domingo, 7 de junho de 2009

"MASSACRE CULTURAL SEM PRECEDENTES" : TEXTO CONTRA BREGA-POPULARESCO FAZ 10 ANOS


Hoje, 07 de junho de 2009, faz dez anos da publicação de um texto polêmico, tido como "apocalíptico" numa época em que até as antigas vozes críticas à mídia, política e entretenimento, se tornam hoje pálidas vozes que se deslumbram com qualquer absurdo muitas vezes pior do que os males que tais vozes criticavam.

Este texto, que previa o auge da hegemonia brega-popularesca da hoje conhecida Música de Cabresto Brasileira, foi publicado no jornal conservador O Estado de São Paulo, mas numa época em que as editorias culturais gozavam de grande autonomia. Mesmo nos veículos conservadores, criticava-se os males do establishment popularesco, numa visão que é bem próxima da esquerda e dos debates que eram provocados pela geração cepecista dos anos 60. Por isso, seja pela equipe da Bizz, seja por pessoas como Ruy Castro (Estadão), Arnaldo Jabor (O Globo), entre tantos outros, a baixaria brega-popularesca, hoje vista por muitos como se fosse "coisa natural" e até "de nível" (pasmem!), era livremente criticada. Seus ecos atingiam até a MTV, quando Marcos Mion baixava a lenha em nomes como É O Tchan, Zezé Di Camargo & Luciano e Grupo Molejo no programa Piores Clipes do Mundo.

Só que essas críticas representaram prejuízo irrecuperável para a primeira fase da hegemonia brega-popularesca. Hoje, a mídia tenta dar a impressão que nomes como Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Chiclete Com Banana e É O Tchan não estão decadentes, mas eles não conseguem, apesar dos fanáticos, ter o mesmo sucesso de antes. Os chefes da mídia gorda e mídia fofa apertaram o controle nas editorias culturais e fizeram até seus jornalistas virarem a casaca. Assim, se Arthur Dapieve, de O Globo, baixava a lenha no Exaltasamba no texto "MTVBunda", da mesma época do "Massacre..." que leremos abaixo, o mesmo jornalista tornou-se, anos depois, condescendente com Tati Quebra-Barraco, nome tão popularesco quanto o Exaltasamba e até mais grotesco ainda (!)...

As vozes críticas se calaram, com a mesma proporção que vieram outras vozes obedientes da "mídia gorda" apostando no marketing da rejeição - tentam convencer que os ídolos brega-popularescos foram "vítimas de preconceito" - , com argumentos tão "carneirinhos" quanto os ídolos que defendem.

Quem está acostumado a ler textos "positivos" sobre "funk", axé-music, sambrega, breganejo, oxente-music, porno-pagode e outros estilos e acabou de ver os filmes sobre Waldick Soriano, Zezé Di Camargo & Luciano e as funkeiras cariocas, certamente pode ter um ataque cardíaco se ler o texto a seguir, escrito pelo jornalista Mauro Dias. Vamos a este texto, que surpreende por sua contundente atualidade:

O MASSACRE CULTURAL SEM PRECEDENTES

O velho jabá revela-se cada vez mais perverso, impedindo que a melhor arte chegue ao público.

MAURO DIAS - O Estado de São Paulo - 07.06.1999

A música brasileira entrou, nos anos 90, num impressionante processo de decadência. Errado. A música brasileira continua boa como sempre. Há grandes compositores, cantores, instrumentistas. Tentam atuar. Não têm onde. Tentam viver da música - tolice. São dentistas, fiscais do INNSS, professores, motoristas de táxi, balconistas, colunistas de jornais - essas atividades garantem a sobrevivência. Tomam tempo - a criação artística, que é a atividade principal (estamos falando de artistas), acaba sendo deixada para as horas possíveis.

A música brasileira que toca nos rádios, na televisão, nos grandes palcos, nos estádios, nas festas de São João, no carnaval, nas convenções de criadores de gado é que está em decadência. É só ela que aparece. A outra música, a boa, existe, mas não aparece. A culpa é dos radialistas, dos que montam trilhas sonoras de televisão, dos executivos de gravadoras, dos produtores de discos e espetáculos, dos marqueteiros da indústria de entretenimento. Essa gente criminosa está transformando, conscientemente, coração em tripa. É responsável pela seleção do que você ouve e deixa de ouvir. Essa gente está assassinando o que há de mais rico em nossa produção cultural. E ganhando muito, muito, muito dinheiro.

É essa a idéia. Ganhar dinheiro, e dane-se o resto. Um disco, na indústria, não é chamado de disco, mas de “produto”. O produto precisa vender. Para que o produto venda, precisa ser exibido. Até agora, apenas regra de mercado, nada demais. No entanto, para que seja exibido, paga-se ao exibidor - ao programador de rádio, ao apresentador de programa de auditório televisivo. Como são muitos, os produtos, sobe o cachê do exibidor. É uma prática antiga, tem até nome: jabá. Paga-se o jabá para que a música toque, sempre foi assim. Mas o mecanismo perverso foi ficando mais perverso. Quem pode pagar mais, consegue maior número de execuções. Isso é reproduzido no País inteiro.Quem pode pagar mais, escolhe o que você vai ouvir. E você fica achando que é só aquilo que se produz de música. Porque é só aquilo que está ao seu alcance. Quem não paga, não toca. Não existe.

Há alguns dias, uma igreja evangélica comprou a rádio FM Musical, de São Paulo, capital. Era uma rádio que só tocava música brasileira. Praticava o jabá, como todas, mas como a audiência era menor, o preço era menor. O que permitia o acesso às ondas sonoras a alguns artistas menos conhecidos - os tais que são dentistas ou fiscais do INSS. Às vezes até sem pagamento de jabá programava a execução deles. Misturava um pouco de “música de mercado” e de música de verdade. Talvez por isso não tenha resistido. Há práticas alternativas de jabá. Um famoso letrista fez um disco independente, comemorativo de tantos anos de idade e de carreira. Armou pequeno esquema, alternativo, de distribuição do disco. Fiou-se, talvez, no nome famoso. Ouviu dos intermediários dos programadores de várias rádios: “Dá um aparelho de fax para ele que ele toca seu disco”.

O retorno do investimento dos que pagam mesmo o jabá, o dinheiro alto, sai da venda de discos e shows, da venda de bonecos, camisetas, roupinhas para crianças, sorvetes, biscoitos, bicicletas, roupinhas para crianças, sandálias, lancheirinhas, pegadores de cabelo, batons, perfumes, roupas de cama e banho, coleções de lápis de cor ou o que se possa imaginar que possa ter estampada a marca do “ídolo”. O “ídolo”, por seu turno, cumpre a maratona de estar presente em todos os programas televisivos de auditório, garantindo audiência que vende os anúncios que sustentam os programas e fazendo a roda rodar, o preço subir. A presença do “ídolo” pode mesmo ser indireta: o apresentador Raul Gil, da TV Record, prepara novos consumidores de bunda-music promovendo concurso de imitação do rebolado da Carla Perez, ex-É O Tchan. As candidatas têm 5, 6, 7 anos de idade.

Não há questão moral a ser considerada. O negócio é dinheiro. O bom compositor, cantor, instrumentista vai ter de se submeter a determinados imperativos ditados pelos que pagam a execução) ou fica de fora. Quem não entrar no esquema não aparece. Quem quer entrar no sistema precisa ter muito dinheiro - precisa pagar mais ainda, porque as “vagas” são limitadas. Se entra um, sai outro. Por isso existem as vogas, as ondas - um ano de música sertaneja (sic*), um ano de axé music, um ano de falsas loiras bundudas, um ano de pagodeiros de butique, um ano de forró deformado (é o que se anuncia: preparem-se**). E o preço vai subindo, a cada nova etapa da substituição.

Só quem entra no esquema, claro, é a grande indústria, que tem o dinheiro - e que inventou o esquema, afinal. No início da década (de 90), o compositor Ivan Lins, com seu parceiro Vítor Martins, fundaram a gravadora Velas, para dar voz a uma quantidade imensa de músicos que eles conheciam, mas que estavam fora do mercado. Nomes como os de Edu Lobo, Fátima Guedes, Almir Sater, Pena Branca & Xavantinho, Guinga. Aliás, o primeiro disco da gravadora foi o primeiro disco de Guinga. A Velas tinha uma proposta musical alternativa ao padrão imposto pela grande indústria. Montou estrutura, divulgação e distribuição nacionais. O vendedor da Velas ia ao lojista oferecer o produto. Ouvia: “Quero, mas não vou pagar agora, pago se vender”. Três meses depois, voltava o vendedor, para oferecer novo produto e cobrar o outro - que havia sido vendido. Ouvia: “Quero o novo, mas não pago o antigo, porque tenho que pagar à multinacional Tal, ou ela não me entrega a dupla sertaneja (sic) Qual & Pau”.

Acontece que a dupla sertaneja (sic) Qual & Pau (pense na que quiser: Leonardos, Chitãozinhos, ou substitua dupla sertaneja (sic) por grupo de pagode ou por banda de axé) tem música na trilha da novela, paga para tocar em todos os programas de auditório e em todas as rádios - como o lojista pode ficar sem a dupla? Então, o lojista paga a gravadora que tem sob contrato a dupla sertaneja (sic) e não paga nunca a Velas, que tem o Edu Lobo (que infelizmente não tem música em novela nem toca em programa de auditório, muito menos no rádio). Perda por perda, o vendedor da Velas deixa o novo disco, sem receber pelo antigo - e assim a coisa seguiu. Em algum tempo, a Velas faliu. Está, no momento, porque os sócios são loucos idealistas, tentando voltar ao mercado.

Ou seja, estamos falando de economia, de lobbys, de pressões, não de música. Disco é negócio, todos sabemos. Precisa pagar-se, dar lucro. A questão é que os executivos do mundo do disco concluíram que o povo é burro e só vai consumir música burra. Então, o executivo da fábrica X inventa um grupo de pagode, paga para que ele apareça muito, etc.. O da fábrica Y diz “Este filão dá certo, eu vou nele”, e inventa um grupo de pagode que imita aquele primeiro. É só o que eles fazem. Clonam-se uns aos outros. Se o Chico Buarque fosse bater à porta de uma gravadora, hoje (Chico sabe disso, já disse que sabe disso), ouviria que sua música é “difícil” e não se enquadra nos “padrões da companhia”. O mesmo com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Edu Lobo, Tom Jobim, Noel Rosa, Zeca Pagodinho, Cartola, Nelson Cavaquinho, Wagner Tiso: todos “difíceis”, fora do padrão.

Claro: é preciso contratar o pagodeiro barato porque ele é orientável. Faça isso, faça aquilo, cante assim, vista-se assado, vá ao programa tal, diga tal coisa, mexa as cadeiras desse modo - e, sobretudo, não faça música. Ninguém trataria assim o Chico Buarque - e já que ele não pode ser tratado assim, como coisa, como objeto, como ponta-de-lança de uma campanha de vendas, então afaste-se o Chico Buarque. Ele é “difícil”.

Enquanto isso, o ouvinte vai acostumando o ouvido com as barbaridades criadas nos laboratórios de Marketing das companhias de disco - padres cantores, traseiros cantores, sadomasoquistas cantores, falsas louras cantoras, negões vitaminados cantores. E perde a capacidade de comparar - comparar o quê? O padre cantor com o traseiro cantor? Não há diferença. O ouvinte fica sem possibilidade de julgar (Na verdade, ele pensa que está escolhendo o grupo pagodeiro tal, quando, de fato, só sobrou para ele o grupo pagodeiro tal). E os criadores… bem, os criadores, os artistas verdadeiros, que existem, mas quase ninguém sabe, vão resistindo, o quanto podem. Um dia desistem - os novos Chicos e Caetanos, as novas Elis Reginas e Nanas Caymmis, os novos Jobins e Fátimas Guedes um dia desistirão. Precisam comer, vestir-se, sustentar filhos. A ganância dos executivos está promovendo um massacre da cultura brasileira que talvez não tenha similar na história da humanidade. Estão matando de fome o que temos de mais rico - nossa música. Matando de fome a inteligência e a sensibilidade. A faxina ética do Kosovo perde.