quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A falsa MPB da indústria fonográfica


CDS PIRATAS INFLUÍRAM NO CRESCIMENTO DA MÚSICA POPULARESCA

As pessoas não prestam atenção às coisas. Até parece que o fenômeno da memória curta, do fácil esquecimento dos brasileiros, soa como um patrimônio cultural para o país.

Há 20 anos, vários estilos derivados da música brega, alguns "lapidados" por elementos que a indústria fonográfica extraiu da MPB pasteurizada anos antes - como, por exemplo, a produção luxuosa e as capas chiques-reflexivas de seus cantores - , lançaram ídolos claramente influenciados por José Augusto, Sullivan & Massadas, Wando, Waldick Soriano, Gretchen, Odair José e outros.

São falsas duplas sertanejas que apenas reproduzem o som dos Bee Gees num arremedo de moda de viola. São falsos sambistas que apenas imitam o som do Lionel Richie num arremedo de samba. São axezeiros que fazem uma diluição brega do Tropicalismo. São funqueiros que deturpam as lições de Afrika Bambataa com o máximo de cafonice possível, até mesmo no chamado "funk de raiz".

Esse universo da música brega-popularesca - que segue os valores da música brega original com um apelo popularesco bem maior - , que não tem compromisso com a qualidade artística nem com a inteligência, tornou-se dominante no establishment musical brasileiro. De tal forma que hoje corresponde à forma brasileira do hit-parade dos EUA.

O crescimento dessa música brega-popularesca - que não corresponde genuinamente à expressão cultural dos povos pobres, mas de parte de indivíduos pobres ou de classe média recrutados ou apadrinhados por produtores ou empresários - foi favorecido tanto pela politicagem de rádios e TVs durante o governo José Sarney, que fez multiplicar a incompetência comunicativa da maioria esmagadora das emissoras FM do país, quanto pelo crescimento do comércio clandestino de discos, que ajudou, mesmo a contragosto dos próprios ídolos popularescos (que não viam a cor do dinheiro), no crescimento de sua popularidade, já que no mercado oficial, dos anos 90, os medalhões da MPB autêntica ainda exerciam grande influência no mercado das grandes capitais.

Mas passaram os anos e a MPB autêntica praticamente debandou num êxodo em relação às grandes gravadoras multinacionais. E o que restou para as grandes gravadoras foi trabalhar com ídolos neo-bregas veteranos - como Leonardo, Daniel, Alexandre Pires, Zezé Di Camargo& Luciano, Ivete Sangalo, Chitãozinho & Xororó, Exaltasamba, Belo etc - como se fossem "artistas de MPB".

Esse processo de falsificação toma como modelo exatamente as regras pasteurizantes da indústria sobre a MPB, que fez quase todos os cantores de MPB autêntica saírem das grandes gravadoras, indo para selos como Biscoito Fino e Trama, que oferecem maior liberdade artística.

Os ídolos neo-bregas, submissos às tendências do momento - só para se ter uma ideia, Chitãozinho & Xororó, por exemplo, pode gravar um disco "texano", de a moda for gravar country em português, ou então gravar um pastiche de Clube da Esquina, ou então uma caricatura de boleros e mariachis, conforme for a onda do momento - , são então beneficiados por uma recauchutagem visual, vestindo até roupas de grife, enquanto os aspectos técnicos, relacionados tanto às gravações de discos quanto às apresentações ao vivo, ganham uma renovação tecnológica de ponta.

Os ídolos neo-bregas foram premiados pelo sucesso comercial de anos sucessivos, que chegou a se dar mais pela exposição de mídia, ironicamente impulsionados pelo mercado pirata. Ou seja, se o mercado clandestino de venda de discos prejudicou alguém, foram os grandes nomes da MPB autêntica, que tinham discos vendidos mais caros no mercado legal, e foram deixados para trás tanto pelos discos dos ídolos popularescos no mercado oficial quanto por esses mesmos discos popularescos no mercado pirata.

O povo pobre que poderia comprar um disco do Milton Nascimento não pôde fazê-lo pelo preço caro e acabava sendo persuadido pela mídia a comprar o disco do Leonardo ou do Daniel no mercado oficial, mas depois vê os mesmos títulos em versão pirata com preço mais barato e compram. Daí o crescimento astronômico do sucesso comercial dos ídolos neo-bregas.

Aí essa premiação garantiu aos ídolos neo-bregas contar com assessores, divulgadores, estagiários, que agora patrulham desde comunidades do Orkut até fóruns virtuais sobre música, numa campanha reacionária que não dispensa comentários ofensivos e violentos. Houve casos de defensores da dupla Zezé Di Camargo & Luciano que invadiam até páginas de recados de gente que participava de comunidades contrárias à dupla. Tudo para tentar calar, à força de mensagens violentas, aqueles que não são obrigados a gostar da dupla.

Por isso é que toda a campanha de extinguir a MPB autêntica e transferir o rótulo "MPB" para os neo-bregas é uma atitude que exige nosso alerta. É o patrimônio cultural brasileiro que está em risco, é nossa rica cultura que será empastelada por diluidores que só de forma tendenciosa se lembram dos antigos clássicos de nossa música.

A pseudo-MPB representada por axezeiros, breganejos, sambregas, funqueiros etc usa de todo tipo de recurso, até politicagem, para atingir o domínio absoluto da sociedade brasileira. Invadem até mesmo eventos-tributo aos mestres da MPB.

Esses ídolos popularescos já fazem parte do poder dominante da grande mídia, mas tentam dizer o contrário. Construíram suas carreiras com jabaculê (espécie de "mensalão" para a mídia) e agora negam essa prática. E nos acusam de "preconceituosos", "invejosos", "elitistas", "moralistas", só porque contestamos a escalada deles ao poder mais absolutista sobre nossa cultura. Se julgam o novo, mas são a podridão brega sob o verniz do "moderno". Não possuem qualidade artística, nem estética, mas a cara-de-pau dos seus defensores exige que esqueçamos qualquer estética, qualquer ética, qualquer critério artístico.

Com isso, a Música Popular Brasileira corre o risco de se tornar um fenômeno qualquer nota, cujo único mérito é lotar rodeios, micaretas, "bailes funk" e auditórios de TV. Mas, como música brasileira, não tem valor algum, e não adianta insistir o contrário.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Eu estou ficando de saco cheio dessa cambada, Alexandre. Só de sacanagem, devíamos assumir pelo menos três adjetivos que nos impõem:

Somo preconceituosos porque temos um conceito prévio: a história dessa cambada da Música de Cabresto é da mais absoluta falta de ética e zelo musical. Portanto, não precisamos ouvir o que eles dizem para termos um conceito. Já temos um conceito prévio sobre a música deles.

Somos elitistas porque sabemos que elite é alguém que está acima da média geral. Nós tivemos acesso a uma educação e a uma cultura superiores, mesmo não sendo propriamente pessoas ricas. Somos parte da elite intelectual do país, embora sejamos bem mais progressistas que a elite financeira e a média da elite intelectual brasileira.

Somos moralistas, sim. Nós defendemos a moralidade em tudo na vida: na música, na política, nas relações humanas, no serviço público, no mercado privado, etc. Não podemos defender a imoralidade nem a amoralidade.

Espero que entenda meu pensamento, Alexandre.