quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

PARA REFLETIR: SYLVIA TELLES MORREU DUAS VEZES



Se, em 1961, 17 de dezembro foi dia da tragédia do Gran Circo Norte-Americano, em 1966 foi dia de outra tragédia, que vitimou um casal, dentre os envolvidos uma das cantoras mais talentosas da história da música brasileira, SYlvia Telles.

Se a tragédia de 1961 ocorreu em Niterói, a de Sylvia Telles ocorreu numa estrada de Maricá, cidade que uns creditam à Região dos Lagos, mas que pelo comportamento urbano similar e integrado a cidades como Niterói e São Gonçalo, pertence a uma região que chamo de Grande Niterói (que ainda tem os municípios de Itaboraí, Rio Bonito e Tanguá).

Mas o desaparecimento de Sylvia Telles se torna mais grave porque outro desaparecimento já fez apagar a lembrança da cantora ao grande público. Mesmo tendo colaborado para a formatação da moderna Música Popular Brasileira, entre os anos 50 e 60, e mesmo tendo integrado a turma da Bossa Nova a partir daquele evento do Grupo Universitário Hebraico, em 1957 - quando foi divulgado que o concerto de samba-jazz seria feito pela "turma dos bossa-nova" - , ela foi esquecida até pelas cantoras emergentes de uma MPB mais moderna ainda.

Na música brasileira em geral - seja popular, sofisticada ou popularesca - , a maior parte das cantoras sucumbe ao vocal forçadamente black, abusando do vibrato e no prolongamento das sílabas. Na MPB autêntica, é até legal ver cantoras influenciadas por Elis Regina e Nara Leão, e que até Marisa Monte e Adriana Calcanhoto já possuem seguidoras e herdeiras.

Mas qual é a seguidora da voz suave e docemente sensual de Sylvia Telles? Qual é a nova cantora que assumirá a mesma postura classuda da falecida intérprete, morta prematuramente aos 32 anos, no auge da carreira? Ainda que os tempos fossem outros, mas Sílvia merece ter sua seguidora artística. A filha, Cláudia Telles, seguiu a carreira de cantora, mas ela segue um caminho próprio (o que é direito dela), não se prendendo à imagem da mãe.

No entanto, o que falta é uma cantora de voz meiga, de repertório sofisticado, sem modernices, sem breguices, sem ecletismos vagos. Na Inglaterra a Aimée Duffy já segue a sofisticação das antigas cantoras dos anos 60. E no Brasil, qual será a equivalente?

Por isso é lamentável que Sylvia Telles tenha morrido duas vezes. A primeira de forma biológica, num acidente de trânsito com o namorado, Horácio de Carvalho Júnior, filho do dono do Diário Carioca e primeiro marido de Lily de Carvalho (depois esposa do dono das Organizações Globo, Roberto Marinho). Horacinho também morreu no desastre, por ter dormido ao volante.

A segunda, morta pela ganância da mídia, voraz pelo espetáculo popularesco que empurram até para o universo da MPB, com cantoras axezeiras saltitantes que não tem senso algum sequer de marketing, já que a chamada "rainha do axé", obsessiva pela fama e pela superexposição, foi voltar aos palcos antes de terminar a licença-maternidade, quando poderia até ter preparado uma volta triunfal no Carnaval, se ela fosse mais esperta.

Fica aqui nosso silêncio pelos 43 anos sem Sílvia Telles.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Se a Mulher Gigante (I.S.) mudasse de emprego, ela trabalharia numa lanchonete ou abriria uma rede de supermercados?