quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

PRIMÓRDIOS DA MÚSICA BREGA SEGUIU LÓGICA DE MINISTROS DA DITADURA


Posse do general Humberto Castello Branco, em 1964, inaugurando a ditadura militar. Roberto Campos e Otávio Bulhões foram designados para implantar uma economia neoliberal no país a ser dominado gradualmente pela música brega.

A chamada cultura brega surgiu apoiada pelo coronelismo no interior do país. As rádios ligadas a grupos latifundiários e a políticos conservadores foram as que primeiro tocaram os ídolos cafonas, que a ditadura militar ajudaria a crescer, apesar da aparente censura a alguns cantores, censura esta que nada tinha de combate à subversão.

Os primórdios da música cafona brasileira seguiram fielmente a lógica do projeto político e econômico do ministro da Fazenda, Otávio Gouveia de Bulhões, e do ministro do Planejamento, Roberto Campos, que implantaram a economia neoliberal dependente, baseada no uso de tecnologia obsoleta do Primeiro Mundo e no arrocho salarial.

A música brega surgiu seguindo, mesmo na forma mais caricata e estereotipada, os boleros e serestas já obsoletos no mainstream musical brasileiro. Isso já em 1959. Depois viriam as influências orquestrais de Mantovani e baladas italianas dos anos 50, a inspirar os cafonas na mesma época em que, por exemplo, Londres e San Francisco viveram a fase do psicodelismo.

Com o fim do movimento da Jovem Guarda - que já tinha como inspiração o piegas rock italiano, mais próximo do twist e de cantores do porte de Pat Boone e Bobby Darin - , veio uma geração de ídolos cafonas que foi fazer a mesma coisa. E até pior. Afinal, Paulo Sérgio e Odair José soam muito mais mofados que Sérgio Murilo e Demetrius, ídolos pré-Jovem Guarda cujo pioneirismo garantiu a reputação criadora deles, mesmo dentro dos padrões jovemguardistas depois vigentes.


ROBERTO CAMPOS E OTÁVIO GOUVEIA DE BULHÕES - Lógica neoliberal dos dois ministros de Castelo Branco influenciou até a "cultura" brega.

A música brega, dessa forma, traduziu com muita exatidão o projeto econômico dependente de Roberto Campos e Otávio Bulhões. Adotou de forma subordinada os clichês da cultura ianque, numa perspectiva bastante provinciana, adotando no plano cultural o desenvolvimento dependente da economia brasileira.

E, na cultura brega, o povo já estava assumindo o papel social imposto pelo poder latifundiário que apoiou a ditadura: no eterno exílio das favelas, nos prostíbulos, no alcoolismo dos bares mais vagabundos. O povo num papel subalterno, submisso, quando muito resignado com seu próprio sofrimento. A baixa qualidade artística, de cantores de voz fanha e frouxa, de sentimentalismo exageradamente ridículo, de músicas chorosas, mal tocadas e mal compostas, diz tudo.

A música brega ainda emularia a choradeira romântica de Bee Gees e Frankie Valli & Four Seasons, e traduziria em 1977-1978 a cafonice de parte da disco music de 1973-1974.

Como se vê, a música brega sempre foi retardatária. A cultura brega, dependente, depreciativa, no fundo um presente de grego das oligarquias dominantes para o povo tomar como se fosse "sua cultura", permitindo assim que o progresso brasileiro seja comprometido para garantir os privilégios das elites.

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