domingo, 28 de junho de 2009

ELES NÃO QUISERAM SABER DE FERRIS BUELLER

O DRAMA DE CINQUENTÕES QUE NÃO SABEM ENVELHECER COM JOVIALIDADE


Da esquerda para a direita, o ginecologista Malcolm Montgomery, o publicitário Roberto Justus e o empresário Eduardo Menga aparecem com suas jovens esposas. A sisudez desses cinquentões se contrasta...

Há uma geração de empresários e profissionais liberais, nascidos nos anos 50, que precisam de uma verdadeira repaginada visual e uma grande atualização de referenciais.

Eles se encontram numa situação complicada pois, mesmo tendo esposas bem mais jovens, eles padecem de uma obsessão doentia para aquilo que eles entendem como "maturidade".

Eles são conhecidos do colunismo social. São o oftalmologista carioca Almir Ghiaroni, o ginecologista Malcolm Montgomery, o publicitário e empresário Roberto Justus e o empresário e hoje diretor de elenco da Rede Record Eduardo Menga, pai da tenista Vanessa Menga.

Todos eles nasceram entre 1953 e 1954, anos turbulentos aqueles onde o Brasil agrário ameaçava ser superado pela industrialização e o american way of life da forma que os EUA pregavam desde os anos 40, temperados pela fúria macartista, foram ridicularizados pela onda do rock'n'roll. No Brasil, foi o período do surgimento da Petrobras e o auge da crise política que resultou no primeiro suicídio de um presidente da República, Getúlio Vargas. A música brasileira era tomada pelo samba-canção e pela popularização local dos boleros e baladas românticas dos standards de Hollywood.

Esses empresários e profissionais liberais, no entanto, são casados com mulheres nascidas entre 1970 e 1976> respectivamente (conforme dois parágrafos atrás) a ex-modelo e hoje fotógrafa Geórgia Worthman, a atriz Carla Regina, a atriz e apresentadora Ticiane Pinheiro e a atriz Bianca Rinaldi.

O que chama atenção nos maridos delas não é o envelhecimento deles, o guarda-roupa antiquado sobretudo no que diz ao uso dos sapatos (há uma resistência deles em usar com mais frequência os tennis shoes para eventos sociais mais informais), ou os referenciais que não passam dos valores "adultos" dos anos 40/50 reciclados nos anos 70. Dão preferência a festas de gala, a eventos musicais que envolvem música romântica e/ou orquestrada de muito black tie, e são formais até nos passeios a shopping centers e caminhadas na praia (se for com camisa de colarinho, calça preta e sapatos de verniz, para eles, melhor) e usam terno preto até quando vão lançar livrinho (como Almir Ghiaroni quando apareceu no Programa do Jô).

O que chama atenção é que eles são de uma geração que nada tem a ver com esse estilo supostamente "clássico" que eles defendem, que não é mais do que uma forma mal-reciclada do estilo granfino da primeira metade dos anos 70. Só que eles são da mesma geração de pessoas que valorizaram o ideal de liberdade e mantiveram a jovialidade até hoje, como o ator e cantor Evandro Mesquita, o cantor e guitarrista Lulu Santos e o apresentador Serginho Groisman.


...com a jovialidade de seus CONTEMPORÂNEOS Serginho Groisman (E), Lulu Santos e Evandro Mesquita.

Aliás, é algo até para colocar os cinquentões do alto desta página em grande preocupação. Como é que Almir Ghiaroni, por exemplo, nascido em 1954, pode ter um comportamento mais envelhecido que o de Serginho Groisman, nascido em 1950?

Esses empresários e profissionais liberais, aliás, não vivenciaram os referenciais que hoje defendem, quando o gosto musical deles está mais próximo de coisas relacionadas aos anos 40, não por uma opção natural - como eu, que, nascido em 1971, me identifico mais com a música dos anos 60 - , mas como uma obsessão em parecer "maduro" diante dos colegas de profissão mais velhos.

Esses cinquentões "refinados", num belo dia do início dos anos 70, quando tinham por volta de 18, 20 anos, eram apenas garotões traçando suas mudanças do curso de segundo grau (atual ensino médio) à faculdade, sob a trilha de muito rock'n'roll e MPB. Sim, porque os senhores que hoje defendem a orquestra de Glenn Miller com um certo pedantismo (como se o maestro-aviador que popularizou o swing, desaparecido em 1944, fosse tio de qualquer um deles), quando tinham 18 anos, ouviam muito Mutantes, Caetano Veloso e Led Zeppelin. Nada a ver com os eventos do Copacabana Palace que hoje os "divertem" (afinal, o que é diversão para a geração Justus-Ghiaroni & cia.?).

O que estragou eles foi certamente uma submissão exagerada à autoridade dos patrões, à rotina de estudos, à rotina de trabalho. Nota-se uma certa ojeriza (olha o trocadilho) de Roberto Justus, Almir Ghiaroni, Malcolm Montgomery e Eduardo Menga com os anos 80. Ironicamente, é a década da adolescência de suas jovens esposas. O desprezo pelos anos 80 se dá como se eles tratassem nomes diferentes como Leoni, Trem da Alegria e Titãs com igual indiferença de paizões quadrados que acham que toda música jovem é música infantil.

O mais grave disso tudo é que, no Reino Unido e nos EUA, a mesma geração que revelou Roberto Justus e similares foi responsável pela rebelião do punk rock. Pesquise as datas de nascimento dos integrantes dos Ramones, do Clash, dos Buzzcocks, dos Sex Pistols, e verão que nasceram na mesma época que nossos conhecidos "refinados" cinquentões.

Mas o pior de tudo é que existem também homens bem mais velhos que a geração Justus-Ghiaroni que, no entanto, são muito mais joviais. O que dizer de Ezequiel Neves e Zé Celso Martinez Correa, até hoje influenciados pela Contracultura? E os próprios Jô Soares, que recebeu o dr. Ghiaroni e Justus em seu programa, e Millôr Fernandes, que prefaciou os livros de Ghiaroni (*)? E o próprio fato de que, entre 1953 e 1955, muitos dos valores "clássicos" absorvidos pela geração Justus-Ghiaroni começaram a ser derrubados pela rebeldia (ainda que sem causa) dos roqueiros da época?

Esse desprezo com os anos 80, a despeito de que o primeiro time do Rock Brasil contemporâneo seja feito por sua própria geração (sim, Evandro Mesquita, Lobão e Roger Rocha Moreira são, para o bem e para o mal, colegas de geração de Roberto Justus, Almir Ghiaroni e outros, colegas do tipo de jogar bola, trocar figurinhas, brincar de bolas de gude, passar a tarde um na casa do outro para bater papo e ler gibis), se deve pelo fato de que a geração Justus-Ghiaroni passou a década de 80 praticamente isolada em seus escritórios e consultórios, a ponto de sacrificarem até seus primeiros casamentos. Roberto Justus escreveu isso em Construindo uma Vida, sua primeira autobiografia profissional.

Com isso, viram a vida passar longe deles. Ao lado deles, sua turma não eram os roqueiros brazucas, os agitadores culturais, os atores teatrais (apesar de Eduardo Menga ter arriscado trabalhar no teatro), mas os empresários, publicitários, oftalmologistas, ginecologistas que, geralmente, eram dez ou vinte anos mais velhos que eles. Almir Ghiaroni já chegou a levar sua Geórgia para o Hollywood Rock de 1993 (o mesmo que teve Nirvana e Red Hot Chili Peppers), mas, depois que ele passou dos 45 anos, passou a adotar um perfil forçosamente refinado, com referenciais antiquados, para se igualar aos colegas de profissão mais velhos já conquistados pelas façanhas profissionais do oftalmologista (há de se reconhecer que a geração Justus-Ghiaroni tem méritos profissionais; no lazer é que eles deixam a desejar no comportamento e conduta).



A LIÇÃO DE FERRIS BUELLER

Certamente Roberto Justus, Almir Ghiaroni, Eduardo Menga, Malcolm Montgomery e outros nunca se interessaram no filme Curtindo a Vida Adoidado. Quando muito, devem considerar o filme uma "crônica simpática" de uma adolescência à qual fingem sorrir, mas parecem querer se livrarem de tudo que significa "juventude", provavelmente dando um leve constrangimento às suas jovens esposas, que, a troco de uma viagem a Roma (cidade-símbolo da sisudez dos cinquentões "refinados", pelos patrimônios bem antigos e história mais antiga ainda), aceitam que seus maridos sejam "coroas autênticos".

Mas o filme, originalmente intitulado Ferris Bueller Day's Off e protagonizado por Matthew Broderick (que os leigos hoje só conhecem vagamente como o marido de Sarah Jessica Parker), fala do plano de um estudante secundarista em filar um dia inteiro de aula para curtir um passeio com sua namorada e com o melhor amigo.

Apesar da aparente molecagem e do filme ser uma comédia hilária, ele traz lições sérias. Como o próprio Millôr é capaz de falar coisas sérias com suas piadas. Curtindo a Vida Adoidado fala da necessidade da busca de prazer na vida. Prazer esse que não se acha em festas de gala, normas de etiqueta, trajes granfinos ou festas com black tie. Estes valores "clássicos" correspondem à submissão do lazer à lógica do ideal técnico, do raciocínio por demais metódico, da racionalidade exagerada. Não por acaso, os homens que aderem a esses ideais se "divertem" nas festas falando sobre trabalho e negócios com os amigos. Tudo isso parece lindo, para muitos, mas não é mais do que uma ilusão.

A lição do filme é que, como a vida aqui é limitada, é preciso que não adie a busca do prazer de viver a vida e se alegrar, simplesmente. Buscar a jovialidade, o verdadeiro caminho para o amadurecimento. É deixar a "racionalidade" do trabalho um pouco de lado, e doar a alma para a diversão, não a diversão compulsiva dos clubbers e outros viciados em agitos noturnos (porque eles não conseguem encontrar o prazer que eles sempre tentam procurar), mas a busca de uma alegria interior e própria.

Os cinquentões de hoje precisam se reinventar. A geração Justus-Ghiaroni se casou com moças jovens e belas (que, como trintonas, estão a anos-luz distantes do perfil trintão de Balzac e daquela música do Luiz Antônio cantada por Miltinho), sem ter se preparado para encarar o estilo de vida delas.

Agora eles terão que se adaptar ao estilo de vida de suas esposas, eles terão que se rejuvenescerem urgentemente, ao invés de evitarem, envergonhados, as colunas sociais, para não "derem de caras" com Thiago Lacerda, Márcio Garcia e outros rapagões de bermudão e tênis, que contrastariam certamente com um Almir Ghiaroni com o "mesmo smoking de sempre".

Parece incômodo fazer mudanças bruscas aos 50, 55 anos. Mas as pressões da vida não determinam idade para acontecer. Principalmente quando se casa com uma mulher mais jovem, as responsabilidades se tornam maiores. Não as responsabilidades de assumir um estilo de vida simbolicamente "maduro" mas lamentavelmente sisudo e constrangedor.

A geração Justus-Ghiaroni precisa rejuvenescer urgentemente. Terão até que guardar os sapatos de verniz (outrora) de toda hora, porque eles estão muitos gastos de uso não somente material, mas também simbólico (são os calçados da sisudez masculina, que mais constrangem do que cativam as pessoas comuns).

Devem eles calçar tênis para ir ao shopping e outros passeios, ou a eventos sociais entre amigos, almoços no Iate Clube ou nas associações profissionais. Ouvir coisas mais jovens, o Rock Brasil de seus contemporâneos, andar com os amigos da idade de suas esposas para trocarem idéias e risadas, sentir o sabor dos sucos de frutas, não repreender demais os filhos mais novos e ouvi-los como um pai convertido em filho de seu próprio filho ouve um filho já adulto convertido em pai do seu próprio pai.

É inútil a geração Justus-Ghiaroni carregar demais na "maturidade". Até porque o garotão Serginho Groisman chegará à esperada maturidade etária, bem antes deles.

(*) Millôr Fernandes também traduziu a letra de "Feedback song for a dying friend" da Legião Urbana, um ícone dos mesmos anos 80 desprezados pela geração de empresários e profissionais liberais hoje na casa dos 50 anos.

PET SHOP BOYS x BON JOVI


Posso garantir, com a maior segurança, que os Pet Shop Boys tem mais atitude rock do que o Bon Jovi.

Os Pet Shop Boys contam com as bênçãos de Bernard Sumner (ex-New Order, ex-Joy Division e atual Bad Lieutenant) e de Johnny Marr, que formaram a dupla Electronic (que contou com o PSB em algumas colaborações).

Só o aval de Johnny Marr é muita coisa, pois Marr é um dos maiores guitarristas da história do rock, e dos anos 80 em particular. Ninguém me disse isso, não vi comentário algum a respeito, mas soube dessa façanha de Johnny Marr através das canções dos Smiths que ouço até hoje.

Quanto ao Bon Jovi, pelo amor de Deus...

Aquilo que certos roqueirinhos aloprados chama de "rockão pesado dos bons" (isso mais de 25 anos depois de Bon Jovi ser sinônimo de "roquinho de maricas") não passa de um metalnejo que só serve para inspirar futuras composições do Zezé Di Camargo.

BAND NEWS FLUMINENSE FM DESESPERADA



Como a Band News Fluminense FM está com audiência miserável (como dissemos, comparável ao da fase pindaíba da Flu FM de 1991-1994), da mesma forma que a CBN FM carioca e, surpresaaaaa, a Infra Rádio Tupi (alcunha da clone da Super Rádio Tupi em FM), sua cúpula está apelando. E olha que se esgota o prazo do primeiro contrato da rede Band News FM com o Grupo Fluminense de Comunicação, a vencer em 2010. E com o empresário Alexandre Torres Amora priorizando mais a Fluminense AM 540.

Recentemente, um telejornal da TV Bandeirantes carioca fez propaganda de um programa da Band News Fluminense FM, com direito ao nome da emissora pronunciado todinho, com a frequência "FM" arranhando os ouvidos (dá para perceber que a sigla FM passou a ser um palavrão para os radiófilos holandeses - não os "radiófilos" chapa-branca, é claro) e a sintonia 94,9 mhz, que era sinônimo de cultura alternativa em outros tempos, pronunciada.

Com uma programação maçante onde longas entrevistas soam como meros serviços telefônicos - quem não entende português pode levar isso como uma ligação de telemarketing - , telejornais sem imagem repetidos ad nauseam e comentários onde se permite até o supérfluo (tipo comentar o penteado de um jogador de futebol europeu ou anunciar a compra, pela Brothers & Cousins, da mega-corporação de entortadores de bananas Banana Torture, com direito a dados das ações da empresa em Cingapura).



Isso quando não há transmissão de corrida de Fórmula 1 pela Band News FM, com direito ao filho do "camisa 12" Galvão Bueno no posto de comentarista.



Não seria melhor alternar notícias mais importantes com algum clássico do rock discriminado pelas rádios? Certamente os 94,9 mhz teriam um índice de audiência realmente mais digno.

OBITUÁRIO DA SEMANA



Farrah Fawcett, atriz. Vítima de câncer.

Michael Jackson, cantor. Vítima de parada cárdio-respiratória.

A reputação, há muito agonizante, do presidente do Congresso Nacional, José Sarney. Vítima da cara-de-pau de um político carreirista.

MC LEONARDO É "LARANJA" DA REDE GLOBO


Foto de uma edição mais antiga do jornal Brasil de Fato

Eu sou de esquerda, mas tenho que admitir, com a frieza de um médico dando seu diagnóstico: A ESQUERDA BRASILEIRA É BURRA E INGÊNUA. Infelizmente é essa a realidade que vemos na mídia de esquerda, que não enxerga as mais sutis armadilhas que a direita arma para caçar esquerdistas deslumbrados e crédulos.

Na Bahia, já explicamos a ingenuidade de marmanjos crescidos como Emiliano José e Oldack Miranda, que acreditavam na "integridade" da Rádio Metrópole FM, enquanto seu proprietário Mário Kertész, direitista até os glóbulos, primeiro enganou a esquerda baiana para depois trai-la de forma violenta. Comendo o pão que o diabo amassou, Oldack e Emiliano "não entendem" por que a citada emissora soteropolitana está agindo assim, com seu dono atacando eles e qualquer esquerdista que esteja na frente do caminho.

No plano nacional, a ingenuidade constrangedora parte não só da revista Caros Amigos, mas agora da revista Brasil de Fato. Na edição recente, lançada em 25 de junho último, a publicação publicou uma notícia de que o "funk é vítima de perseguição", fazendo coro ao marketing da rejeição que faz o ritmo, como modismo, durar mais do que uns três verões. Como entrevistado, vemos a conhecida figura do MC Leonardo, que vende uma pretensa imagem de "militante de esquerda", quando vemos que sua aparição na mídia deve muito, mas muito mesmo, à mídia gorda que essa mídia de esquerda afirma combater com garra.

MC LEONARDO "EXPORTA" RETÓRICA DA MÍDIA GORDA PARA A MÍDIA DE ESQUERDA

Para quem não sabe, MC Leonardo, ao lado de MC Júnior, são responsáveis pelo patético sucesso "Rap das Armas", do tempo em que o "funk carioca" não tinha o "tamborzão", mas a batida do "pum", e "rap" era um rótulo para paródias de cantiga de roda feitas em karaokês dos chamados "bailes funk". Só depois de Gabriel O Pensador - apesar de Thaíde & DJ Hum já defenderem o verdadeiro rap desde os anos 80 - , o rap deixou de ser erroneamente ligado a essa "ciranda-cirandinha" funkeira.

Ainda para quem não sabe e nem quer saber, MC Leonardo foi relançado na mídia através de um filme produzido pelas Organizações Globo, e "Rap das Armas", se não foi apresentado no Domingão do Faustão, apareceu em outros programas da Rede Globo, inclusive o Fantástico, símbolo maior do showrnalismo da mídia gorda, obesa e popozuda.

Na prática, MC Leonardo tornou-se, mesmo indiretamente, um colaborador decisivo para a hegemonia da Rede Globo no Brasil, já que defendem, o funkeiro e a rede de televisão, o mesmo ritmo, a mesma causa "social", as mesmas apologias da mediocridade musical brasileira sob os mesmos pretextos.

Depois que ativistas como MV Bill passaram a ter voz na mídia, além da atuação das rádios comunitárias das favelas, MC Leonardo pegou caronana onda e criou até uma "associação de funkeiros", como se o lamentável ritmo carioca, menina dos olhos da mídia gorda, tivesse alguma "relevância social". Essa obsessão socializante do "funk" faz até a ridícula Valesca Popozuda posar de militante, transformando os movimentos sociais numa grande piada. Piada totalmente sem graça, que ofende os verdadeiros militantes sociais, que não têm a ver com balanços de popozões.

MC Leonardo, assim como os políticos do PSOL que querem transformar o "funk" em "patrimônio cultural", na verdade estão a serviço de empresários de equipes de som que se enriqueceram com esse discurso hipócrita e pseudo-militante. Eles é que inventaram o "funk" e esse mito todo de que o "funk" é "voz das periferias" é pura mentira, pois surgiu a partir de karaokês e de ídolos fabricados do ritmo, tutelados, a preço de ouro, por esses mesmos empresários (que em boa parte são também DJs).

Além disso, o discurso de MC Leonardo é RIGOROSAMENTE O MESMO discurso que os próprios cadernos culturais da Folha de São Paulo e O Globo faziam sobre o "funk". Exatamente o mesmo, sem tirar nem pôr.

É um discurso vago, que não deixa claro se o favelado quer segurança ou não. Um discurso que a juventude burguesa pseudo-esquerdista adora, porque assim pode comprar sua "merenda" livremente nos "postos de vendas" dos subúrbios. MC Leonardo tenta comover as massas dizendo que o "funk" sofre "perseguição" e que a repressão aos "bailes funk" atinge "qualquer um".

Na nota publicada em Brasil de Fato, MC Leonardo alega que a polícia invade até a casa de quem toca "funk" ou multa quem coloca um CD de "funk" para tocar no carro. Essa choradeira é para permitir, no entanto, que clubes e boates suburbanas façam poluição sonora para garantir assim o faturamento desses empresários que controlam o gênero e seus "artistas". Esses empresários querem o rótulo de "patrimônio cultural" para o "funk" para que possam arrancar verbas públicas do Estado e assim enriquecerem cada vez mais.

MÍDIA DE ESQUERDA NÃO ENTENDE SITUAÇÃO DA MÚSICA NO BRASIL

Infelizmente o perfil dominante do jornalista de esquerda não entende de música. Segue os mesmos clichês ditados pelos "líderes de opinião" (ou seja, jornalistas "dissidentes" ou blogueiros badalados que, embora critiquem a mídia reacionária, quase nada fazem para mudar o establishment midiático e cultural do país), embora se encorajem, num momento ou em outro, de denunciarem a opressão reacionária dos capitalistas mais intransigentes. Mas que, na Bahia, se ajoelham defronte à demagogia midiática da Rádio Metrópole, a troco de uma visibilidade fácil, ignorando o perfil direitista da dita cuja.

O jornalista de esquerda entende de campesinato, sindicalismo, movimento estudantil, história política. Mas mal sabe ler Karl Marx. E mal consegue se lembrar dos Centros Populares de Cultura da UNE, movimento esquerdista, hoje injustiçado, que queria renovar a cultura popular de raiz no Brasil. Os CPC's foram acusados, injustamente, de diluir a cultura popular sob um prisma etnocentrista, acusação que, na verdade, procede mesmo nos latifundiários e empresários de diversos setores que investiram em toda uma música brega e neo-brega feita nos últimos 50 anos, de Waldick Soriano ao MC Créu, sem excluir Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Banda Calypso e Fábio Jr.

Mal sabe, no entanto, esse jornalista tão "engajado", que o ideal cepecista foi herdado por ONG's que ensinam música brasileira de verdade para as crianças das favelas, com o intuito de, aos poucos, desviá-las das armadilhas sedutoras do "funk". As ONG's não dizem para as crianças "não ouçam 'funk'", como também não dizem "não ouçam Exaltasamba e Alexandre Pires" ou "não ouçam Bruno & Marrone e Calcinha Preta", mas a criança que aprendeu a música de Villa-Lobos, Jacob do Bandolin, Jackson do Pandeiro, Pixinguinha e Chiquinha Gonzaga vai ver a diferença entre um Ataulfo Alves e um Alexandre Pires e vai rejeitar este último, por ser brega e sem qualidade artística alguma. Assim como vai descartar o "funk carioca" por achá-lo ridículo e metido demais.

Mas isso a mídia de esquerda não fala.

Lendo os textos sobre "funk" do Brasil de Fato e Caros Amigos, muito provavelmente o colunista de Veja, Reinaldo Azevedo, se divertiria dando muitas gargalhadas. "Essa galera deve ver o mexer de glúteos como dança folclórica etnográfica", talvez comente a um colega.