sexta-feira, 24 de abril de 2009

Aemização das FMs - Defensores cometem equívocos e absurdos


A Aemização das FMs consiste numa imitação, por emissoras FM, do tipo de programação produzido pelas emissoras AM: noticiário prolongado, "programas de locutor" e "jornadas esportivas".

Esse fenômeno, "endeusado" pelos colunistas de rádio e seus adeptos, tornou-se, sob o pretexto da "liberdade de informação", "prestação de serviço" e outras expressões bonitinhas, um recurso para a concentração de poder de uma minoria de empresas de radiodifusão, tanto as de caráter regional quanto "nacional" (redes sediadas em São Paulo).

Tais pretextos não compensam as inúmeras desvantagens que as FMs que adotam este tipo de programação - seja produzindo programas que imitem o formato AM, seja reproduzindo transmissões de emissoras ou programas AM - , que são bem maiores que as relativas vantagens que elas oferecem, que no entanto podem ser compensadas pelas próprias AMs ou por outros veículos de mídia.

Entre as desvantagens, a maior é a concorrência desleal com as emissoras AM, que certamente não afeta seriamente a primeira ou a segunda AM mais ouvida, mas da terceira em diante a "saudável competição" - notem como os colunistas de rádio lêem muito Veja e adotam para o tema rádio toda uma lógica neoliberal - causa sérios danos, que influem principalmente no quadro profissional.

No rádio FM, o prejuízo é relacionado sobretudo à segmentação cultural, prejudicada porque um punhado de FMs - não raro chegam a representar um terço ou metade do total de FMs numa cidade - passa noticiário prolongado e esportes. Isso porque quem perde o espaço na Frequência Modulada não é a música de má qualidade (desculpa usada pelos defensores da Aemização das FMs), mas a música de melhor qualidade, como o jazz, o rock alternativo, a MPB alternativa, as preciosidades da música do passado. Já os popularescos, que a Aemização das FMs prometia expulsar do "dáiou", estão tranquilos, tranquilos no playlist.

Mas os colunistas de rádio, insensíveis e parecendo devotos de Pôncio Pilatos, acham que essas emissoras AM sucumbem porque são "fracas" por si só. Esses colunistas, assim, adotam o raciocínio de quem defende a "lei do mais forte". Para eles, bastam somente meia dúzia de FMs, que ofereçam o cardápio pragmático de "informação e entretenimento", como noticiários, esportes e humor besteirol.

Pouco lhes importa, por outro lado, se a segmentação é afetada, porque eles não percebem a diferença entre Wando e Chico Buarque, Beatles e Menudo, Jackson do Pandeiro e Tiririca. ou Tati Quebra-Barraco e Clara Nunes. Ou, se "percebem", tanto fez que tanto faz, porque imaginam que todo mundo tem i-Pod para ouvir música na rua ou é fácil se virar para pegar aquela raridade que o rádio não toca.

Francamente, para compensar que as AMs são tomadas pelas crenças cristãs, as rádios "AM em FM", embora não assumam, preferem mesmo o pragmatismo desdenhoso de Pôncio Pilatos. As emissoras AM estão em crise? Os defensores das rádios "AM em FM" lavam suas mãos, por sinal podres de sujas.


O MUNDO FANTASIOSO DOS DEFENSORES DA AEMIZAÇÃO DAS FMS

Eles, em quantidade, mal conseguem lotar uma partida entre o Íbis e o XV de Jaú nas divisões subalternas do Brasileirão. Mas sua ganância em fazer prevalecer seus pontos de vista é comparável ao dos antigos empresários do IPES (o "instituto" que lutou para derrubar o trabalhista João Goulart), outra minoria que queria ter peso de maioria nas grandes decisões da sociedade.

As próprias FMs que eles defendem são herdeiras do IPES. A CBN está mais próxima das abordagens do general Golbery do Couto e Silva. A Rádio Bandeirantes / Band News, como a maioria dos militantes do IPES, mostram o lado cor-de-rosa do neoliberalismo. A Rede Transamérica faz o mesmo, mas no contexto similar ao dos núcleos estudantis do IPES (que se opunham à UNE). A Rádio Gaúcha, da Rede Brasil Sul, segue a linha Golbery à maneira gaúcha que nem o Ildo Meneghetti, do lado ideológico oposto a Leonel Brizola e governador golpista de 1964, conseguiu seguir. A Rádio Metrópole FM, de Salvador, se reaproxima das raízes carlistas (de Antônio Carlos Magalhães), depois de enganar os baianos com uma pseudo-militância de causas "sociais".

Mas, apesar de tudo isso, os defensores da Aemização das FMs costumam se auto-proclamarem "de centro-esquerda", como os pseudo-esquerdistas de plantão. Mas não é difícil ver que eles são neoliberais, porque sua abordagem do mercado radiofônico segue exatamente a mesma lógica neoliberal que vemos nos livros , com todas as palavras dóceis que favorecem os detentores do poder: "livre mercado", "cidadania", "democracia" etc., que gente como Goubery do Couto e Silva, Roberto Campos, André Petry e Otávio Frias defenderam ou defendem com paixão.

Alguns absurdos dos defensores da Aemização das FMs, que chamaremos de Fanáticos Modulados:

1. "FIM DA HISTÓRIA" DO RÁDIO AM - Desrespeitando a memória histórica, os Fanáticos Modulados acham que a história do rádio AM chegou ao fim e que, se alguém quiser, que transforme a trajetória em museu. Para eles, basta a meia-dúzia de FMs de grande porte (CBN, Band News, Transamérica, a emissora regional tal) que lhes oferece as mesmas rações informativas, anedóticas ou esportivas de todo dia. Esse raciocínio é uma aplicação das idéias do historiador de direita Francis Fukuyama (que falou em "fim da história") ao universo radiofônico.

2. ACREDITAM QUE AS RÁDIOS "AM EM FM" IRÃO SALVAR A HUMANIDADE - Submissos ao poder da grande imprensa, só que na sua facção boazinha (ainda não é a "mídia gorda" propriamente dita, mas a "mídia gordinha", a "mídia fofa"), acham que as FMs vão salvar a humanidade, resolver milagrosamente todos os problemas das cidades, transformar o país num grande fórum de debates e transformar até mendigo em sábio. Para eles, basta ouvir horas e horas de CBN para qualquer mortal virar cientista político num piscar de olhos. Ah, e esse raciocínio míope é complementado pelo fanatismo esportivo, com aquela visão equivocada de que esporte salva o mundo e substitui até a Educação. Quanta ingenuidade!!

3. PESSOAS QUE OUVEM RÁDIO NO CARRO SÃO SUPERIORES - No mundo encantado das rádios "AM em FM", o público tido como de "maior conceito" são aqueles que ligam as tais FMs no rádio do carro. É sério, as colunas de rádio ficam babando com tipos assim. Isso é um absurdo. Quem ouve rádio (ou CD) no carro não é inferior nem superior. Mas, a julgar pelos brutamontes que ouvem brega-popularesco nos equipamentos de som dos carros, a tendência pesa hoje pelo lado inferior.

4. RÁDIO É MAIS HONESTO QUE A TELEVISÃO, PORQUE NÃO COMETE O PECADO DA EDIÇÃO DE IMAGEM - Idéia absurda, esta, mas, infelizmente, defendida pelos Fanáticos Modulados (que se julgam os mais inteligentes do planeta ou, pelo menos, agem neste sentido, se assim não o assumem) com um certo entusiasmo e convicção. Só que o rádio, por não mostrar imagem, pode também mascarar pessoas com vozes que não condizem com as aparências, além de sua retórica, sem o recurso da imagem, ter mais possibilidades de fraude. Quem pensa que o rádio é mais honesto que a TV porque não edita imagens, mal tem idéia do simulacro que se pôde fazer em radionovelas, como os efeitos especiais e o contraste entre voz e aparência de quem fala.

Maiores informações sobre esta realidade lamentável estão no meu site Preserve o Rádio AM: http://br.geocities.com/preserveoam