segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O FASCISMO "FUNK"


O "funk" tornou-se a camisa-de-força do povo pobre. O povo carioca virou refém do "funk" carioca. Até o samba virou refém dos funqueiros, que com seu lobby político e seu discurso engenhoso instalam sua ditadura, isto é, "ditabranda", para enganar até mesmo cientistas sociais e artistas.

O discurso "funk" é lindo, alegre, positivo, substancial. Mas a música que realmente significa o "funk" carioca nada tem a ver com essa retórica tão sedutora, desse "canto de sereia" que engana a todos que tenham alguma ingenuidade e fraqueza emocional.

Pois o "funk" não favorece em coisa alguma o povo pobre. Se favorecesse, teria resolvido até com certa agilidade o problema dos moradores da Baixada Fluminense, que perderam tudo nas chuvas. Pois esta é a sina do povo pobre, é o lado sombrio desse ideal do "orgulho de ser pobre", que só serve para promover o conformismo do povo pobre com o paliativo do paternalismo das autoridades.

A FARSA DO "ORGULHO DE SER POBRE"

Essa ideologia do "orgulho de ser pobre" foi até descrita pelo economista John Kenneth Galbraith no seu livro A cultura do Contentamento. As autoridades trabalham em propagar o mito do pobre "autosuficiente" para evitar tensões sociais. Cria-se um conformismo, uma ilusão de que o pobre nada mais precisa, que o que ele "precisa" já lhes é dado, e que basta apenas esses "bons selvagens" - como as elites veem o povo pobre - façam seu circo, explorando o máximo do grotesco, para toda a sociedade se sentir "feliz".

Essa "felicidade" do povo pobre é trabalhada até nas novelas da Rede Globo. Vejam as novelas das "oito", que mostram ricos problemáticos e angustiados contrastando com um núcleo pobre "feliz", "sem problemas", cômico e risonho. E o ufanismo esportivo comandado por Galvão Bueno na Globo, mas também seguido por Luciano do Valle e outros (alguém acha que a Bandeirantes, como um suposto mar-de-rosas da objetividade jornalística, não tem seus ataques de ufanismo?), também ilude os pobres com o espetáculo do "futebol feliz", do Brasil que "sempre vence" nas partidas de futebol.

Esse "orgulho" mostra o tom do discurso das elites para domesticar os pobres, em vez de lhes dar melhorias reais e efetivas. Pobre que rebola, dança na boquinha da garrafa ("coreografia" reciclada no "funk" como sendo "dança folclórica"), sorri feito um pangaré, esse sim é "feliz", "cumpre seu papel de cidadão". Mas pobres fazendo passeata, seja para pedir passarela sobre uma rodovia, seja para pedir um pedaço de terra, esses pobres são vistos como "marginais", "bandidos", "arruaceiros", "terroristas".

O FASCISMO "FUNK"

Do contrário que Bia Abramo afirma, perversa não é a rejeição que o "funk" do Rio de Janeiro sofre dos seus detratores. Perversa, isso sim, é a retórica em torno desse ritmo e todos os valores que isso significa.

Pois não se pode acreditar sequer no rótulo de "movimento cultural", obtido por vias políticas, e que não passa de mero apelo marqueteiro do "funk" para enriquecer seus empresários. Repete-se, tantas vezes for, que o discurso de defesa do "funk" contradiz sua realidade, porque o que se fala do "funk" é tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo flores, mas é só por o CD no toca-discos ou ir a um "baile funk" para ver que essa retórica florida nada tem de verdadeira.

Falam que os que não gostam de "funk" são "preconceituosos", "invejosos", "moralistas" e outros adjetivos depreciativos. Falam como se o moralismo de hoje fosse totalmente igual ao de cem anos atrás. Não é. As comparações do "funk" com o samba e maxixe são totalmente sem fundamento. O samba e o maxixe não botaram o apelo sensual acima da música. O "funk" bota. Infelizmente, é preciso muito jogo de cintura para derrubar os argumentos contra nós, que rejeitamos o "funk" por conseguirmos enxergar tudo de negativo que há nesse ritmo.

Pois se trata de um movimento fascista, sim. O favelado, agora, só pode ser funqueiro. Virou camisa-de-força da periferia, que não pode mais se manifestar senão pela via do traseiro rebolativo, pela paródia de cantiga-de-roda sob uma reles batida eletrônica. O povo pobre não pode mais fazer música como Jackson do Pandeiro e Ataulfo Alves faziam, porque, pasmem todos, seria "ato de burguês".

Como é que em pleno Século XXI um ritmo totalmente troglodita, que é o "funk", quer se impor goela abaixo para toda a sociedade, pobre ou não, quer exigir o respeito que não pratica, porque o "funk" não respeita, é um par de glúteos peidando na nossa cara diante da TV.

O "funk" é o novo fascismo, num Brasil onde ter senso crítico é visto como ato anti-social. O "funk" quer prender o povo nas favelas, como a música brega original, de Waldick Soriano, quis prender o povo do interior no alcoolismo e na prostituição. O povo pobre busca dignidade, mas a música brega, a música neo-brega e o "funk" em particular, não deixa.

Tudo tem que passar pela vontade dos dirigentes e empresários funqueiros, pretensos representantes da classe pobre, gente velhaca, perversa, contra a qual é arriscado fazer reportagens investigativas. Todo o discurso de defesa tem que ser positivo, usando dos recursos mais avançados de narrativa, seja o new journalism que tempera as notícias com narrativa literária, seja a História das Mentalidades que narra o cotidiano dos anônimos.

Mas tudo é marketing no "funk". Tudo é como Goëbbels dizia: uma mentira veiculada mil vezes vira "verdade". O "funk" passou mais de quinze anos usando o jabaculê para dominar a mídia, e hoje diz que não faz e nem fez jabaculê. O "funk" promove verdadeiras armações, com ídolos de laboratório, totalmente risíveis, e diz que "não existe armação". O "funk" se autoproclama "tudo de bom" mas é só ver as notícias policiais para ver que a coisa é bem diferente.

Agora o "funk" se acha acima até mesmo de qualquer cultura fluminense. Ludibriou intelectuais e artistas, dominou eles feito os vilões de filmes de ficção científica, que se passam por "bonzinhos" e dominam suas vítimas. Quer prender o povo pobre na sua miséria, sob o pretexto de que "a favela é seu lugar". Como se as casas precariamente mal-construídas, residências improvisadas diante da exclusão do mercado imobiliário, fossem vistas como "arquitetura pós-moderna". Desde quando casa que é soterrada por um deslizamento de terra é "arquitetura pós-moderna"?

O favelado não está na favela porque quer. É porque ele não consegue comprar um apartamento. Assim como, no mundo brega, as prostitutas querem mudar de vida, estudarem na escola, virarem professoras. Mas o brega prende as prostitutas na prostituição. E prende os alcoolistas no alcoolismo. O brega e todos os seus derivados - inclusive o "funk" carioca - escravizam o povo, num fascismo tropical, comandado por empresários do entretenimento dos mais diversos, desde os do interior do país até os das grandes corporações de mídia do Sudeste. Se bem que existe grande mídia regional, também, existe uma grande mídia no interior que não é por não ser paulista que vai deixar de funcionar como grande mídia, no sentido do poder manipulador das massas.

O "funk" faz mal ao povo. O povo quer se livrar do "funk". Os pobres querem melhoria de vida, querem cidadania, escola, saúde, trabalho. Não querem balançar os glúteos. Há muita moça pobre que sente nojo ao ver as grotescas musas do "funk", horrendamente pornográficas, terrivelmente chulas. Isso não é cidadania. Isso não é movimento cultural. Isso é grosseria gratuita, que maltrata o povo pobre e quer domesticá-lo através do "batidão", para que assim as verdadeiras rebeliões sociais sejam silenciadas e tudo garanta a manutenção de privilégios de políticos, empresários e tecnocratas.

6 comentários:

Marcelo Pereira disse...

Xoca, isso é o que eu chamo de MANIFESTO ANTI-"FUNK".

Um texto brilhante. Disse tudo!!!!

Todos, defensores e detratores deveriam lê-lo e tirar suas colnclusões.

Aliás, onde eu assino?

Shogun disse...

Seu texto é genial. Como falou o colega acima; é um verdadeiro manifesto contra o funk carioca. Eu como um ativista anti-funk copiei seu artigo para divulga-lo em meu blog.

Espero que não se importe.

Saudações!

André Jede. disse...

Pois até o gaúcho, conhecido por seu bairrismo (às vezes exagerado)está se rendendo ao movimento "gluteoral" carioca... Resido no interior, minha cidade não tem 15 mil habitantes, mas toda "balada" que se preze tem que ter funk... Isso sem falar que muitos promotores de festas são estrangeiros, eu acho, pois batizam suas "baladas" com nomes em inglês, e até usam a lingua estrangeira na promoção destas festas ("mulheres 'free' até a meia-noite", como se em português não existisse as palavras "livre", ou "gratuito"...) E dá-lhe axé, funk, pagode, e até a tradicional música de bandas agora tem sua versão "universitária", como se quisessem levar aos pobres o ensino superior através de músicas de gosto duvidoso. Se, a julgar pelas músicas, universidade for isso, quero morrer com meu diploma de ensino médio apenas...

O Kylocyclo disse...

Shogun, desde que cite o crédito da fonte original, esteja à vontade. É muito bom ver uma idéia se espalhando para desmascarar toda uma campanha idiotizante comandada pela grande mídia. Sobretudo esse caleidoscópio da demagogia e da persuasão mais perversa que envolve o "funk".

MN disse...

Baile funk é caso de polícia, meu prezado.

Shogun disse...

Foi devidamente creditado amigo, não se preocupe.

Abs