sábado, 5 de dezembro de 2009

MPB pós-Bossa Nova nunca foi hegemônica em todo o país


A MÚSICA SOFISTICADA DE TOM JOBIM SÓ ERA HEGEMÔNICA NOS APARTAMENTOS DA CLASSE MÉDIA ALTA. NO INTERIOR DO PAÍS, O COMPOSITOR DE "ÁGUAS DE MARÇO" ERA VISTO COMO SE FOSSE ESTRANGEIRO

Infelizmente a historiografia da Música Popular Brasileira é vista sob o ponto de vista dos intelectuais e especialistas que vivem no eixo Rio de Janeiro-São Paulo. Isso faz com que determinados movimentos musicais ocorridos em dadas épocas sejam tidos como hegemônicos quando em várias regiões do país eles nem sequer eram tendências em ascensão.

Isso faz com que se tenha a falsa impressão de que a Bossa Nova, por exemplo, alcançou até as mais difíceis entranhas do Norte do Brasil, mas a verdade é que boa parte do povo que mora nessas regiões não sabe sequer quem são João Donato e Billy Blanco (respectivamente acreano e paraense), quanto mais Tom Jobim, que, apesar de ter sido, no batismo, Antônio Brasileiro, até hoje é visto pelos interioranos do nosso país como se fosse novaiorquino.

Em contrapartida, há a visão recente dos intelectuais que defendem o brega-popularesco de que seus ídolos nunca representaram o establishment do entretenimento e que seu sucesso hegemônico nunca existiu.

Essa visão parte de vários pressupostos equivocados, sobretudo porque é a cultura brasileira vista do alto dos prédios de luxo do Leblon e da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e na Av. Paulista e região dos Jardins, em São Paulo. Isso dá margem a julgamentos equivocados, mesmo aparentemente positivos. Como o "funk carioca", por exemplo, objeto do doce etnocentrismo dos cientistas sociais abastados, do dócil paternalismo de tratar os pobres como "bons selvagens", idealizando o "funk", como música e como entretenimento, acima de sua realidade de controle social de elites suburbanas sobre o povo.

Por isso esse pessoal acaba menosprezando certos aspectos dolorosos da nossa realidade, do controle social de latifundiários e políticos conservadores através da cultura, da existência de uma grande mídia que não esteja localizada na Av. Paulista nem ao menos na Vila Guilherme ou na ponte eletrônica Jardim Botânico-Jacarepaguá. Se existe poder dominante no interior do Brasil, e a prepotência dos grandes proprietários de terras há décadas e até séculos não nos deixa mentir, eles evidentemente usariam a mídia como extensão de seu domínio sobre o povo.

A MPB pós-Bossa Nova, por essa visão equivocada, parecia hegemônica e dominante, daí a revolta que se deu contra a MPB autêntica, sob a desculpa de que era uma ditadura cultural de uma espécie de Academia Brasileira de Letras musical. Tom Jobim e discípulos como Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina e Ivan Lins, acabaram se transformando em bodes expiatórios, culpados por uma suposta hegemonia cultural que não permitia a ascensão de uma supostamente "verdadeira música popular", a dos cafonas e neo-cafonas que lotavam rodeios, bordéis, micaretas, "bailes funk" e programas de auditório da TV.

Só que, indo para o interior do país, se verá que os ídolos cafonas e neo-cafonas, ou bregas e neo-bregas, que paulistas, cariocas e mineiros - né Eugênio Raggi? - lotados em seus condomínios de luxo desconhecem que tenham feito parte do mainstream alguma vez na vida, NA VERDADE representam o poderio de uma grande mídia atuante e poderosa fora das praias e das grandes avenidas. E que existe mídia gorda, gordíssima, que anda a cavalo e coleciona gado bovino.

Essa visão etnocêntrica do Sudeste brasileiro criou problemas para uma boa compreensão da música brasileira, favorecendo oportunistas como Paulo César Araújo que, feito um Cabo Anselmo das ciências sociais, seduziu muita gente boa com seu livro sobre a música brega. E fez todo mundo acreditar que o povo do interior está cansado de MPB autêntica, quando na verdade ela nem chegou lá, o povo desconhece. É assustador que várias regiões do interior do país não tem qualquer expressão de MPB autêntica local. E, por favor, não adianta dizer que forró-brega é MPB, porque isso é conversa para boi dormir.

A MPB dos anos 70 apenas cumpriu uma parte do sonho dos cepecistas da UNE. Criou uma geração de músicos universitários dotados de muito conhecimento de cultura popular. Mas o diálogo dessa geração com o povo foi sufocado pela ditadura militar. Os festivais da canção prometiam uma hegemonia que na verdade nunca existiu. Enquanto isso, a música brega e todos os seus derivados - incluindo até mesmo os ditos "não-bregas" axé-music e "funk carioca" e todo o brega "universitário" - foi patrocinada o tempo todo pelos detentores do poder, ganhando impulso com a farra de rádios FM de Antônio Carlos Magalhães e José Sarney e com o aval dos Fernandos, Collor e Henrique Cardoso, e de todo o coronelismo espalhado Brasil adentro.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Alexandre,
Sei que o mercado brega-popularesco, com toda a sua música comercial, é muito competitivo. Raul Seixas e Marcelo Nova já cantavam essa concorrência na música "Muita estrela, pouca constelação". Mas, seria o MC Leonardo é uma versão "funkeira" do Chorão do Charlie Brown Jr. (por sua vez, discípulo do Cabo Anselmo)?