quinta-feira, 14 de maio de 2009

"BALADA" - A GÍRIA DA MÍDIA GORDA


Não sou contra gírias e sei que elas fazem parte da vida social humana. Também não sou contra gírias mudarem contra o tempo, afinal elas movem com a vida. O que sou contra, porém, é gíria sem a menor serventia social, que mostra todo seu jeito de gíria artificialmente criada por gente "lá de cima" (leia-se executivos da mídia gorda).

Existe, nos últimos anos, uma gíria inventada pela grande mídia que no entanto não quer ter vida de gíria (dessas que nascem, crescem e morrem em pouco tempo, conforme a vontade popular), mas se impõe como se fosse "verbete sério". Essa gíria, arrogantemente, não queria se vincular a uma "tribo", queria ser de todos, queria ser a gíria do Terceiro Reich, feito uma praga vitalícia.

Além disso, é uma gíria que não se explica, não se justifica, não tem relevância, mas se impõe aos jovens como qualquer diretora crápula de colégio interno reacionário e fascista impõe. Mas, como veneno dado pelas colheradas da mídia tem gosto doce...

Essa gíria se chama BALADA, com o sentido dado a "agito noturno" ou, em tese, a qualquer festa realizada numa boate. "Qualquer festa", em tese, porque do contrário que a mídia gorda, verdadeira dona desse verbete coloquial, tanto prega, "balada" não é qualquer festa, mas um tipo de festa que os chamados clubbers tanto frequentam.

Falaram que havia "baladas" na noite dos anos 80. Mentira. O que tinham eram danceterias e remanescentes de festas antigas, como gafieiras, quermesses, bailes de debutantes etc.. Falaram que havia "baladas" de todo estilo musical. Mentira. As chamadas "baladas" se limitam a ser festas cuja figura central é o DJ, mas num contexto de culto à personalidade dado a ele, e sua trilha sonora é o pop dançante convencional, indo do "funk carioca" ao trance ou lounge, mas não indo além desse universo poperó.

Recebi até e-mail de carinha fazendo propaganda de "balada" de punk rock. Mandei outro e-mail dando uma bronca nele, porque ele é fã de um estilo que não se vende ao establishment e por isso nunca adotaria gírias clubber como "balada". O cara não mais repetiu a dose, deve ter se mancado.

ESTUPIDEZ

A gíria "balada" é o que há de mais estúpido no colóquio juvenil. Isso porque uma gíria de verdade tem sua razão de ser e seus motivos, e "balada" não tem motivo algum. Mesmo as possíveis suposições quanto ao porque da gíria são duvidosas e bastante vagas. Algumas dessas suposições:

DERIVATIVO DA GÍRIA "BALA" - Nos anos 90, correu uma gíria chamada "bala" que é algo como a versão brasileira da gíria sure shot, que ao pé da letra significa "tiro certo". Mas ninguém chamaria de "balada" uma festa marcada pelo imprevisível, onde incertezas como se a pessoa vai sobreviver a uma embriaguez ou vai conquistar a garota de sua vida ou não acontecem. Além disso, quando a gíria "balada" foi lançada, a gíria "bala" havia caído em desuso. Suposição dificilmente provável.

CORRUPTELA DA EXPRESSÃO "BADALA" - Muito estranha esta suposição, porque não se observou algum interesse do pessoal diminuir a palavra "badalação" por "badala". Também ninguém trocaria "pedalação" por "pedala". Suposição dificilmente provável.

PRONÚNCIA TROPEÇADA DA PALAVRA "BADALADA" - Não, porque se fosse considerada "badalada", então toda festa teria terminado à meia-noite, seguindo o conto da Cinderela. Mas o pessoal da "noite" quer curtir seus agitos até, pelo menos, às três da manhã. E não parece que a expressão "badalada" fosse atraente para os clubbers atuais. Suposição também dificilmente provável.

A gíria não tem serventia alguma, e o pior é que ela está em voga na mídia há dez anos, esperando algum lugar no Aurélio. Pura arrogância. A gíria é humilde, quando é para terminar, terminou. Mas a gíria "balada" não quer cair em desuso, mas pelo menos teve que reconhecer que não é a "gíria universal da juventude brasileira", se exilando nos sites de celebridades e no vazio dos agitos clubbers contemporâneos. Uma gíria tão vazia quanto o pessoal do Big Brother Brasil.

ORIGEM

Na verdade, a gíria "balada" foi lançada numa reunião entre empresários das boates noturnas, disc-jóqueis, radialistas e executivos de FMs jovens e publicitários. Isso foi em 1999. Provavelmente um deles lançou a gíria "balada" porque foi a primeira palavra que veio em sua mente, a partir do seguinte raciocínio:

- Até que ponto a mídia gorda dedicada ao público juvenil pode influenciá-lo?

- Se, ao ser lançada e difundida uma gíria artificialmente criada, até que ponto ela pode ser tomada como se fosse o "símbolo" de uma geração?

- Até que ponto essa gíria pode ser considerada de uma "tribo" ou se expandir para várias "tribos", garantindo o controle da mídia gorda entre os jovens?

Uma coisa é certa. A gíria "balada", pelo seu comportamento como expressão coloquial, não tem a menor serventia social, porque não quer ter a breve vida das gírias nem a relativa representação de uma "tribo". Queria ser "a gíria de todos", mas teve que se contentar com a mídia bocó. Queria ser "a gíria de todos os tempos" e agoniza dentro da mídia fofoqueira ou clubber, ou de toda mídia do mau gosto e da imbecilização gratuita.

Quando se fala de "balada", se pensa logo em som poperó, em curtição compulsiva, em fofocas, Big Brother Brasil, mulheres-frutas, Jovem Pan 2, Caldeirão do Huck e outros símbolos do vazio despejado ao público juvenil.

"I GO TO THE PARTIES WITH MY FRIENDS"

Enquanto os jovens alienados do Brasil falam "vô pra balada com a galera" (sem escrúpulos para converter "com a galera" no cacófato "c'a galera"), os jovens dos EUA e Reino Unido, muitíssimo mais informados e modernos que os brasileiros, ainda investem no tradicional "I go to the parties with my friends", que, traduzindo, significa, em alto e bom som, "Eu vou para as festas com meus amigos".

Sem graça, não é mesmo? Eu não acho.

O que diferencia o pessoal estrangeiro do brasileiro é que o jovem convencional brasileiro, com medo de ter boas idéias - até porque mesmo os mais burgueses contam com uma escolaridade defeituosa e uma formação midiática rasteira - , tenta se prevalecer com um vocabulário desesperadamente coloquial, além de escrever muito mal no computador e sobretudo no telefone celular. Escreve tão mal que eu mesmo não consigo entender o que eles dizem. Eles devem falar o dialeto imbecilês, muito novo aqui no Brasil.

Uma vez, eu vi no canal SIC, da televisão portuguesa, um programa em que pessoas aparecem contando, cada uma, alguma piada. Pois apareceu uma moça, bem bonita por sinal, que fez uma piada sobre brasileiros. Ela ridicularizava a obsessão dos brasileiros pelas gírias. Certamente a arrogância dos midiotas brasileiros vai insistir que essa piada "num tem nada haver", mas a verdade é essa mesma. E, como disse o Sting, "a verdade machuca todo mundo".

Até as modelos brasileiras, há oito anos atrás, abusavam dos colóquios, dizem coisas como "aí, quando cê (você, na edição da entrevista) vai pra balada c'a (com a, na edição) galera, você está bombando geral". Aí, pegou muito, muito mal, principalmente porque várias modelos brasileiras trabalham para a agência Victoria's Secret e são observadas por muita gente boa do mundo inteiro. Por isso, as modelos de carreira internacional maneiravam o discurso, passando a falar melhor (e trocando "balada" por "festa", "galera" por "pessoal", "família", "equipe" etc.), e as modelos de carreira nacional passaram a fazer o mesmo.

Por isso a gíria "balada" sofreu uma boa derrota, apesar da insistência dos sites de celebridades e da mídia gorda teen. Virou gíria de mauricinho, patricinha, mulher-fruta, BBB, junkie, pitboy e outros tipos da fauna imbecilizada de nosso país.

O JABACULÊ DE RÁDIO FM MUDOU!!


Coitados dos chamados "líderes de opinião", esses que fazem coquetel para lançar um simples blog e são festejados pela mesma mídia gorda que tais "líderes" dizem odiar. Tão pretensamente atualizados, tão arrogantemente tidos como "sensatos", tão vaidosamente informados (só que pelas mesmas fontes da mídia gorda que dizem odiar), eles estão parados no tempo em relação a determinados assuntos, e mais congelados do que homem das cavernas fossilizado (pelo menos o organismo deste se ajusta com o passar do tempo).

Quanto ao jabaculê do rádio FM, a abordagem "crítica" deles está defasada em 25 anos. Sim, meus amigos, 25 anos!! Duas décadas e meia!! As mesmas questões de 1984, quando o Brasil ainda era governado por militares e não existia Internet!!

Contam eles que o jabaculê consiste tão somente numa transação secreta entre gravadora e rádio FM para veicular uma música. Uns, mais "corajosos", admitem haver jabaculê na imprensa escrita ou na TV. E, quanto ao culpado do jabaculê, uns atribuem à mundial ganância da indústria fonográfica multinacional, enquanto outros atribuem ao cinismo de certos diretores de rádio FM.

Quanto à Aemização das FMs, uma das maiores e mais ferozes armações da mídia gorda brasileira, todos ignoram veementemente que haja jabaculê. Algum tendenciosismo aqui ou acolá uns chegam a admitir, mas no geral os radialistas das chamadas "rádios AM em FM" são, segundo eles, todos uns "santos".

Pois a Aemização das FMs virou, pasmem, o paraíso astral do jabaculê, a ponto de fazer com que o jabaculê "tradicional", aquele que só envolve música, rádio e gravadora, parecesse troca de figurinhas entre crianças pequenas.

FUTEBOL DOMINA O CARDÁPIO JABAZEIRO

O jabaculê de FM versão Século XXI pouco tem a ver com o universo do dó-re-mi-fá-sol-lá-si. Envolve a chamada "informação" - no sentido mercadológico explicitamente definido pela Folha de São Paulo em seu manual de redação - e sua versão-sobremesa, as "jornadas esportivas", que dependendo do contexto são "entretenimento" (da forma como define a mídia gorda) e "informação" (se levarmos em conta que também são consideradas "radiojornalismo" - ou rádioshowrnalismo).

Mas, se no noticiário "de efiême" o jabaculê é mais sutil, como a interferência de anunciantes e até personalidades políticas na linha editorial de tais emissoras, que pouco causam arranhões na conduta verossímil de tais emissoras, nas "jornadas esportivas" o jabaculê entra mais nos estúdios de FM do que deslizamento de terra nas casas dos morros em dias de chuva.

Na maioria dos casos, a transação ocorre entre o diretor de FM e o representante de uma federação regional de futebol. Às vezes locutores esportivos e equipes desconhecem esta transação, que ocorre nos bastidores da cúpula, mas mesmo assim eles recebem o "jabá" camuflado num adicional de salário.

O jabaculê pode ocorrer em duas mãos. Se o dirigente esportivo enriqueceu demais e o IR está de olho, passa o excedente para o diretor de FM. Noutra oportunidade, este pode também passar o dinheiro arrecadado pela FM (seja por qualquer jabá, seja pela publicidade, e no jabá até a indústria fonográfica, pasmem, paga o "salário extra" das equipes esportivas) para o dirigente esportivo, para criar "camaradagem".

Há também o caso dos "ouvintes de aluguel", um caso gravíssimo que camufla a baixa audiência dessas FMs sem identidade que parasitam o mercado suado das emissoras AM. É claro que essa fraude é um pouco mais cautelosa em São Paulo, mas em outras cidades, como Salvador (BA) - onde o rádio FM, salvo exceções*, tem o 171 como número da sorte - , os diretores e produtores de FM pagam mesmo pessoas para sintonizar as rádios FM durante transmissões esportivas, apelando para a poluição sonora, marketing informal dessas FMs corruptas sem pé nem cabeça.

Por exemplo, um redator-chefe de FM pode, no boteco mais movimentado de um bairro periférico de tal capital, subornar o dono que está ao balcão para ele sintonizar a tal FM durante transmissão esportiva. O dono, claro, a princípio nega, alegando que não precisa de dinheiro e que a poluição sonora vai incomodar a vizinhança. Mas o profissional de FM logo convence o dono do boteco, alegando que o radialista é amigo do pessoal da imprensa escrita e que ninguém vai falar mal da tal poluição sonora, tudo a pretexto do "radiojornalismo" e da "paixão esportiva". E oferece uma quantia que pode ser às vezes modesta, quando é para pagar apenas contas de água e de luz, ou, maiores, quando é para pagar todo o fornecimento mensal de bebidas para o boteco.

Há também casos de produtores e amigos de produtores que rodam com carros atraentes - ainda que semi-novos - , mediante uma "gorjeta amiga", para sintonizar as transmissões esportivas em volumes insuportáveis. Estacionam até, por intenções suspeitas, em estacionamentos vazios de supermercados fechados, ou então vão a acessos dos shopping centers em horários de movimento nos finais de semana. Em outros casos, subornam-se taxistas, frentistas de postos, porteiros de prédios, e até mesmo lojas de varejo e atacado ou papelarias, mediante um abatimento no espaço publicitário de FMs, aderem a esse jabaculê "amigo".

As quantias movimentadas pelo jabaculê das "rádios AM em FM" é bem maior que a movida outrora pelo jabaculê musical. E não há quantia para dar ao ECAD. As FMs envolvidas enriquecem feito doido a essas alturas.

E a "nação bem informada" afirmando que não existe jabaculê...

* As exceções das FMs soteropolitanas são as emissoras A Tarde, Educadora e Nova Brasil, que, se cometem jabaculê, é em índices bem menores que as demais FMs.