quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MODELO "CURITIBANO" DE ÔNIBUS INICIA PROCESSO DE DESGASTE


ÔNIBUS DE CURITIBA - Visual despersonalizado, que não diferencia as empresas e confunde até linhas municipais com intermunicipais. Seu sentido vanguardista se perdeu, diante da transformação da sociedade brasileira, não oferecendo mais respostas para os problemas do transporte coletivo brasileiro.

O projeto do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, de adaptar o sistema de ônibus carioca aos padrões do transporte de Curitiba abriu uma discussão que pode gerar o efeito inverso do prefeito carioca, das autoridades políticas e dos tecnocratas do transporte coletivo.

O enorme repúdio da lei de padronização visual dos ônibus cariocas, junto à desmitificação, em várias comunidades, fóruns e sites sobre o transporte coletivo de Curitiba (PR) - que, apesar de algumas notáveis vantagens, está longe de ser considerado o melhor transporte coletivo do país, título mais próximo do marketing do que da realidade concreta - , como a adoção dos desconfortáveis bancos de fibra de vidro (um tipo de plástico) nos ônibus curitibanos, começa a expor os defeitos desse modelo "curitibano", há anos considerado como "futurista", mas que hoje envelhece sem oferecer respostas concretas ao problema do transporte coletivo brasileiro.


BELO HORIZONTE, DOS MALES O MENOR - O transporte da capital mineira é inspirado em Curitiba, mas chega a ser mais organizado e eficaz que o da capital paranaense.

É verdade, também, que o que está em jogo nisso tudo é a reputação dos tecnocratas do transporte coletivo, não raro tidos como "deuses", na medida em que são considerados imunes a críticas. Também está em jogo a validade de um padrão de transporte coletivo que, como projeto, rende uma retórica perfeita que faça sucesso em seminários de tecnologia e transporte na Europa, assim como a dicotomia entre a formação acadêmica desses tecnocratas - que possuem doutorado em Engenharia - e a realidade busóloga das ruas.

O que se sabe, portanto, é que o modelo "curitibano" de transporte coletivo, junto a paliativos que vieram de uma mentalidade "pragmática" dos anos 90, como o "pool" nas linhas de ônibus - que se demonstrou um grande fiasco - , começa a dar sinais de desgaste, embora essa decadência não seja admitida por busólogos e muito menos pelos próprios tecnocratas do transporte coletivo (quem, em sua "superioridade", vai admitir o fracasso de suas idéias?).

Primeiro, porque surgem muitas distorções. Primeiro, o transporte integrado, que é coisa para turista ver. É legal que haja, em cada cidade, dois ou três terminais de integração, mas a ideia de radicalizar a tafifa única, além de prejudicar a arrecadação dos ônibus, pode também representar a politização dos empresários de ônibus que, por receberem "mesada" das autoridades (única forma desses empresários de obter recursos para cobrir os altos custos do transporte), passam a ter poder maior de pressão política, podendo inclusive influir na manipulação eleitoral de cada município.

Os ônibus articulados também tornaram-se uma medida que, embora louvável, deva ser cautelosa e limitada. Primeiro, porque nem todos os bairros tem ruas preparadas para articulados. Segundo, porque muitas linhas não têm demanda para eles.

O uso dos bancos de plástico, a pretexto de evitar vandalismos, também mostrou-se um fracasso. O Grande Rio testou a medida e não deu certo. Cidades como Salvador e Fortaleza presenciam o grande repúdio da população para esse tipo de bancos. Nem o uso de "almofadas" embutidas nesses bancos resolve o problema até porque, em Salvador, algumas empresas tiram essas "almofadas" em carros com três anos de uso para revender e repassar a grana obtida para a fortuna pessoal dos empresários.

A mentalidade "pragmática" do transporte coletivo dos anos 90 revelou até alguns absurdos. Surgiram pessoas que, pasmem, defendem a redução das frotas de ônibus em circulação nas ruas, acreditando que isso resolva o problema do transporte. Como se vivessem num país de contos-de-fadas, essas pessoas - incluindo supostos busólogos, de perfil bem "chapa branca" - não imaginam o excedente de carros nas ruas (acham que isso nada tem a ver) e imaginam que os ônibus só precisam ser mais rápidos. Mais rápidos, onde?

O próprio sistema de "pool" - que em Salvador possui uma modalidade risível chamada "frota reguladora", que na prática é uma imitação do transporte pirata dos ônibus feito por empresas legalizadas - também revela o nível de ridículo dos seus defensores. As empresas envolvidas são erroneamente tratadas como se fossem produtos de supermercado ou times de futebol. "No 'pool', você escolhe a empresa que quer pegar", essa é a desculpa comum. Mas a realidade concreta nada tem a ver com isso, a pessoa pega o ônibus que estiver ao seu alcance, seja da empresa favorita ou não, seja carro novo ou veículo lenhado.

SISTEMA DE "POOL": UM GRANDE FRACASSO, UM ENGODO

O "pool" mostrou não ser mais do que um engodo, comparável tanto a uma bigamia conjugal quanto à história do rei Salomão que queria partir um bebê em dois para dar cada parte às mulheres que disputavam a guarda da criança. Por trás de tanta alegação fantasiosa, o "pool" revela as seguintes irregularidades:

1) Algumas empresas usam o "pool" para inchar o número de linhas e pedir mais dinheiro para os bancos. Uma empresa X que tenha 10 linhas próprias mas participa, em "pool", em seis linhas (participação que, digamos, varie em 33% ou 50%), dirá, no requerimento para empréstimo dos bancos, que tem 16 linhas, como se nessas seis tivesse atuação integral.

FRACASSO DO "POOL" - A linha 740D Charitas / Leme, que liga Rio a Niterói, é uma das linhas que mostram a ineficácia do sistema de "pool". A Braso Lisboa poderia servir sozinha a linha, mas sua barreira é a 1001, com um serviço bastante decadente para sua reputação, provando por A mais B que dividir uma mesma linha para mais de uma empresa é uma medida inútil.

2) Há também o interesse de grupos empresariais de explorar certos ramais, determinadas regiões de bairros etc. Em certos casos, a secretaria municipal de transportes dá uma de rei Salomão e "racha" uma linha para duas ou mais empresas. Isso também pode envolver interesses político-eleitorais, como uma empresa de ônibus atuar num bairro que seu proprietário deseja que seja seu reduto político, visando a eleição de seu "laranja" político.


COLOMBO - Réplica de antigo ônibus da Grande Curitiba, usado para exposição de busologia. O desenho não é dos mais lindos, mas diante da mesmice da uniformização visual, esse ônibus chega a ser um dos mais contemplados pelos busólogos brasileiros.

O "pool" mostrou-se mais desvantajoso do que vantajoso. Impede a autonomia de uma empresa no serviço da linha em questão. Dificulta a reclamação dos passageiros, já que as empresas envolvidas podem trocar acusações. Há o risco de "pegas" para disputar passageiros, podendo causar acidentes. E, do contrário que os defensores do "pool" argumentam, não é possível haver super-autoridades municipais para estabelecer um controle rígido na operação, até porque é muito mais fácil e eficaz uma autoridade controlar uma linha servida por somente uma empresa do que uma linha servida por mais de uma.

PADRONIZAÇÃO VISUAL: UM DESASTRE QUE INCLUI DISCRIMINAÇÃO SOCIAL

Leonardo Ivo alertou que a padronização visual dos ônibus pode significar discriminação social, além de dificultar a identificação de uma empresa e de representar uma aliança espúria de poder político e poder econômico.

A padronização visual pressupõe um projeto de sistema de ônibus que mistura controle estatal com iniciativa privada. Em São Paulo, essa "encampação branca" mostra o quanto o "modelo curitibano" não está mais oferecendo respostas para o problema do transporte coletivo. Uma estatal não-assumida, SP Trans, que distribui grupos de linhas para sete consórcios (oligarquias empresariais controladas pelo Estado), linhas estas que não são distribuídas com critérios rigorosos (como área de bairros, por exemplo).


SÃO PAULO - A "curitibanização" não fez melhorar o transporte paulistano, alvo de muitas queixas dos passageiros.

A padronização visual e os procedimentos que trará tira a personalidade operacional das empresas de ônibus, pode fazer com que a renovação de frota se torne mais lenta, dependente da burocracia estatal, além de criar discriminação social, já que identificará os trajetos mais "nobres" e os mais "pobres", os ônibus mais "conceituados" e outros "humilhantes". A turma que pega os ônibus suburbanos ou linhas de micro-ônibus geralmente sairá perdendo.

Além do mais, um sistema com apenas sete consórcios - que, na prática, funciona como sete empresas - , controlado pelo Estado, numa cidade considerada a maior capital da América Latina, faz o sistema de ônibus se tornar mais complicado, mastodôntico e confuso. Torna-se mais difícil de se administrar. E, como já existe fusões de empresas paulistanas na surdina, o sistema paulistano está à beira de um colapso, cujos reflexos mais desastrosos ainda se apresentarão na época do triênio esportivo de 2014-2016.

CONCLUSÃO - A "curitibanização" dos ônibus, um projeto tecnocrático, durante anos expressou sua superioridade pela formação acadêmica de seus engenheiros e pelo discurso eficaz de seus projetos em seminários de tecnologia e transporte na Europa. Mas, aplicados à realidade concreta, esse projeto só teve eficácia provisória, tendo até algumas virtudes, mas que se tornou a longo prazo desvantajoso para os passageiros, que deveriam ser os verdadeiros interessados.

Até agora, muitas pretensas soluções do transporte coletivo - "pool", padronização visual, uso de bancos de plástico - só interessaram a tecnocratas, políticos e empresários, por mais que eles falem que é "em benefício dos passageiros, de acordo com estudos". Essas medidas mostram seu fracasso, mas até agora a vaidade de quem as decidiu e de busólogos "chapa-branca" insiste na prevalência das mesmas, sem atentar o prejuízo que tais medidas provocam.

É hora de repensarmos o transporte coletivo, sem apelarmos para ideias "mirabolantes" ou fórmulas "milagrosas" que apenas dão uma cosmética "futurista" ao serviço.

2 comentários:

Marcelo Delfino disse...

Qmerem ver uma amostra do fracasso do sistema de ônibus paulistano? Por enquanto, ele me provocou apenas um problema, mas um baita problema. No domingo, queria pegar uma linha de ônibus que segundo o GoogleMaps poderia me pegar no bairro de Pinheiros e me deixar na Moema. E a tal linha sequer apareceu. Tive que pegar um táxi para chegar "apenas" 40 minutos atrasado na Moema.

Imagine isso para quem mora em Sampa e tem que pegar busão todo dia.

rodrigo disse...

Gostei muito do texto, me identifico muito com o assunto, mesmo porque sou um busólogo iniciante que não aceita o domínio que as empresas de transporte coletivo urbano tem sobre órgãos públicos da cidade que moro.
Aqui em Juiz de Fora MG, não sei você ouviu falar... a máfia das empresas que operam o transporte coletivo estão no comando a mais de 15 anos e tudo é feito se tais empresas aceitarem!
Temos os mesmos problemas de padronização de identificação(pelo menos são sete cores para sete empresas e divisão pro bairros e não pro regiões), temos fraudes nas planilhas de custo para que se eleve a passagem a um preço que favoreça somente aos empresários e a prefeitura, os serviços prestados são de péssima qualidade(temos ônibus novos na cidade comuns e adaptados para cadeirantes, mas que são em sua maioria curtos, com bancos de fibra de vidro, uma linha apenas com ônibus com ar condicionado que não funcionam, sendo que Juiz de Fora já precisa desse serviço em maior quantidade)agora que veio a pública a farça das planilhas de custo,a prefeitura ainda deu quase dois anos para essas empresas continuarem operando o sistema e quer implantar o tipo de transporte parecido com o de Curitiba.
Até então eu não conhecia os problemas desse sistema, ainda acho que daria certo pra Juiz de Fora porque já existem corredores para os ônibus e isso já foi testado, só não aprovado pela população porque não foi feito o processo completo e sim de apenas uma região da cidade!
mas ainda sim, tenho a seguinte opinião:
Deve se colocar uma pessoa experiente em relação ao assunto coordenando uma reestruturação no transporte coletivo de Juiz de Fora, que seja feito o estudo para melhorar isso, que sejam tiradas desse serviço todas as empresas que atuam aqui, e que seja mostrado em licitação o que a prefeitura quer que essas novas empresas que vencerem essa licitação apresentem e façam. Para tirar o domínio das mãos dos empresários e voltá-lo para o órgão público.
ih... acho que falei bastante!!!
Mas é isso, no mais um abraço e boa noite!
Rodrigo Barros
http://fotolog.terra.com.br/lovbus
esse é o meu fotolog, dá uma olhadinha lá e comenta hein, rsrsrs!