quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A questão da direita ideológica


Eu sou esquerdista. Mas sou um esquerdista realista, afinal vivo num país que é considerado capitalista até pela Constituição Federal.

Realista, não posso ficar passivo com os erros que a esquerda faz, seja no Brasil, seja no mundo. Por isso não fico com medo de criticar a esquerda, não fico cultuando totens. Eu questiono os projetos de justiça social defendidos pelo establishment esquerdista, que não obstante adota um comportamento esquizofrênico no Brasil capitalista, perdido entre os ideais da Rússia de 1917, de Cuba de 1959 e do neoliberalismo ocidental dos dias atuais.

Não ponho a mão no fogo pelo Movimento dos Sem-Terra, sei que dentro do rótulo MST existem vândalos, arruaceiros, corruptos. Afinal, é tanta gente envolvida que não dá para crer que o movimento em si seja íntegro, reconhece-se que existem picaretas e aproveitadores. O problema é que a grande mídia vê o MST como se fosse tão somente essa horda do mal. Isso enquanto adota postura cautelosa até demais com o "funk carioca" mesmo com a pornografia explícita das mulheres-frutas (discípulas das antigas dançarinas do É O Tchan) e a pedofilia livremente praticada nos "bailes funk".

A direita ideológica, por outro lado, é uma ideologia das elites. Geralmente são ideais desenvolvidos sob o ponto de vista dos grupos sociais dominantes e privilegiados. Raramente aparecem pessoas sensatas na direita, mas reconheço que elas existem. E às vezes o pensamento de direita acerta em algumas coisas, sobretudo na frouxidão de muitos esquerdistas.

Vi a Mídia Sem Máscara, comentada pelo meu amigo Marcelo Delfino, algumas vezes. As críticas à grande mídia, em muitos casos, são pertinentes, mas o ponto de vista é inverso. Para esses direitistas, a "mídia fofa", por exemplo, é voltada para a esquerda. É um ponto de vista discutível, fantasioso, mas acerta quando questiona o pseudo-heroísmo de veículos de imprensa como o Grupo Bandeirantes, que acha que vai fazer Revolução Francesa no Brasil através do jornalismo.

Devemos enfatizar que a direita acredita na resolução dos problemas sociais desde que haja divisão de classes. Seguindo uma tradição ligada ao protestantismo calvinista e luterano, a direita acredita que as elites detém privilégios por mérito, e que o povo sofre miséria porque quer. Pequenas adaptações ideológicas, ao curso do tempo, apenas permitiram adotar paliativos à miséria, sempre mantendo o sistema de dominação dos ricos sobre os pobres.

Na cultura brasileira, evidentemente a direita não aprecia o brega-popularesco. Os direitistas parecem se voltar para um gosto musical mais ortodoxo possível, de preferência música clássica. Mas ainda deve-se fazer um estudo a respeito disso.

Mas a direita brasileira, a título de dominação sobre as classes pobres, investe na música brega-popularesca baseando-se no princípio de que um povo culturalmente fraco é facilmente manipulável. Daí TODA essa suposta "música popular", de Waldick Soriano ao MC Créu, passando por chitões, chicletões, zezés, tchans, gretchens, calcinhas, latinos, mulheres-frutas e tudo mais, é patrocinada, com gosto, pela direita brasileira, sobretudo aquela dotada de instintos populistas de cunho conservador (como o falecido baiano Antônio Carlos Magalhães).

Mas a direita investe, inventa e sustenta o brega-popularesco - que chamo de Música de Cabresto Brasileira porque ela se impõe ao gosto popular como o velho "voto de cabresto" ao eleitorado da República Velha - com a mesma perspectiva que, na comédia brasileira, vemos no personagem de Chico Anísio, Justo Veríssimo, que queria que o povo se explodisse.

Por isso é que, no fundo, não é contraditória a atitude de Olavo Bruno ou de um membro da APAFUNK, que defendem a guarita da mídia conservadora a breganejos e funqueiros, e a de Olavo de Carvalho, que condena a "cultura popular" que rola hoje nas rádios. A aristocracia quer o brega-popularesco não para si, mas para o povo manter-se domesticado e conformista.


CARLOS LACERDA

Um dos poucos direitistas cuja trajetória foi marcada até pelo seu alto reacionarismo, mas também por uma rara sensatez, foi o político e jornalista Carlos Lacerda (1914-1977).

Ele foi filho de comunista (o também jornalista Maurício de Lacerda), e chegou mesmo a ser esquerdista. Mas um incidente entre Lacerda e os comunistas, provavelmente ligado aos bastidores do jornal para o qual Lacerda era redator, o fez mudar de lado radicalmente.

Mas Carlos Lacerda, se veio a se transformar em direitista, transformou-se de uma maneira que assustou até a direita política. Era um membro peculiar dentro da União Democrática Nacional (UDN - atual DEM, Democratas).

Lacerda era brilhante orador, escrevia ótimos textos, era muito inteligente e de uma cultura refinada. Opôs-se com tal fúria ao segundo governo de Getúlio Vargas que descobriu-se que o segurança do líder gaúcho, o negro Gregório Fortunato, contratou os pistoleiros que tentaram matar o jornalista, mas acabaram tirando a vida do segurança de Lacerda, o major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, em agosto de 1954. Mas, dias depois, o atentado provocou uma séria crise política que resultou no suicídio de Vargas.

O perfil direitista de Lacerda o fazia se opor à esquerda com energia. Ele defendeu o Golpe de 1964. Mas sua personalidade original o fez também um excelente governador para o Estado da Guanabara, com uma administração transparente e até ousada, construindo conjuntos habitacionais para transferir a população das favelas que seriam depois destruídas. A Vila Kennedy e a Cidade de Deus surgiram na administração Lacerda.

Mas até que ponto Lacerda era de direita, não se sabe. Uma atitude de seu governo era, curiosamente, típica de esquerda. Para combater a irregularidade administrativa da empresa estrangeira Light, operadora dos bondes cariocas, Carlos Lacerda criou uma estatal, a Companhia de Transportes Coletivos (empresa que ainda existiu durante minha adolescência), extinguindo a concessão da Light e substituindo os velhos bondes pelos trolebuses e, depois, pelos ônibus.

Um comentário:

Edilson Trekking disse...

Alexandre,e eles seguem uma tradição do protestantismo luterano e calvinista num país de maioria católica?No Brasil são pouquissimas as familias que são protestantes de tradição ou de segunda geração. Eu mesmo fui batizado na Igreja Católica Apostólica Romana e fui criado assistindo a culto protestante.Se fizer uma pesquisa com certeza 90% dos politicos são católicos.Os "coronéis" nem precisa dizer de que religião são.