domingo, 22 de novembro de 2009

Cristo Redentor, segundo a padronização visual de Eduardo Paes


Num seminário realizado no Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes justifica seu projeto de padronização visual das obras de arte, vendo a platéia assustada com o novo Cristo Redentor.

- Sei que este projeto é muito polêmico, as reações foram esperadas por nós. Mas a ideia mesmo é destruir o atual Cristo e substituir por uma obra mais funcional e interativa, dentro dos padrões estudados pelos nossos melhores técnicos, do Rio de Janeiro e do Paraná. O novo Cristo Redentor está seguramente identificado, através do nome citado nesta nova obra, que parece uma plaqueta mas é uma obra de arte, e o nosso país é identificado por essas duas graciosas tarjinhas, uma verde e outra amarela.

- Senhor prefeito. - diz alguém da platéia. - Como é que fica a imagem do antigo Cristo, que tanto nos marcou durante várias gerações?

- Ora, meu caro, sr. (cita o nome do cidadão). - diz Eduardo Paes, sorrindo. - A imagem antiga do Cristo é detentora de uma iconografia extensa, incluindo fotos, imagens de cinema e vídeo etc. Essas imagens permanecem, na lembrança afetiva de quem gosta. Esse novo Cristo foi traçado diante estudos de demanda, segundo os mais cautelosos critérios técnicos, e nossos técnicos têm profunda experiência no assunto, têm doutorado e reputação ilibada.

- Mas essa padronização que o senhor bolou para as obras de arte não representa a morte da arte e o desaparecimento de tudo aquilo que foi bom, que marcou gerações, que expressa até hoje sua beleza? - pergunta um jornalista.

- Não acredito. - disse Paes, com ar seguro. - Essa padronização aliás é o que há de mais avançado na preservação da arte. Criamos padrões visuais que orientam o espectador quanto à época e o movimento de tal obra. Isso é funcional. E o aspecto interativo é a maior graça dessa grande novidade, o espectador vê a obra como quer, e junto a ela será colocado um perfil biográfico de cada autor e do movimento a que pertenceu, e aí o espectador lê e interpreta do seu jeito.

- E por que a obra é padronizada com a cor para a arte moderna? Não seria melhor padronizar com a cor da arte cristã, ou, quando muito, renascentista? - pergunta um arquiteto.

- Não. - disse Eduardo Paes. - O fato do Cristo Redentor ter sido esculpido no final dos anos 20 e inaugurado em 1931 dá à obra o status de arte moderna, que é o que estava em vigor na época, segundo os historiadores que trabalharam em nosso projeto.

- Por que o senhor pensa nas obras do mundo inteiro? E por que os títulos em português? - pergunta um estudante.

- Ora, se você quer, a gente bota títulos em inglês. De toda forma, será no mundo inteiro, sim, porque nossos técnicos e engenheiros são dotados de reputação superior o suficiente para interferirem, sim, nas obras artísticas, encerrando aquele ciclo das obras diferentes. Hoje o que teremos são obras com um mesmo visual, um visual padronizado, com a cor relacionada a cada tendência artística. E daremos total liberdade para o espectador interpretar essa obra. Não é o máximo? E teremos em breve novas concepções da Estátua da Liberdade, da Torre Eiffel e até da incômoda Torre de Piza, todos substituídos por plaquetas que orientem o contexto histórico-cultural dessas obras.

- Mexer no Cristo é uma blasfêmia! - disse um padre católico. - Isso é uma ofensa, é um acinte ao nosso grande Jesus, mestre de todos os mestres. Como é que se vai substituir uma escultura que representa a maior figura humana que nós tempos, por uma plaqueta que mais parece pirulito de caramelo?

Eduardo Paes, um tanto acanhado, se recompõe e fala, calmamente:

- Essas polêmicas também foram esperadas. Eu entendo muito a sua visão. Mas coisas novas são sempre assim. Acho que em dez anos o projeto do novo Cristo vai pegar, e todos ficarão acostumados. O senhor também compreenderá. Não há nada de mal rezar para um picolé, pirulito ou o que quer que pareça. Reza-se com a alma, até de olhos fechados, e não para uma escultura. Hoje vivemos o novo, a beleza é isso, e os Cristos, Mona Lisas, Vênus, etc, todos serão recordados permanentemente em fotos, imagens etc. A idéia do novo será através desses novos quadros, que orientam o leitor sobre o movimento cultural e o autor dessa foto. Terá mais funcionalidade, mais interatividade. Já falei com os políticos de Minas Gerais e vamos, sem dúvida alguma, padronizar as obras do mestre Aleijadinho nesse mesmo padrão. O Profeta Daniel, obra do grande mestre mineiro, será substituída por uma plaqueta, de acordo com os nossos padrões técnicos, visualmente padronizados desta forma:


E assim termina mais um evento onde prevaleceu os interesses político-tecnocráticos.

9 comentários:

Lucas Rocha disse...

Se fizessem, lá na Cinelândia, uma passeata pedindo a renúncia do prefeito do Rio, Eduardo Paes, será que os estudantes da UNE e artistas plásticos vão dançar a "macarena" dos anos 90?

O Kylocyclo disse...

Não, eles vão dançar o "Créu", mesmo. Não notou o "Trem do Funk"? Pois é, o batidão está na moda, massacrando nossos ouvidos.

Se bem que há poucos minutos, ouvi da vizinhança uma "maravilhosa canção" da dupla Zezé di Camargo & Luciano. O sertanojo também quer entrar no Rio. Infelizmente.

Lucas Rocha disse...

Mas, se a "macarena" dos anos 90 voltar a fazer sucesso em 2011, será que vão gravar uma versão "funkeira" da música de 1995 "Hey Macarena"?

O Kylocyclo disse...

Sem dúvida. O "funk", ambicioso, pode fazer tudo. As mulheres-frutas até evocaram a "mestra" Gretchen, a "Mulher-Melancia" dos anos 70!

Então deve vir uma "macarena" bem esperta nas pick-ups do DJ Marlboro. Tudo em nome da "cidadania"!

Lucas Rocha disse...

Tá bom. Mas eu queria saber uma coisa: se, em 2014, o "funk carioca" entrar em decadência depois de ter alcançado o Brasil inteiro, será que os cantores e dançarinos desse ritmo vão se mudar para o jazz orquestral do Ray Conniff ou para o "pagonejo"?

O Kylocyclo disse...

Provavelmente os "artistas" funqueiros se tornarão empresários e voltarão para o ostracismo. Se bem que o DJ Marlboro já é empresário, então ele deve abrir uma rede de supermercados, eu acho.

Lucas Rocha disse...

Já sei, os funkeiros vão virar empresários. Mas eu queria saber uma coisa: como seria o encontro das "mulheres frutas" com as misses dos anos 50 e 60 Martha Rocha, Terezinha Morango, Adalgisa Colombo, Ieda Maria Vargas e Martha Vasconcellos, seria igual ao encontro dos índios Chitãozilma & Xororó com o maestro João Carlos Martins?

O Kylocyclo disse...

Acho que daria em saia justa.

Lucas Rocha disse...

Já sei que esse encontro deveria terminar em encrenca... Mas, por favor, me responda uma coisa: será que, nos anos 70, o maestro João Carlos Martins já se apresentou alguma vez, com sua orquestra, no programa "Concertos para a juventude", que passava na TV Globo domingo de manhã, depois do "Globo Rural" e antes do "Som Brasil"?