sábado, 5 de dezembro de 2009

Funk autêntico pode substituir o "pancadão" nas favelas


BANDA BLACK RIO, GRUPO CARIOCA QUE MISTUROU O FUNK AUTÊNTICO COM O SAMBA E QUE FEZ SUCESSO NA DÉCADA DE 70.

Na boa, funk é cultura, não é mesmo? Sim, desde que não seja esse horroroso ritmo que é conhecido também como "pancadão" e "batidão". Esse ritmo, cujo maior expoente é o DJ Marlboro, nada tem de riqueza musical, valor artístico nem valor cultural, mas se serve de uma retórica de defesa que, apesar de engenhosa, é cheia de contradições e equívocos e não passa de uma estratégia de marketing para manter o sucesso comercial dos funqueiros.

Já o funk autêntico, próximo das proezas musicais de James Brown, Earth Wind & Fire e de todo soulman que se comprometa a fazer um som mais ritmado, mas sem abandonar a melodia e os arranjos, tem valor cultural, sim. E tem nomes brasileiros que traduziram muito bem o ritmo numa linguagem bem brasileira: Tim Maia, Hyldon, Cassiano, Gerson King Combo, Banda Black Rio, Lady Zu, Sandra de Sá (apesar dela ter sido depois cooptada pela dupla brega Sullivan & Massadas).

Funk autêntico não pode se definir num DJ esperto diante de uns patetas ora vociferando alguma coisa - seja panfletarismo pseudo-engajado, seja baixarias - , às vezes com algumas calipígias jecas e não menos patetas dançando a boquinha da garrafa. É até de dar gargalhadas ver que a dança da boquinha da garrafa agora é vendida como se fosse "dança folclórica" ou "ritual etnográfico" pelos defensores do "funk" (o "pancadão", de Marlboro, Rômulo Costa e comparsas).

O funk autêntico tem MÚSICOS, instrumentistas, arranjadores. O cantor pode até aparecer quase sempre sem tocar instrumento nas suas apresentações ao vivo, mas nos bastidores dá para perceber que muitos desses vocalistas também são multi-instrumentistas. Marvin Gaye, Tim Maia, Otis Redding, esses caras também foram instrumentistas. E tinham ouvido apurado, arranjavam, exigiam de seus músicos dedicação plena. Esses cantores tocavam violão, guitarra elétrica, piano e até percussão.

E os músicos acompanhantes? Verdadeiras orquestras. Havia a banda básica, com guitarra elétrica, baixo, bateria, órgão, percussão, e tinha também uma orquestra com sessões de metais e cordas. Quem ouve os clássicos black dos anos 60 e 70 percebe muito bem isso.

"Mas é muito músico", diz o jovem da favela que quer fazer música. "Isso é muito complicado de fazer, não é bom eu ficar com o 'pancadão' mesmo?', pergunta.

BLACK MUSIC À BRASILEIRA PODE TIRAR A PERIFERIA DA CAMISA-DE-FORÇA FUNQUEIRA

Não, nada disso. É possível a juventude pobre fazer funk genuíno, black music de primeira, sem apelar para 'pancadão', 'tamborzão', "funk melody" e outras palhaçadas.

Primeiro, porque com alguma disposição, o jovem da favela pode comprar um violão. É só ir a uma loja barata, ou um sebo para comprar um instrumento usado. O tio ajuda, o primo mais velho ajuda, há alguém da família para ajudar.

O jovem da periferia - ou a jovem, também - tem que esquecer também bobos-alegres como Latino e MC Leozinho, que de tão ruins não devem lhe servir de modelo para coisa alguma, nem sequer para 'pagar mico'. Esquecer MC isso, MC aquilo, tem que abandonar tudo isso. A jovem da periferia nem tem que pensar em seguir raivosas MC's tipo Tati Quebra-Barraco nem bobas-alegres como as mulheres-frutas. Valesca Popozuda, nem sonhando!!

Dá para comprar um disco de MPB autêntica numa loja ou numa seção de discos de um supermercado. No Rio de Janeiro, por exemplo, passeando pela Saara dá para comprar bons discos do Djavan, Milton Nascimento e Chico Buarque, que são os artistas para o jovem da periferia começar ouvindo. Ah, e Tim Maia também.

Ouvindo esses cantores - no âmbito feminino, Elis Regina, Marisa Monte, Adriana Calcanhoto e Beth Carvalho são boas guias - , o jovem ou a jovem da periferia podem então se nutrir de influências da MPB autêntica, criando um suporte cultural para absorver, depois, a black music americana.

Aí o terreno também não é muito difícil. Dá para introduzir nesse universo através de coletâneas de nomes como Stevie Wonder, Earth Wind & Fire, Marvin Gaye, Kool & The Gang, Diana Ross. Com um pouco de esforço, dá para pegar um CD desses nomes. Além disso, o próprio Michael Jackson é o nome mais popular do funk autêntico, mas recomenda-se o CD Off The Wall (1979) e os discos da banda The Jacksons (evolução do grupo Jackson Five com a adesão de mais um irmão).

Com isso, é só aprender violão por conta própria, para exercitar os dedos no instrumento. Depois procure um curso de violão para aprender as melodias e depois pôr as mãos na "massa".

Um lembrete. Aprenda a cantar, mesmo que seja de forma intuitiva. Por favor, não recorra a um estilo pretensamente black dos cantores de sucesso, não recorra a malabarismos vocais usados sem o menor critério. Prolongar sílabas, cantar lacrimejando, apostar nos vibratos excessivos, tudo isso não faz alguém se tornar um grande cantor, apesar da grande mídia dizer o contrário. Muitas vezes ser econômico e simples no canto, aliado a um bom timbre, é mais vantajoso.

Para as letras, leia muita poesia. Carlos Drummond, Vinícius de Morais, até mesmo a poesia cantada do Clube da Esquina. Também leia bastante livros, sobretudo de literatura brasileira contemporânea (Clarice Lispector, Fernando Sabino, por exemplo), o que pode oferecer uma formação adequada, ainda que você se limite a escrever letras de amor. Mas letras de amor compostas com uma bagagem literária relevante fazem muita diferença. Esqueça aquelas tolices pagodeiras de Alexandre Pires, Belo, Exaltasamba & cia., que nunca vão além de versos bregas e mal escritos do nível de "Minha vida está morrendo sem você".

Seja esperto e não aceite as armadilhas da grande mídia e do show business. Procure ser íntegro. Corromper-se para depois desmentir com raiva a corrupção feita não adianta. A honestidade tem que estar acima de qualquer vantagem social ou material. A integridade pode não trazer fortuna a curto prazo, mas dará uma reputação que será para sempre.

Um comentário:

Marcelo Pereira disse...

O pior é que a crítica xinga mais a Banda Black Rio do que o "funk" carioca. Coisa chata.

O antigo tema de abertura de uma novela (se eu não me engano, Locomotivas) era uma música de excelente qualidade. Não entendo o porque da cisma da crítica.