quinta-feira, 22 de outubro de 2009

PAUL ANKA E OS BREGAS BRASILEIROS


Paul Anka (E), cantor de pop romântico do final dos anos 50 que voltou à cena com uma parceria não-creditada com Michael Jackson, e Benito di Paula, um de seus similares no Brasil.

Quando se critica o brega-popularesco, algumas pessoas, temerosas, passam a defender parte dos artistas bregas mais antigos, como se eles não estivessem ligados ao universo musical criticado.

São geralmente nomes ligados ao "brega de raiz", uns até com músicas gravadas por medalhões de MPB, que aos poucos tentam se infiltrar nos redutos reservados à MPB autêntica. É aquele papo que esteve muito em moda nos anos 90: "não é aquela maravilha, mas é melhor do que nada".

Benito di Paula, Odair José, Moacir Franco, Luís Ayrão, Wando e até Michael Sullivan & Paulo Massadas são alguns desses nomes. E tem também o Amado Batista, que agora trabalha a falsa imagem de "discriminado", como se nunca tivesse feito sucesso algum na vida.

Só que esses cantores equivalem, na música brasileira, àqueles cantores melosos que vieram na cola de Elvis Presley: Pat Boone, Ricky Nelson, Bobby Darin, Neil Sedaka, Paul Anka e, anos mais tarde, Johnny Rivers. Todos fazendo uma pasteurização do rock de Elvis bem ao estilo comercial-romântico.

O que faz confundir muita gente é que os citados cantores brasileiros, na verdade, correspondem ao que se tornaram Paul Anka e Neil Sedaka, que mudaram de rumo, passada a onda dos imitadores de Elvis, seja com o surgimento de cantores galãs que faziam rock de verdade (Del Shannon, Dion Di Mucci, Bobby Vee e Ronnie James Dio - sim, ele mesmo, que depois foi fazer rock pesado), seja com as bandas de guitar instrumental (Ventures, Surfaris, Dick Dale & The Del Tones), seja com a "invasão britânica" puxada pelos Beatles.

Dessa forma, Paul Anka e Neil Sedaka se tornaram compositores pop, fazendo canções românticas que se tornaram sucesso. Viraram artesões do hit parade. Uma música de Paul Anka, 'My Way", versão de uma música francesa, foi gravada por Frank Sinatra já não mais no auge da carreira deste, em 1969. Neil Sedaka teve canções gravadas pelos Carpenters. No fundo esses compositores passaram a competir com os verdadeiros artistas da composição, como Burt Bacharach e Carole King.

Pois foi justamente nessa época, quando o pop comportadinho voltou às paradas diante da crise mundial da Contracultura, em 1968, que os cantores bregas "sofisticados" entraram em ascensão. Hoje eles trabalham a imagem de "injustiçados", mas eles se acomodaram muito bem no establishment musical na época mais dura da ditadura militar. E não vale Paulo César Araújo dizer que isso foi por antídoto, afinal o sucesso desses cantores se dá não como reação do povo à ditadura, mas como forma de controle social das rádios que apoiaram o regime militar e que fizeram propagar, com gosto, os primeiros sucessos do que a partir de 1972 se conheceria como música brega.

Esses cantores apenas cumprem as regras de composição musical, criando melodias fáceis, letras de amor convencionais, para garantir grande sucesso entre o público. Por boa fé, artistas de MPB ou mesmo ex-integrantes da Jovem Guarda também gravaram esses compositores, o que fez muita gente acreditar, diante da avalanche de Créu, Tchan etc, que Benito di Paula, por exemplo, era "genial". Mas o que ele fazia na verdade era imitar o som do Wilson Simonal mas dentro de uma perspectiva brega da linha de Odair José.

O maior perigo que hoje vivemos, com a "reabilitação" dos primeiros ídolos bregas, é o que vai acontecer daqui a alguns anos, quando a terceira geração da música brega (Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Belo, Zezé Di Camargo & Luciano, Daniel, Leonardo) gozar dessa mesma "reabilitação". Aí vai ser desesperador.

A MPB autêntica já perde muitos espaços, seja na mídia, seja no mercado, seja nos espaços culturais. Quando muito, só entra como figurante ou coadjuvante de terceiro grau. Até os medalhões da MPB autêntica já não têm novos hits, e isso não é por falta de produção musical (Milton Nascimento e Djavan continuam fazendo e lançando novas músicas), mas porque a mídia gorda já começa a dar ordem de despejo a eles.

Agora, a MPB autêntica sofre a pior das ameaças: a de perder os poucos espaços que ainda têm, que começam a ser invadidos pelos ídolos mais antigos do brega-popularesco.

2 comentários:

Marcelo Delfino disse...

Alexandre, venho pedir socorro a você. Lá no tópico A bregalização da MPB FM da comunidade Dial Rio de Janeiro, nosso amigo Ernesto disse que Benito Di Paulo é legal. Temos que socorrê-lo dessas bobagens.

O Kylocyclo disse...

Sem dúvida. O assunto do brega não está esgotado. Vem mais coisa por aí.