sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Os falsos Picassos Falsos


Na foto, a banda carioca Picassos Falsos, que realmente fez fusão de ritmos brasileiros com rock; no entanto, nos anos 90 vários grupos tidos como "roqueiros" apenas se limitaram a fazer ritmos regionais com guitarra grunge e clichês "roqueiros".

Fusão entre rock e ritmos regionais é diluída e fórmula se desgasta nas bandas novas

OBS.: Devido a este texto, recebi e-mail do próprio Luiz Henrique Romanholli, dos Picassos Falsos, elogiando meu texto.

Alexandre Figueiredo
Tributo Flu FM - 21 de janeiro de 2004.

No Jornal Hoje, noticiário de início da tarde da Rede Globo de Televisão, existe um espaço para divulgação de bandas nacionais emergentes, transmitido nas terças e quintas. Na maior parte das bandas divulgadas, existem grupos de diversas regiões do país que fazem uma mistura de ritmos regionais com ritmos estrangeiros, não necessariamente o rock, embora seja em nome dele que ocorre tal mistura.

Todavia, essas bandas já pecam pela pretensão excessiva no rock e pelos ritmos regionais mal explorados, porque se tornaram escravos de uma atitude roqueira que se torna tão vaga e banal, que hoje muitos defendem a "atitude rock" sem saber realmente do que se trata, enquanto muitas coisas tidas como "atitude rock", como o uso de piercings, tatuagens e a prática de esportes radicais, hoje já fazem parte da rotina de muitos ídolos popularescos, os mesmos que são repudiados pelos roqueiros autênticos.

As bandas tentam seguir a cartilha lançada nos anos 80 pelo grupo carioca Picassos Falsos, pelo paulista Fellini e pelo cenário de mangue beat de Pernambuco, influência esta que é a mais predominante entre os grupos emergentes.

Pioneiro na fusão de samba, Tropicalismo, rock e soul music e liderado por Humberto Effe, vocalista e eventual guitarrista, o grupo Picassos Falsos voltou a se apresentar recentemente, depois de mais de uma década extinto e após a tentativa de carreira solo de Effe não ter dado comercialmente certo (apesar de Effe manter no seu único álbum, de 1995, a linha de sua ex e agora atual banda). Um dos clássicos do gênero é o disco Supercarioca, de 1988, segundo álbum da banda e que foi um fracasso comercial na época, embora hoje seja bastante procurado nos sebos de todo o Brasil. O fracasso se deu porque o disco foi considerado difícil para ser divulgado nas rádios. Neste álbum, estava na formação também o baixista Luiz Henrique Romanholi, conhecido como "Minhoca" - não confundir com o paulista Minho K, codinome de outro jornalista, o falecido Celso Pucci, dos 3 Hombres - e que trabalhou no Segundo Caderno de O Globo (ele escreveu até texto sobre o livro A Onda Maldita, de Luiz Antônio Mello).

O grupo paulista Fellini, por sua vez, é liderado pelos também jornalistas Cadão Volpato e Thomas Pappon, que nos anos 80 trabalharam na Editora Abril, respectivamente na revista SET (sobre cinema, até hoje em circulação) e BIZZ (extinta, mas com projeto de volta). Às vezes contando com Ricardo Salvagni e Jair Mattos, noutras apenas como dupla, o Fellini começou como grupo pós-punk para depois fazer uma MPB excêntrica, algo como uma releitura pós-punk da Bossa Nova. Entre idas e vindas, o Fellini se tornou a maior banda cult do Brasil depois dos Mutantes e recentemente tocou no Tim Festival. Para o rock contemporâneo mainstream, trata-se de uma referência raramente evocada.

O cenário do mangue beat pernambucano, atuante desde o final dos anos 80, causou impacto na música brasileira em 1993, através de grupos como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. Chico Science era um personagem peculiar, criativo e inteligente, que no auge da carreira faleceu em um acidente de carro quando ia para a casa do outro músico do NZ, Jorge Du Peixe (que se tornou o vocalista do grupo), em fevereiro de 1997, época em que faleceram dois intelectuais apreciados pelos jovens alternativos de então, o jornalista Paulo Francis e o educador Darcy Ribeiro. Depois de Science, o mangue beat, que era uma mistura renovadora de maracatu, hip hop, rock e outros estilos regionais ou estrangeiros, passou a se dividir em duas tendências principais: a fusão entre música eletrônica e maracatu (Otto, Nação Zumbi) e a concentração nos ritmos tradicionais pernambucanos (Cascabulho, Mestre Ambrósio).

A explosão do mangue beat gerou um problema, na medida em que hoje qualquer região tem uma banda imitando a Nação Zumbi, quase sempre sem a criatividade deste grupo. Até nos condomínios de classe média alta de Curitiba e São Paulo se fazem grupos com "ritmos nordestinos", enquanto que Santa Catarina e Rio Grande do Sul fazem a sua tradução trocando os ritmos nordestinos pelos ritmos dessas regiões.

Esse problema está num certo apego ao rock, que não se vê na prática. As bandas possuem o elemento regional bem mais forte, mas em contradição a isso seus músicos se recusam a assumir a MPB, pelo preconceito de a acharem elitista, como se MPB fosse coisa de cantores solo, de letras de amor ou temáticas urbanas, de baladas românticas com arranjos fusion. Um grande engano. O lado MPB está mais forte nessas bandas, que no entanto ficam com uma atitude burra de se auto-proclamarem "roquenroool", sob o pretexto de seu estilo ter "um pouco de tudo".

Em outros tempos, mais especificamente nos anos 60, grupos musicais jovens que tocam ritmos regionais não admitiam o rock como seu estilo. Com a Tropicália e seus derivados, vieram alguns grupos que até fizeram misturas interessantes entre rock e ritmos regionais, e assumiam a atitude rock com inteligência, sem renegarem a MPB. Atualmente, porém, a situação é até digna de uma anedota.

Imaginemos um concerto de uma banda que toque ritmos nordestinos, como o baião, o maxixe, o maracatu. Seus músicos tocam músicas próprias e também canções de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Quando todo mundo se convencia estar diante de uma apresentação de um grupo da pura e autêntica música nordestina, eis que o vocalista encerra o som, dizendo: "Este show é dedicado ao grande Kurt Cobain, nosso mestre, pelo eterno serviço ao 'roquenrol'. Tamos com você, Kurt. 'Roquenrol', u-huuuu!...".

A MPB carece de novas bandas e o rock, por outro lado, já está saturado de conjuntos "regionais". Quando a mistura vira uma fórmula, um lugar-comum, cansa os ouvidos e desgasta a fórmula, e pode fazer com que as bandas novas desperdicem seu trabalho caindo no esquecimento. Certamente, as bandas não irão gostar de cair no ostracismo, como já ocorreu com grupos como o Jambêndola.

A solução é reforçar o lado MPB, o lado música regional, até porque o lado rock desses grupos híbridos é muito fraco. O grupo gaúcho Ultramen, por exemplo, no seu disco recente, A incrível história do homem que encolheu, provou ser melhor quando toca soul, MPB e reggae, enquanto seu lado rock acabou sendo medíocre, chato. Insistir na tecla do rock nem sempre garantirá o status de vanguarda nessas bandas. E será melhor elas assumirem a MPB, antes que a MPB vire refém de breganejos e pagodeiros pedantes.

CINCO ANOS DEPOIS

Alexandre Figueiredo - 16.10.2009

Passados cinco anos, o mercado roqueiro está em baixa e, vendo as coisas à distância, compreende-se que não apenas grupos jovens que tocavam baião e samba se disfarçavam de "roqueiros" para entrar nas ditas "rádios rock" (as tais "Jovem Pan 2 com guitarras, não mais as rádios autenticamente rock, desaparecidas anos antes), que na época era o maior referencial para o mercado de música jovem.

Aliás, não apenas as bandas emergentes de música regional se fantasiavam de "roqueiras", colocando uma "muralha de guitarras" inspirada no grunge ou apelando para clichês "roqueiros", que, dependendo do caso, poderia ser até mesmo usar uma camiseta com frase em inglês. Até bandas de funk autêntico, da linha KC & The Sunshine Band, se fantasiavam de "rock" copiando mal alguns clichês inspirados nos Rolling Stones e Led Zeppelin.

Por isso vieram uma enxurrada de bandas que prometiam um "rockão" misturado com ritmos regionais, na tentativa de unir guitarras e brasilidade, mas só faziam ritmos regionais quase puros, apenas com alguma guitarra elétrica e uma atitude "cosmopolita" de seus integrantes. Nada que lembre as experiências que Picassos Falsos, Fellini, Black Future, ou mesmo nos músicos oitentistas que fariam o mangue beat na década seguinte, que realmente misturam rock com ritmos regionais dando peso igual para ambos.

Nos anos 90, grupos como Jambêndola e até mesmo Farofa Carioca e Funk'n'Lata tentaram embarcar no rótulo "rock", visando ingressar no mercado radiofônico e daí entrar na MTV. E abriu caminho para um monte de bandas com essa atitude, todas fazendo mais ritmo regional que rock, mas presas a uma "atitude rock" que eram obrigadas a perseguir para sobreviver.

O extremo disso tudo ocorreu não com uma banda emergente, mas com um grupo já veterano no sucesso comercial, o Jota Quest. Surgido como J. Quest, o grupo teve que mudar o nome devido a uma ação judicial dos representantes da Hanna-Barbera Productions, já que o antigo nome aludia a Johnny Quest. Originalmente, o Jota Quest era o KC & The Sunshine Band brasileiro, menos criativo que a banda de Harry Casey, porém era honesto e sincero na atitude soul.

Só que o Jota Quest passou a ser empresariado pelo ex-surfista Ricardo Chantilly (o mesmo que coordenou a fase decadente da Fluminense FM) e investiu numa pretensão "roqueira" que tornou o grupo bastante ridículo, com o guitarrista enchendo os braços de tatuagens e a banda, como um todo, exagerando na pose. No som, porém, o máximo que eles conseguiram chegar foi na imitação da fase recente do Lenny Kravitz, que já não fazia mais aquela brilhante fase inicial com seus discos mixados à maneira dos anos 70.

Com a diluição do radialismo rock feita pelas emissoras Rádio Cidade (RJ) e 89 FM (SP), o mercado roqueiro declinou a quase zero. O que as duas rádios fizeram de erros desmoralizou o segmento, abrindo o caminho para a penetração da música brega-popularesca no mesmo público jovem de classe média que a odiava. Produtores da Rádio Cidade, aliás, migraram para o "funk" e os da antiga "rádio rock", dos mesmos donos da Nativa FM, migraram para o breganejo.

Com isso, acabou também o fenômeno das bandas de ritmos regionais disfarçadas de "rock". A essas alturas, o ex-Farofa Carioca, Seu Jorge, transformou-se num discípulo de Jorge Ben Jor e o grupo Falamansa fez os grupos de baião perderem a vergonha de se assumirem como tais em vez de fingir que são roqueiros.

Nenhum comentário: