terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Tom Jobim - prestigiado e injustiçado


Ele era Antônio Brasileiro e tornou-se reconhecido mundialmente. Sua música personificou a Zona Sul carioca, mas ele era da Zona Norte, do bairro da Tijuca. Elevou a música brasileira a um grau de sofisticação que, infelizmente, mais ofende do que orgulha parte da intelectualidade "influente" na grande mídia. Amava o Brasil da forma mais patriota, mas é acusado por uns de ter abandonado o país.

Esse era Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, conhecido tanto como Antonio Carlos Jobim (sem o circunflexo no prenome) no exterior como Tom Jobim entre nós, brasileiros. Foram cerca de 40 anos de carreira de músico, tendo sido também compositor, intérprete, arranjador e eventual letrista, embora muitas de suas músicas tivessem outros letristas, sobretudo o poeta Vinícius de Morais, diplomata que havia se tornado poeta, intelectual e agitador cultural, se envolvendo até mesmo nos primórdios do SPHAN (atual IPHAN) e no aval ao Centro Popular de Cultura da UNE.

Aliás, por pouco Tom Jobim não seria chamado para fazer música para a peça Orfeu da Conceição, que Vinícius escreveu adaptando para a realidade carioca a tragédia grega Orfeu e Eurídice. O poeta chegou a convidar para a missão o músico Vadico, que havia sido parceiro de Noel Rosa.

Dizem que a Bossa Nova surgiu na trilha dessa peça de 1956, já que a música de trabalho, a famosa "Se Todos Fossem Iguais a Você" tem toda uma roupagem do romantismo bossa-novista. Aliás Tom é considerado um dos pais da Bossa Nova, apesar da origem controversa, atribuída a vários músicos, sobretudo o baiano João Gilberto, o mais ousado no estilo. Aliás, João e Tom inauguraram oficialmente a BN com o disco Chega de Saudade, de 1959, de concepção difícil mas de força artística perene.

Tom Jobim teve uma formação erudita, mas era fã de samba. Seu talento tornou-se uma fusão do jazz, dos standards, do samba, das valsas e outros estilos. Ele chegou a ser aluno e amigo de Heitor Villa-Lobos, e anos depois tornou-se o mestre de jovens músicos que se tornaram hoje seus herdeiros artísticos: Chico Buarque, Edu Lobo, Carlinhos Lyra e Francis Hime. Como maestro, o filho Paulo Jobim também é herdeiro artístico do pai.

Tom Jobim amava a natureza, amava o Brasil, mas era difícil para ser apreciado num país com desigualdades sociais, que mergulhou numa longa ditadura e numa mídia que para favorecer o poder dominante na época nivelou abaixo a chamada cultura popular do país. Com isso, Tom passou a ser mais reconhecido no exterior que no Brasil, onde ser musicalmente sofisticado passou a ser visto como um pecado mortal por uma intelectualidade esnobe, arrogante e populista. "Sofisticação", só para artistas bregas e neo-bregas veteranos.

Tom é uma espécie de patrono da moderna Música Popular Brasileira. A Bossa Nova que ele ajudou a criar se fundiu com a música de raiz lançada pelos CPC's da UNE e se converteu na música divulgada nos festivais da canção dos anos 60. As raízes brasileiras, no entanto, sempre foram consideradas com muito respeito por Tom, que admirava Cartola e Pixinguinha com muito entusiasmo.

Sei que eu, no impulso juvenil dos meus 21 anos, vi com estranheza a música "Querida", um dos últimos sucessos de Tom. Achava que parecia Cole Porter. Mas hoje vejo que isso não é mal algum, afinal Tom ouvia Cole Porter, e por isso a música não nega essa influência, mas a traduz num jeito carioca, num jeito brasileiro.

Tom Jobim, que faz muita falta hoje, quando até o horrendo "funk carioca" é considerado "arte superior", foi um dos melhores alunos da lição antropofágica pensada pelo modernista Oswald de Andrade. Tom ouvia jazz e standards, mas traduziu essa forte influência com uma música com forte acento local, a cara do Rio de Janeiro e, em parte, a cara do Brasil.

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