheciam bandas que as "rádios rock" desconheciam ou desprezavam completamente.

Com o crescimento de downloads de música na Internet, os roqueiros abasteciam suas coleções de áudio com bandas que as rádios "roqueiras" nunca tocavam. A "garimpagem" de informações e músicas sobre intérpretes menos badalados do rock fizeram a diferença, e o não-acompanhamento das rádios brasileiras a esse fenômeno (apesar do demagogico patrocínio que a Rádio Cidade carioca tentou fazer até para bandas progressivas que se apresentavam no Brasil) as dizimou completamente.

No fim, o público jovem partiu para o brega-popularesco, já que não conseguiu entender o comportamento esquizofrênico das ditas "rádios rock", perdidas entre o humor engraçadinho do radialismo jovem e o mau humor dos roqueiros estereotipados. Os brega-popularescos são ridículos e musicalmente terríveis, mas pelo menos parecem mais simpáticos e alegres para essa juventude.