sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Criar um grupo de "funk carioca" custa caro


MANIFESTAÇÃO DE FUNQUEIROS NO RIO DE JANEIRO.

Quando se diz que o povo pobre tem que tocar violão, compor melodias e cantar melhor, dá para ouvir um típico defensor do FAVELA BASS ("funk carioca", oficialmente falando) dizer o seguinte:

"Ih, cara... Não leve a mal, não, mas você quer que o cara da favela vá estudar numa escola de música. Isso vai levar muito tempo, mermão. É caro pra dedéu... Dêxa ele ser MC, balançar o popozão e fazer tudo aquilo que faz, vai".

Essa declaração é inteiramente equivocada. É sempre aquela desculpa: "É o que o povo sabe fazer...". Na verdade, um conformismo tipicamente etnocêntrico, seja de intelectuais "zona sul" que vivem em seus apartamentos de luxo na Barra da Tijuca ou no Morumbi, seja de antigos DJs já convertidos em empresários e, portanto, em magnatas.

Mal sabem eles que é muito mais caro e trabalhoso criar um grupo de FAVELA BASS do que criar um grupo de funk autêntico (tipo Tim Maia).

Mas, como assim, mais barato criar um grupo de funk autêntico? Earth Wind & Fire é numeroso. Kool & The Gang é numeroso. The JB's, de James Brown, e Vitória Régia, de Tim Maia, tinham muitos músicos. Fora qualquer banda que acompanhasse todo cantor de soul music.

Simples. A banda de funk autêntico que pode ser formada na favela não precisa ser numerosa. E cantar bem é muito mais questão de dom do que de ensino acadêmico. Além disso, o FAVELA BASS mexe com muita tecnologia, enquanto no funk autêntico basta uma banda semi-acústica, com instrumentos usados, e muito, muito conhecimento musical, coisa que também não custa muito caro, pois discos de Tim Maia, Earth Wind & Fire, Marvin Gaye e James Brown estão acessíveis, ainda que sejam coletâneas.

O que é um grupo de FAVELA BASS ou "funk carioca"? Geralmente ele é composto de um disc-jóquei, ou DJ, e um ou dois MC's. Para fazer sucesso, tem ainda que ter umas duas ou três dançarinas, ou talvez uma, se esta é mais apelativa. É um formato simples? Aparentemente, sim, mas é bem mais caro.

O custo é elevado por conta do DJ. Este tem que se dispor de discos importados e uma boa aparelhagem - que por vezes também é importada - , além de ter também outros componentes de aparelhagem de som, como caixas acústicas, canais para mixagem (nos anos 90, o "funk carioca" chegou a ser chamado de "mixagem") e outros recursos.

O próprio apelo das dançarinas também envolve tal investimento que o empresário do grupo (que pode ser o próprio DJ) tem que buscar parcerias com escolas de samba ou times de futebol tanto para o marketing das dançarinas - que não exigem cachê barato - seja para o custeio do próprio grupo.

Também o sucesso do grupo custa caro. Tanto no que se diz à divulgação - que inclui sobretudo o jabaculê, tão renegado hoje pelos funqueiros mas que sem ele o ritmo não teria feito sequer 1% do seu sucesso entre o público - , quanto na manutenção desse sucesso.

Portanto, não há desculpa de dizer que este ritmo carioca é "música da periferia" se requer tanto investimento. É praticamente uma iniciativa de empresários-DJs com grana no bolso. Portanto, isso não pode ser equiparado a uma manifestação artística de recursos simples e arte espontânea. Não pode mesmo.

Portanto, o favelado deve preferir mesmo chamar seus amigos e montar um grupo de funk genuíno. Comprar CDs de Tim Maia, Earth Wind & Fire e derivados, coisa tão fácil que qualquer camelô vende. Ler poesia, com livros acessíveis nos sebos, além do fato de que Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Cecília Meirelles não são bichos de sete cabeças, podendo ser lidos por um favelado com um mínimo de escolaridade. Isso é bom para desenvolver a vocação de fazer letras.

Quanto aos instrumentos, também não há dificuldade alguma. Se os punks compravam instrumentos para tocar, sem aparentemente saber, por que os favelados, na busca de um funk autêntico (NADA A VER COM "BATIDÃO"), não podem comprar uma guitarra, um baixo elétrico, uma bateria, além de um teclado ou de um pistom, sax ou trumpete?

Parece complicado, mas isso é muito mais simples do que parece. E vale muito a pena. Ou alguém acha que as melhores bandas musicais começaram em berço de ouro? Que nada, no começo todo mundo comprava instrumento "vagabundo" e fazia boa música com o coração. Nada a ver com academia, normatismos musicais, etc.

Música de qualidade não tem regras. A música de gosto duvidoso, o "funk carioca"/FAVELA BASS, é que tem regras pré-estabelecidas, esse discurso "cultural" é só lorota.

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