terça-feira, 7 de abril de 2009

WILSON SIMONAL: A PERDA DE UM ÍDOLO INJUSTIÇADO

Este texto eu escrevi no meu zine, há cerca de nove anos atrás.


WILSON SIMONAL: A PERDA DE UM ÍDOLO INJUSTIÇADO


Alexandre Figueiredo – O Kylocyclo zine, número zero – 20 de agosto de 2000.


Os tempos eram outros. Nos anos 60 houve um ídolo popular de grande repercussão, um cantor autêntico de música brasileira, que cantava Bossa Nova, jazz e até tango com desenvoltura. Este ídolo, Wilson Simonal, foi tão popular quanto Roberto Carlos, e naquela época a música comercial popularesca que hoje domina as paradas se reduzia a um pálido cenário de cantores bregas.


Simonal iniciou sua carreira de cantor em 1956, quando prestava serviço militar. Começou fazendo Bossa Nova, mas ele não se encaixava rigorosamente no gênero porque seu estilo destoava da formalidade vocal do gênero. Descoberto em 1961 por Carlos Imperial, Simonal lançou seu primeiro LP em 1963 e apresentou o programa de TV “Wilson em Si Monal”, na TV Record. Neste programa ele criou até um boneco, o Mug, para agradar as crianças.


O estilo de Wilson Simonal, como cantor negro, se situa num parâmetro entre a formalidade de Agostinho dos Santos e a jovialidade “moleque” de Jair Rodrigues. Todos cantores prestigiados na MPB, embora Jair tenha tido uma fase lamentável, ao lado dos breganejos, a partir do dueto com Chitãozinho & Xororó em “Sua majestade o sabiá”, de Roberta Miranda.


Simonal tinha uma postura inspirada nos negros norte-americanos. Era explícita a influência da soul music na música de Wilson Simonal, bem como do jazz. Mas Simonal também não abria mão da “malandragem” carioca, que o ajudou nas incursões heterodoxas da Bossa Nova, no início da carreira. Ele até inventou um estilo, “pilantragem”, nome que não deve ser visto no sentido pejorativo, pois “pilantra” aparece aqui como sinônimo de “bom malandro” (“malandro” também é palavra muito usada pejorativamente). A “pilantragem” de Simonal era um estilo que misturava samba, Bossa Nova, soul music e jazz, que alçaram o cantor à estrondosa popularidade, seja através de canções próprias (como “Tributo à Martin Luther King”, feita com Ronaldo Bôscoli), ou por canções alheias, como “País Tropical”, de Jorge Ben (atual Benjor) e “Meu limão, meu limoeiro”, de Antônio Adolfo. Numa apresentação no Maracanazinho, em 1969, Simonal fez a platéia toda cantar o refrão de “Meu limão...”. Num de seus recursos vocais, Simonal, para descontrair a platéia, ao cantar “País Tropical”, suprimiu algumas sílabas: “Moro...num pa-tro-pi...”.


Simonal não se comprometia a causas políticas. Apenas não descartava a consciência política, tanto que fez “Tributo a MLK”, em homenagem ao célebre líder político dos EUA. A letra desta música, aliás, foi dedicada ao filho do cantor, Wilson Simonal Jr., o “Simoninha”, hoje também músico, a exemplo do outro filho do “Simona”, Max de Castro, que aprenderam muito com o universo musical do pai, do qual observavam quando pequenos.

Simonal foi o primeiro negro a gravar um comercial de TV, e foi para a filial brasileira da Shell, em 1969. Nesta época sua popularidade era enorme, seu prestígio idem. Até Tom Jobim se declarou seu fã e, em 1970, Simonal se sente à vontade cantando, de igual para igual, com Sarah Vaughan, a diva do jazz, que se divertia com o senso de humor do brasileiro. “Simona” tinha carro de luxo, mulheres e vaidade. Pena que a situação política brasileira não era das melhores e a popularidade do cantor acabou sendo confundida com o cenário político em que o país vivia. E que lhe aprontou uma armadilha terrível, em 1971. Simonal, ao voltar de uma bem sucedida turnê por todo o país, foi avisado de que um contador roubou seu dinheiro. Obviamente Simonal se irritou, mas os dois seguranças que lhe deram a notícia espalharam o boato de que o cantor, para se vingar, sequestrou e torturou o contador. Nada foi confirmado. Nesta época era comum seguranças de casas de espetáculos ou de artistas trabalharem no Estado, no caso o Departamento de Operação Política e Social (DOPS), órgão policial da ditadura.


Foi outro boato, no entanto, que acabou com a carreira de Simonal, que do sucesso estrondoso passou para o ostracismo humilhante, que o levou ao alcoolismo, à depressão e, recentemente, à morte em consequência desses males. Este boato, também lançado pelos seguranças, atribuía ao cantor a função de “dedo-duro”, de denunciar à ditadura o envolvimento de artistas e intelectuais com práticas consideradas subversivas. O boato foi reforçado pela campanha difamatória do cartunista Jaguar no Pasquim. Jaguar afirmou orgulho por ajudar a destruir a carreira de Simonal. Num momento lamentável do cartunista, ele recentemente afirmou que está velho para se arrepender de erros passados.


Nas três iniciativas de Simonal e seus familiares de reverter a péssima imagem, foram solicitados documentos que indiquem a suspeita sobre o músico, à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República em 1991 e ao Centro de Inteligência do Exército, em 1998. Nenhum deles comprovou o envolvimento de Simonal com a ditadura. Em janeiro de 1999, o então Secretário de Direitos Humanos do Governo Federal, José Gregori, mais tarde ministro da Justiça, assinou uma declaração reafirmando os dois pareceres anteriores.


Mas aí Simonal já havia se deprimido e virado alcoólatra. Em 04 de maio de 2000, foi internado por problema no fígado, no Hospital Sírio-Libanês (São Paulo). Em junho recebeu a visita insólita do cantor Geraldo Vandré. Conversaram muito e Vandré, delirando, planejava um dueto entre os dois e uma orquestra. Simonal e Vandré foram dois artistas peculiares e diferentes, que sofreram na ditadura, sendo que Vandré foi preso e torturado por causa da letra de “Para não dizer que não falei das flores (Caminhando)”, que convida o povo para a ação política. Vandré hoje sofre problemas mentais e atualmente se preocupa em fazer estranhos tributos a Força Aérea Brasileira.


Simonal morreu em 25 de junho de 2000, com 62 anos. Nos anos 90 já havia lançado um álbum, Brasil (1994) pela Movieplay. Fazia algumas apresentações, tendo feito um concerto em 1998 no projeto “Pelourinho Dia e Noite”, em Salvador. Uma coletânea da série “Meus Momentos”, da Warner-EMI, foi lançada também em 98. Quando faleceu, seus familiares iriam promover um resgate artístico do cantor. Não houve tempo. Resta o consolo de que seus filhos Max e Simoninha seguem o legado do pai, apresentando o especial sobre o cantor transmitido em julho pela TV Cultura. No Vídeo Music Brasil, Simoninha apareceu fazendo um tributo a Wilson Simonal. Era não apenas um presente que Simoninha daria ao pai se vivo estivesse, mas também uma amostra para os mais jovens da música de um ícone esquecido da MPB, cuja vida se encerrou numa época em que os grandes ídolos não possuem um talento à altura da popularidade.

A OUTRA "DITABRANDA" DA FOLHA DE SÃO PAULO



Ninguém percebeu, mas a Folha de São Paulo, no dia 28 de março de 2008, despejou comentário comparável ao da "ditabranda" que despejou no editorial de 17 de fevereiro de 2009. Para comparar, vamos colocar os dois comentários sobre as duas "ditabrandas" defendidas pelo periódico paulista cada vez mais reacionário:

"Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente." ("Limites a Chavez". Editorial. Folha de São Paulo, 17 de fevereiro de 2009)
"Críticos anticarnaval, moralistas de plantão, guardiões da "qualidade" da música brasileira, horrorizai-vos: a axé music veio, mandou tirar os pés do chão e jogar as mãozinhas para o alto e venceu." ("Axé triunfa com artista 'fiel' e 'pegação'", de Marco Antônio Canônico. Folha de São Paulo, 28 de março de 2008)

Certamente os "líderes de opinião", cheios de (falsa) moral, irão perguntar para mim "E daí?". Felizes porque, para a chamada
"opinião pública" dominante, armadilhas da direita e da mídia gorda só existem no âmbito da política, no entretenimento funciona a lei do "peido na cara dos outros é perfume".

Pois as duas "diferentes" frases parecem escritas pela mesma pessoa, tal o nível agressivo e irônico, não fosse o autor Marco Antônio Canônico um repórter da sucursal baiana da Folha.

E por que ninguém percebeu a semelhança ideológica dos dois textos? Por que a axé-music teve um lobby tão fortíssimo que invadiu aparentemente os vários terrenos ideológicos, e os pseudo-esquerdistas, tão falados aqui neste blog, foram os que mais divulgavam a axé-music, só faltando vestir o cadáver de Che Guevara de abadá e bandana na cabeça, o que seria um ataque à figura manjada mas nem sempre devidamente compreendida que foi o guerrilheiro latino americano.

No texto da "ditabranda" propriamente dito, a Folha de São Paulo faz um ataque a Hugo Chavez, presidente venezuelano, controvertida figura de extrema-esquerda que tem lá seus erros, mas é cegamente trucidado pela mídia gorda e até pela mídia fofinha (atenção, "líderes de opinião"!!). No texto sobre a axé-music quem é atacado são pos intelectuais que reclamam pela música brasileira de qualidade e que são ridicularizados pelo establishment opinativo por serem supostamente "moralistas", porque não aceitam ver a MPB escravizada por um remexer de glúteos.

Em compensação, os dois textos também têm seus pólos de defesa. No texto "Limites a Chavez", a defesa está nos regimes neoliberais, a ponto de classificar a ditadura militar como "muito branda", daí o neologismo "ditabranda". No texto "Axé triunfa com artista 'fiel' e 'pegação'", a defesa vai para a axé-music, esse ritmo pretensioso, imperialista, concentrador de poder, musicalmente frouxo e de valores artístico e cultural duvidosos, mas que é tutelado pela mídia gorda como se fosse a "música-síntese da humanidade planetária" (alguém conta esta lorota para outro, que aqui não colou).

E, pasmem os leigos, vibrem os melhor informados, a axé-music e a ditadura militar possuem um elo de ligação, e isso não é tese conspiratória, é fato histórico devidamente documentado e comprovado. A ligação foi o falecido senador e ex-governador da Bahia ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES.



AXÉ-MUSIC SURGIU COMO PROJETO CARLISTA

Como governador da Bahia, ainda durante a ditadura militar, Antônio Carlos Magalhães promoveu um governo populista de direita, seja como forma de evitar as tensões sociais no Estado, seja para impor uma ideologia conservadora e conformista para o povo baiano. Para incrementar o projeto ideológico, Magalhães encomendou a publicitários, técnicos, tecnocratas, assessores e outros para desenvolverem um ideal estereotipado de baianidade que ao mesmo tempo transforme Salvador num "Caribe brasileiro" e crie um modelo de "sociedade baiana" a ser considerado "padrão".

Para isso, tinha que se mexer no turismo, se aliando à Rede Globo, que brindou o governador com a novela Gabriela, baseada na obra de Jorge Amado. E, nos bastidores, se começava a pensar em substituir aquele cenário de carnaval baiano que alternava blocos afro, então recém-surgidos, com bandas de trio que misturavam frevo, chorinho e rock e tinham até guitar heros, como Armando Macedo (Armandinho), filho de Osmar Macedo (um dos fundadores do primeiro trio elétrico, a fobica, lançado em 1950) e Pepeu Gomes.

A estereotipação, dotada de um visual supostamente "baiano" - na verdade uma mistura caótica de referenciais jamaicanos, havaianos, africanos, hippies e surfistas diluída com um apelo explicitamente brega - , diluía seu som para um padrão "digestível" que normalmente é um frevo caricato com elementos deturpados de reggae, rock e clichês tropicalistas, acrescidos de um marketing que foi claramente herdado da Jovem Guarda.

Essa diluição veio nos anos 80. Não precisamos dizer todos os nomes da axé-music (termo originalmente lançado, de forma pejorativa, pelo crítico musical baiano Hagamenon Brito, que escrevia também para a Bizz), mas a história é que muito do inicial sucesso da axé-music foi claramente motivado pelos financiamentos autorizados por Antônio Carlos Magalhães, e pelo apoio político que ele e seus aliados deram para os axezeiros. Isso fez com que os empresários de axé-music, donos de blocos e grupos musicais (sim, existe o fenômeno dos grupos "com donos", liderados não por seus vocalistas-fetiches, mas por seus empresários), se enriquecessem de forma assustadora, não bastasse eles cobrarem muito caro para os associados de blocos ingressarem no Carnaval. Além de tudo isso, a axé-music também virou símbolo da juventude rica de Salvador e de qualquer lugar onde houver uma micareta.

Só para entender melhor o crescimento da axé-music no Brasil, ele foi impulsionado pelos seguintes episódios:

- A influência política de Antônio Carlos Magalhães na distribuição de rádios FM para políticos e empresários simpatizantes, o que influiu anos depois na hegemonia do brega-popularesco em todo o território nacional, nele inclusa a axé-music.

- O aumento do poder político de ACM na Bahia foi impulsionado, no entretenimento, com a ajuda da axé-music.

- A aliança de ACM e o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, reciclou a "ditabranda" da axé-music em todo o território nacional, atingindo áreas antes hostis a este gênero, como os Estados do Sul e o Rio de Janeiro.

Mesmo com todas essas evidências, houve quem tolamente propusesse comemorar o suposto "fim do carlismo" com axé-music. Pior é o caso que contaremos abaixo:

PSEUDO-ESQUERDISTA E AXÉ-MUSIC

Estava eu e meu irmão andando no Iguatemi, em Salvador, quando, nas nossas habituais conversas questionando o brega-popularesco, eu falei que era pura ilusão alguém pensar que a axé-music vai trazer o socialismo para a Bahia. Perto de nós andava, em sentido contrário, um desses playboys com pinta de surfista mas com o cabelo castanho, sem parafina, que, ao ouvir o meu comentário, fez ar de esnobe, como se ele acreditasse que a axé-music iria trazer o socialismo para os baianos.

Mas, não se enganem, há pseudo-esquerdistas que capricham tanto no fingimento que eles passam a acreditar que são "esquerdistas", mesmo defendendo valores plenamente de direita (é só bater um papo com ele e ele vai dizer todos os valores neoliberais que acredita, mesmo sem assumir no discurso).

Daqui a 20 anos, provavelmente esse playboy deve fazer parte da equipe de assessoria de ACM Neto.

A MORTE DE COBAIN E A MORTE DO GRUNGE


No dia 06 de abril de 1994, há quinze anos, morreu por suicídio o músico Kurt Cobain, então ex-líder do grupo Nirvana, que ele desfez pouco após o MTV Unplugged, de onde foi extraída a foto acima.

O Nirvana foi o símbolo maior do fenômeno grunge, que foi mais problemático que brilhante, porque não passou de um grande hype da grande mídia musical, que não beneficiou sequer seus próprios intérpretes.

Para entender a agonia que levou Kurt Cobain a se matar, temos que nos localizar em 1990, quando o jornalista inglês do extinto semanário Melody Maker, Everett True (que também divulgou na mídia britânica grupos brasileiros como Sepultura, Brincando de Deus e Second Come), foi para Seattle, no extremo noroeste dos EUA, para verificar uma nova cena musical. Seattle já se tornou conhecida, antes, pelo genial guitarrista Jimi Hendrix.

A imprensa musical norte-americana sentiu então um certo ciúme por Everett True e, com avidez furiosa, se apropriou do cenário de Seattle, anunciando aos quatro ventos que era "a maior revolução da história do rock". Um lobby ali, outro aqui, e o segundo álbum do Nirvana, Nevermind, foi da noite para o dia posto para o topo das paradas de sucesso.

Do cenário de Seattle - que chegou a ser chamado de grindcore, mas havia outro estilo com este nome, e virou grunge pela iniciativa de Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, a dupla do selo Sub Pop, para que nenhum outro menos informado batizasse o fenômeno - , quatro bandas se sobressaíram: Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice In Chains.

No calor dos acontecimentos, eu achava o grunge um saco, e nunca acreditei nesse carnaval todo. Mas de repente a crítica musical dominante, a que se apropriou do cenário "descoberto" por Everett True, passou a mandar no mundo e não faltava almofadinha escrevendo em caderno cultural da grande imprensa os mesmos textos oba-oba que a imprensa ianque e, no Brasil, a paulista, escrevia sobre as bandas de Seattle.

Na época do modismo grunge, 1991-1992, houve uma pseudo-indústria da cultura rock no Brasil. Rádios de pop dançante ou de brega-popularesco contratavam uns três gatos pingados roqueiros para a produção e viravam "rádios rock" sem o menor esforço, enganando muita gente numa época ainda sem Internet. Grandes gravadoras "investiam" em simulacros de gravadoras "independentes" e muita gente acreditou na lorota de muitos selos pseudo-indie, como Banguela, Radical Records etc. (com a ressalva de que a Rock It!, mesmo sustentada pela EMI, se aproximava em mentalidade das verdadeiras indies). Críticos musicais da grande imprensa montavam fanzines, ou criavam colunas "alternativas" nos cadernos culturais.

É verdade que havia paralelamente uma mídia rock de verdade. Se tínhamos uma canastrona 89 FM, tínhamos a 97 Rock e a Fluminense FM, mesmo com seus erros. Se tínhamos uma Banguela ou Radical Records, tínhamos a veterana Baratos Afins e o Midsummer Madness. Se tínhamos uma General (dissidência da Bizz composta pela fase horrenda do Forastieri), tínhamos o Midsummer Madness Zine. Se tinha o crítico musical mainstream simulando zine no caderno de cultura do grande jornal, tinha o zineiro autêntico que garimpava do cenário musical de sua vizinhança ao que havia de bacana na imprensa britânica.

Aí, no Brasil, o grunge virou um grande oba-oba. A mídia só falava do grunge, enquanto na Grã-Bretanha bandas bem melhores que as de Seattle, como Ride, Wonder Stuff, Wedding Present e LA's, faziam o bom nome do rock britânico. Mas a crítica musical "padrão" só enxergava, do Reino Unido, as bandas de indie dance, que até são boas, mas longe de serem geniais, e pensou que todo mundo era shoegazer e enchia a cara no clube Hacienda de Manchester.

No mundo inteiro, Brasil incluído, o modismo grunge significou muita pressão para as bandas envolvidas. Da noite para o dia, aqueles músicos que começavam a fazer um som e se contentavam em tocar para uma platéia fiel em Seattle, viraram, contra a vontade, "cidadãos do mundo", "modelos de rebeldia", "ideais de sonoridade rock", e muita cobrança se fez para grupos que mal tinham cerca de cinco anos de carreira e uma sonoridade mal desenvolvida.

Kurt Cobain foi o símbolo maior, mas a pressão atingia a todos, mesmo Eddie Vedder, o vocalista do Pearl Jam. A sonoridade do grunge não é definida, mas pairava entre o hard rock e o punk, sem ser propriamente hard rock nem punk. Às vezes nota-se uma influência de Thin Lizzy, Blue Oyster Cult e Neil Young em algumas músicas.

Os grupos se Seattle foram jogados "verdes" para o estrelato e isso não foi bom. O modismo criou um estereótipo, sem que as pessoas percebessem do seu nível caricato, e de repente criou-se aquela visão chata de que tudo que não for rock pesado não é rock. Os jovens passaram a cultuar psicopatas como se eles fossem astros de filmes B. A escatologia virou "virtude" no rock. Nomes de merecido esquecimento como G.G. Allin, Genitortures, Nymphs, vieram à tona. Aquele ritual do rapagão com roupa de lenhador se ajoelhar no chão, com o cabelo cobrindo os olhos e fazendo som de "muralha de guitarra" ficou muito clichê.

Todo mundo pegou carona na mina de ouro. Críticos que promoveram primeiro o grunge ficaram ricos e poderosos. Gente que não tinha um estilo próprio passou a fazer grunge. O Stone Temple Pilots, da Califórnia, tentou fazer o som igual ao do Pearl Jam e Alice In Chains com Scott Weiland forçando a barra no vocal "gutural", mas só depois o STP percebeu que era uma banda legal sem imitar as de Seattle, com Weiland cantando com sua própria voz e não com a "voz de Layne Staley". No Brasil, até o RPM e os Titãs passaram a fazer som grunge, e a ridícula crítica musical da linha André Forastieri-Carlos Eduardo Miranda exaltava até a dupla Beavis & Butthead (no fundo uma paródia da juventude alienada ianque) como se fossem "os maiores mestres da música do planeta". Esse hype em torno de Beavis & Butthead havia nos EUA, mas não a esse ponto como ocorreu no Brasil.

Não vou aqui falar a história completa do grunge. Mas o desfecho deve ser mencionado. Das quatro bandas, o Nirvana acabou e Kurt Cobain tentou suicídio duas vezes, morrendo na segunda tentativa. O Pearl Jam se aproximou das sonoridades de Neil Young e Led Zeppelin. O Alice In Chains ficou desativado sem assumir seu fim, que só veio quando o vocalista Layne Staley foi encontrado morto, repetindo a tragédia de Cobain. E o Soundgarden acabou por tédio, simplesmente.

Kurt Cobain recebeu maior pressão na mídia. Qualquer atitude de revolta de Cobain era vista pela mídia como sensacionalismo. Foi este mesmo esnobismo e voracidade da mídia de celebridades que fez a princesa de Gales, Diana Spencer, morrer três anos e meio após Cobain. A mídia sensacionalista é cruel, na sua busca feroz por notícias. O comercialismo vazio do mundo das celebridades cria, escraviza e destrói ídolos.

A turma de Seattle ainda estava mal resolvida musicalmente quando começou a ficar famosa. A pressão da mídia não deixou as bandas amadurecerem e só lhes criou problemas. Não é exagero afirmar que o MTV Unplugged do Nirvana é sua verdadeira "gravação demo". Seria o que o grupo faria se não fosse essa badalação em torno dele. Anos depois, o baterista do Nirvana, Dave Grohl, trocaria de instrumento e, como cantor e guitarrista dos Foo Fighters, aproveitaria muitas das lições que o Nirvana pensava em fazer, mas não teve contexto favorável para isso.