domingo, 20 de dezembro de 2009

A INGENUIDADE DE ARTO LINDSAY


Há pouco mais de um ano, em uma entrevista para a revista Muito, suplemento dominical do jornal baiano A Tarde, Arto Lindsay afirmou que o grupo de porno-pagode baiano Psirico é "sofisticado".

Reconhece-se que Arto, músico norte-americano que viveu no Brasil e fala português fluentemente, tem respeitáveis contribuições musicais, tocou com David Byrne, Ryuichi Sakamoto, com brasileiros como Vinícius Cantuária (mais conhecido por ter seus sucessos "roubados" por Fábio Jr.), Caetano Veloso e Marisa Monte. Ouvi uma música de um dos projetos de Arto, Ambitious Lovers, chamada "Copy Me", e achei legal.

O problema, no entanto, é que Arto Lindsay se contagiou da mesma ingenuidade que corrompeu o antropólogo Hermano Vianna. Em nome de uma etnografia musical supostamente completa e abrangente, Vianna sucumbiu abertamente ao brega-popularesco. E Arto, no seu bom etnocentrismo, acabou achando o ridículo som do Psirico "sofisticado".

Pois o porno-pagode baiano - a rotulação não é culpa minha - se define assim pelos discípulos do É O Tchan e dos primórdios do Harmonia do Samba, que se resumem ao rebolado barato de seus cantores, nas letras patéticas e no ritmo malfeito que desencontra um vocal apressado e uma batida desacelerada. As letras dos cantores, com jeito de "engraçadinhas", não variam de clichês como "o bicho vai pegar", "o palco vai tremer" etc. Isso quando não fazem neologismos patéticos e claramente barbaristas como "uisminoufay", "Guig Guetto", "Saiddy Bamba" e outras calamidades.

O aspecto pornô fica por conta do rebolado andrógino de muitos cantores que, mesmo sendo homens, tentam dançar do mesmo jeito da Carla Perez. Os defensores desses grupos, como o antropólogo baiano Milton Moura (intelectual frustrado, que escreve textos meio jocosos, meio provocativos), tentam comparar esses rebolados aos de Elvis Presley e Mick Jagger. Nada a ver uma coisa com outra. Elvis e os Rolling Stones têm uma história a zelar e nunca colocaram o rebolado acima da música. Até porque os pagodeiros baianos dessa leva do Psirico, Parangolé, Guig Guetto, Saiddy Bamba, Uisminoufay, Nossa Juventude, Os Sungas, Os Toalhas e outros, são todos iguais e sua qualidade musical é sofrível.

Tais grupos investem numa percussão que mais parece aquele coelhinho da Duracel, automatizada e pretensamente "ritmada". Os mais recentes inserem um som de teclado que se resume ao som irritante do "uiiiii-uiiiii-uooooo-uooooo" que até o Psirico tem. E o Psirico ainda tem aquela irritante sirene do auto-falante.

Outro pecado desses grupos é confundir samba-de-roda com samba-de-gafieira. Fazem samba-de-gafieira malfeito e dizem que fazem "samba-de-roda". É tirar sarro de um patrimônio cultural, sem saber direito do que se trata.

Esses grupos não fazem sucesso nacional porque seu apelo erótico é semelhante ao do "funk carioca" (FAVELA BASS). A comparação seria inevitável. E a bola da vez é o "funk", que quer porque quer ser considerado "patrimônio cultural", nem que seja com dólar na cueca. O porno-pagode baiano tem que se contentar com o sucesso baiano e com a usurpação do prestígio do samba-de-roda, que é um autêntico patrimônio cultural.

Portanto, essa diluição baiana do samba nada tem de sofisticada. É chula, sem imaginação, sem qualidade alguma. E ainda têm que comer as migalhas dadas pelos megalomaníacos imperialistas da axé-music.

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