terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sistema "curitibano" de ônibus adota padrão "chinês" de poder




Concentração de poder político das secretarias de transporte, somado a iniciativa privada. O moralismo tecnocrata, no entanto, julga a receita perfeita, sob o pretexto de que as autoridades municipais têm ou terão plenos poderes para fiscalizar, com rigor acima do normal, o transporte coletivo.

Só que o que vemos no padrão de transporte coletivo simbolizado por cidades como Curitiba, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e outras é um padrão "chinês" de administração, com base no atual quadro político da China, que mescla poder político concentrado e investimentos privados.

Pois é isso mesmo que Eduardo Paes, desconhecendo completamente a realidade social dos cariocas e confiando demasiadamente em engenheiros que quase nunca andaram de ônibus na vida mas possuem diplomas de doutorado e apresentam seus projetos para o transporte em seminários da Europa, ameaça implantar no Rio.

Esse padrão de transporte, baseado na padronização visual por tipo de ônibus ou de percurso, no controle férreo de um órgão de transporte coletivo - tipo SPTrans - mistura o elemento "esquerdista" - administração do transporte coletivo pela Prefeitura, aos moldes de um serviço encampado - com o "direitista" - financiamentos da iniciativa privada - , atendendo prioritariamente aos interesses de grupos empresariais, políticos e tecnocratas (no caso os engenheiros de trânsito e de transporte).

O que muita gente não compreende é que esse sistema elimina a autonomia operacional das empresas, que se limitam a meras investidoras-operadoras do transporte. Até para renovar as frotas o controle político da Prefeitura é que decide o prazo e a quantidade de carros. Se a renovação de frota for somente duas vezes por ano, será duas vezes por ano. A Prefeitura compra os carros, a conta é que fica com os empresários.

Aí o passageiro deslumbrado vai dizer que isso é ótimo porque vai pressionar as empresas que não renovarem suas frotas a comprar carros novos. Só que a empresa que quiser, por exemplo, vender os carros com quatro anos de fabricação não poderá fazê-lo, terá que esperar completar o prazo máximo para vender os carros.

VANTAGENS DESSE PADRÃO DE SERVIÇO SÃO POUCAS

Esse padrão de serviço "curitibano", apesar do apoio de autoridades, técnicos, empresários e parte dos passageiros, oferece menos vantagens que desvantagens. O custo benefício não compensa esse sistema, e, numa observação mais apurada, os passageiros que apoiam esse sistema, em sua maioria esmagadora, quase nunca andam de ônibus.

Um sistema de diversidade visual - quando é a empresa o diferencial de cor a ser adotado - , com moderação na integração de terminais, no uso de articulados e sem esquema de "pool", consegue ser muito mais funcional e adequado.

Primeiro, porque a distinção de regiões e percursos é determinada pelo código da linha. No Rio de Janeiro, por exemplo, o prefixo 3XX é para linhas do Centro para Zona Norte e Oeste. O prefixo 4xx é para linhas da Zona Norte para a Zona Sul. Se houver unificação de cores, aí é que o passageiro terá muito mais esforço para reconhecer a linha. E aí a linha continua sendo o diferencial diante da mesmice dos ônibus da mesma pintura.

Segundo, porque a autonomia operacional das empresas de ônibus, em vez de "consórcios" que dissimulam oligarquias empresariais artificialmente criadas pelo poder político, não significa que haverá falta de controle no serviço de cada empresa. A Secretaria de Transportes existe para isso. Não é necessário concentrar o poder para exercer um controle adequado. Já pensou se a Prefeitura fizer o mesmo com as padarias? Tirar a livre iniciativa, o trabalho próprio, a competição pela qualidade?

Os passageiros de Curitiba e São Paulo pegam ônibus errado frequentemente. O problema é que essas pessoas são de classes trabalhadoras, não têm acesso à Internet para reclamarem e nem sempre suas queixas são publicadas pela imprensa. Se os caras denunciarem o sistema de "pool", aí que a imprensa não publica mesmo, porque contestar o "pool" no sistema de ônibus é um grande tabu para a mídia.

Por isso mesmo é que o padrão "curitibano" de ônibus, ou melhor, o padrão "chinês" de administração do transporte, parece vantajoso para quem usa pouco ou não usa o transporte coletivo. Parece lindo para quem vê os tecnocratas como semi-divindades com respostas para todos os problemas da humanidade. Parece lindo para quem não prevê a prática e suas contradições, que se ilude com decisões vindas de cima.

Mas a situação é bem mais problemática para quem está em baixo e sente na carne o problema que mal tem direito de se manifestar.

Ainda é tempo para a besteira do prefeito carioca Eduardo Paes de padronizar o visual dos ônibus ser definitivamente desfeita.

Um comentário:

jose carlos disse...

Sou José Carlos tenho 41 anos e busólogo. O sistema de cores padrão foi adotado em Curitiba em 1974 com a criação do ônibus expresso(vermelho), em 79 foi criado o Inter Bairros (verde). Acho que este padrão de cores foi adotado como uma forma de protesto pois todas as 10 empresas tinham que usar as cores verde e amarela por causa da Ditadura Militar