domingo, 3 de maio de 2009

NADA DE FLORES


Tantas mulheres classudas, inteligentes e belíssimas, são casadas. A maioria esmagadora delas tem marido. No Brasil, parece que mulher que seja ao mesmo tempo linda e solteira e também inteligente e não-vulgar é, infelizmente, uma espécie em extinção.

Enquanto isso, sobram as ex-dançarinas de pagode metidas a atrizes ou apresentadoras de TV, as mulheres-frutas, as marias-coitadas que ora rezam, ora sonham com o Fábio Jr., Alexandre Pires, Zezé Di Camargo e até com o finado Waldick, que aparentemente não conseguem encontrar um marido. Aparentemente, porque se elas forem para a região Centro-Oeste, dificilmente sairiam de lá sem marido, só saindo se elas forem turronas com fazendeiros e capatazes que são feitos sob medida para elas.

Não sei o que é pior. Uma jornalista belíssima da televisão que pronuncia numa entrevista para uma revista de entretenimento a palavra "meu marido" ou uma maria-coitada que sonha tanto com o Fábio Jr. mas dá o fora no sósia do mesmo cantor que a pede em casamento. Essas mulheres devem ficar é com eles, não com rapazes simples como eu e você, leitor que por ventura se parece um pouco comigo.

Por isso os dias correm frios, e não há flores no jardim nem no bosque.

CRISE DO RADIALISMO ROCK - I


A crise do radialismo rock no Brasil se deu mais cedo do que as pessoas imaginam. Costuma-se dizer, oficialmente, que a crise das rádios de rock se deu a partir de 1995, quando as emissoras dedicadas ao estilo estavam indiferentes a tendências e grupos de rock que faziam sucesso no circuito alternativo ou mesmo no mainstream do Primeiro Mundo.

Mas a crise veio a partir de 1985. Enquanto a Rádio Fluminense FM, de Niterói (RJ), uma das pioneiras no segmento, vivia uma crise financeira que inviabilizava um projeto de rede nacional, rádios pop convencionais como Cidade e Transamérica passaram a tocar o mais manjado do rock nacional e do rock dos EUA e Reino Unido, além de praticamente comprar os principais profissionais da rádio. O oportunismo, que rendeu às duas rádios programas roqueiros corretos mas falhos (a locução em cima das músicas é uma dessas falhas), serviu para a criação da rádio 89 FM que, apesar de muito badalada pela mídia, pertenceu à segunda divisão das rádios dedicadas ao rock no país.

A 89 FM surgiu como uma "rádio alternativa" mais pop. Sua inspiração clara era a MTV e o radialismo rock norte-americano, que deixava de ser culturalmente abrangente para ser mais pragmático, dentro das facilidades do discurso pop. Além disso, a 89 FM era uma rádio de disco music, a Pool FM, e quando surgiu veio para aproveitar os louros do Rock In Rio I, evento que não era só de rock mas tinha o estilo como carro-chefe.

A 89 FM foi muito superestimada pela crítica paulista, porque apresentava um elemento inédito: era uma tentativa de fazer programação alternativa com suporte de rádio comercial. Apesar da rádio ter carregado cerca de 21 anos a "postura" rock, seu projeto original durou poucos anos, pois já em 1987 o projeto dito "anti-rádio" (na prática uma imitação, por locutores vindos da Rádio Cidade paulista, do que a Flu FM era em 1985) começava a perder o fôlego, rendendo até críticas de leitores na seção de cartaz da BIZZ.

A superestima se deu porque a 89 FM ficou famosa por tocar Frank Zappa, Violent Femmes, Violeta de Outono, Fellini e similares o tempo todo. Puro mito. No grosso, mesmo, a 89 FM tocava Lulu Santos, Eurythimics, Billy Idol e Oingo Boingo, a parte "alternativa" rolava geralmente de noite, horário em que os críticos musicais costumam ligar o rádio. Numa época sem Internet, o pessoal de todo o país vibrava quando o colunista da Folha de São Paulo ou O Globo falava que a 89 FM havia tocado "de bandeja" Killing Joke, Lou Reed, Lloyd Cole and The Commotions e Smack (banda de Edgard Scandurra, recém-retomada), sem dizer, é claro, se era programação normal ou algum programa noturno, pois o horário noturno permitia coisas "mais difíceis".

A 89 FM não era tão ousada quanto a Fluminense FM de 1985-1986. Era até menos. A Fluminense FM cometia erros, como tocar soft pop na programação (muitos reclamavam da inclusão de Sade, Simply Red e A-ha no playlist), mas mesmo assim, com toda a crise financeira, seus acertos continuavam prevalecendo. A Flu tinha coragem de tocar Weather Prophets na programação normal com frequência de um quase hit, mesmo sem promessa alguma da banda inglesa ser lançada no Brasil. A 89 FM, com muito menos frequência, só tocou Plasticland (grupo dos anos 80 inspirado nos Seeds) porque a RGE havia garantido lançar o grupo no Brasil.

Em 1987, a 89 FM não só deixava de tocar os discos da Baratos Afins - deixando vazar que exigia alguma taxa de divulgação dos discos - como colocava nos microfones locutores que eram imitações baratas dos locutores da Rádio Cidade carioca de 1977. Ficava estranho caras com aquela fala de pretensos gostosões anunciarem até Inocentes e Sonic Youth. Mas, enquanto a 89 FM declinava em qualidade, a rádio, pelas boas relações que seus donos (dois filhos do empresário José Camargo) com a grande mídia e a política.

Os irmãos Júnior e Neneto Camargo apoiaram Fernando Collor, e a Editora Abril e a Folha de São Paulo atuaram como protetoras da rádio, procurando minimizar os efeitos do descontentamento de muitos alternativos, desiludidos com os rumos da 89 FM. Como morta-viva, a rádio carregou durante muito tempo o rótulo "rock" e, entre seus erros, estava em ter uma equipe de produtores temperamentais, que se irritavam à menor crítica. Muita gente que ligava o telefone falando que a 89 não era mais "rádio rock" recebia uma resposta mal-educada de um produtor irritadiço, desses que confundem rebeldia com pavio curto.

Com isso, a fórmula de "rádio rock" que propagou pelo país não foi a fórmula original da Fluminense, restrita aos Estados do Sul e Sudeste, mas o da 89 FM já diluída em 1988, num formato esquizofrênico, que às vezes botava um nome pop camuflado no playlist.

Isso criou uma situação tragicômica, fazendo com que muitas rádios pop ou popularescas do resto do país mudassem a orientação musical sem fazer qualquer adaptação. Elas só colocavam dois ou três produtores ligados ao rock, lançavam alguns programas do estilo, mas entre muitas questões complicadas, como o longo contrato de locutores popularescos (ou mesmo a contratação de locutores novos com estilo de linguagem nada roqueiro) e a lógica hit-parade, incluindo falação em cima das músicas, determinou o fracasso das rádios ditas "roqueiras" sobretudo no Norte e no Nordeste.

Afinal, ficava uma coisa ridícula: locutores que haviam elogiado calorosamente cantores como Fábio Jr. e Wando, cinicamente passaram a fazer, pouco depois, falsas bajulações a nomes como Ramones, Legião Urbana e Iron Maiden. Pior: falando em cima das músicas, impedindo que elas sejam ouvidas até o final sem qualquer intervenção (isso quando as músicas não eram cortadas antes, o que não era raro). Ficava muito falso e hipócrita ouvir a instrumental final de "Smoke On The Water", do Deep Purple, e em cima dela o locutor fazendo onomatopéia do riff da canção e dizendo, metido, "Demais, não? Deep Purple na (tal emissora) FM!!".

Certamente o fracasso não foi da noite para o dia, não porque ele demorou a vir, mas porque as rádios pseudo-roqueiras eram perseverantes, demorando dois ou três anos a reconhecer os equívocos que cometeram. Na segunda parte, falaremos da fase 1991-1994 que derrubou muitas rádios dedicadas autêntica ou falsamente ao rock.

"DESCOLADOS" - ALTERNATIVOS 'FAKE'?


Um tipo de pessoas, sobretudo jovens, que surgiu na nossa Era da supradose informativa e que merece uma análise e discussão é o dos chamados "descolados".

Situados entre o establishment do entretenimento e os referenciais manjados da cultura de vanguarda, esses jovens, tidos como uma "versão pop" dos jovens alternativos ou vanguardistas dos anos 80 para trás, são esforçados mas encontram limitações no desenvolvimento de seus referenciais culturais.

Geralmente nascidos no final dos anos 70, esses jovens, durante a tenra infância e a adolescência, se limitavam ao irrit-pareide da "mídia gorda", com direito a tudo que for de gosto duvidoso, que muitos curtiram sem notar a maioridade passar.

Mas um dia eles vão para a Universidade e encontram outros tipos de pessoas, ligadas à cultura de vanguarda, que lêem livros estranhos e falam de autores que esses jovens antes nunca haviam sequer ouvido falar, nomes que variam entre Noam Chomsky, Franz Kafka, Mário Quintana, Tom Zé, Andy Wahrol, Hannah Arendt, Mário de Andrade, Camile Paglia, Jorge Mautner.

Acomodados com Xuxa e Gugu Liberato, com Michael Jackson e New Kids On The Block, com Dr. Slvana & Cia., Menudo, Technotronic, Wando, Guns N'Roses e outras guloseimas, os jovens ficam transtornados, mas para não fazer feio na faculdade tentam mudar a orientação cultural para não fazer feio entre os veteranos, até porque estão em alto risco de não ingressar nas faculdades sem antes levar farinha de trigo e até ovo na cabeça (para não dizer o corpo inteiro, sujando a roupa toda), como ocorrem nos trotes sobre calouros universitários.

Então, para que o vexame se encerre nos trotes, esses jovens começam a conhecer outras coisas. No começo é difícil, afinal o que é de gosto duvidoso, para eles, é mais gostoso, mas terão que levar adiante seus esforços.

Afinal, o que lhes espera é a maratona de xerox de obras de autores considerados difíceis, os bate-papos com colegas veteranos em bares que tocam jazz dos anos 50 (musicalmente mais complexo), ir a eventos teatrais mais conceituados, juntar referenciais mais intelectualizados para não fazer feio nas conversas.

Os descolados têm esse caminho difícil, porque, do final dos anos 80 para cá, a mídia gorda passou a despejar um monte de ídolos, referências e valores e gosto bastante duvidoso, com uma frequência que faz os incautos se acostumarem rapidinho. Por isso os "alternativos de primeira viagem", como são os "descolados", encontram problemas para se tornarem um público alternativo de verdade.

Por isso mesmo eles se confundem na busca de referências culturais. Não ousam muito na garimpagem de artistas e ideias mais originais ou próximos disso. Correm atrás de veículos fáceis da mídia, como a revista Bravo, da Editora Abril, ou o canal pago Multishow, da Globosat, mas se sentem tentados até a ler os portais de celebridades, as rádios pop da adolescência, e aí é que entram os equívocos.

Assim, a mídia gorda os trata como verdadeiras presas, empurrando como suposta vanguarda até o ultra-cafona "funk carioca" e mesmo os filmes de Stallone. Confundindo badalação com vanguardismo, esses jovens, no seu caminho de pedras cultural, começam misturando alhos com bugalhos, totalmente desorientados de uma mídia alternativa de verdade. Não temos mais Fluminense FM, as rádios de MPB são poucas, as TVs educativas às vezes se corrompem (o Sem Censura da TVE com É O Tchan e o Vitrine da TV Cultura com Zezé Di Camargo & Luciano são exemplos) e as revistas mais vulgares querem sempre dar uma de "bacaninha", como se quisessem trocar as barbearias (reduto de leitura dessas revistas) pelas bibliotecas universitárias.

Por isso é que esses jovens começaram falando gírias ridículas como "balada" (para "agito noturno"), comparecendo à Festa Ploc, misturando "funk carioca" com Velvet Underground, enquanto encontram dificuldades para ler Kafka, para estudar os autores da Escola de Frankfurt, para compreender a arte expressionista. Dormiram ouvindo Menudo e acordaram ouvindo Velvet Underground, por isso seu despertar é muito, muito difícil.

Se a mídia ajudasse, como em outros tempos...